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Pix pode se integrar ao TIPS, sistema europeu de pagamentos

Estudo conjunto entre Banco Central do Brasil e Banco Central Europeu avalia ligação direta entre o Pix e o sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro

Tatiana Botelho

📖 7 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Banco Central do Brasil e Banco Central Europeu conduzem estudo conjunto para avaliar a conexão direta entre o Pix e o TIPS, sistema europeu de pagamentos instantâneos em euros.
  • Se avançar, a integração pode permitir remessas entre Brasil e zona do euro em segundos, com menos bancos intermediários e potencial redução de tarifas e spreads cambiais.
  • Ainda não há prazo, tarifa, limites nem definição sobre quais instituições brasileiras oferecerão o serviço; nada disso está disponível hoje ao usuário final.

Enviar dinheiro para a Europa hoje ainda é caro, demorado e cheio de intermediários. Um estudo em andamento entre o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu quer mudar essa realidade ao avaliar a conexão direta entre o Pix e o TIPS, o sistema europeu de pagamentos instantâneos em euros. Se essa integração sair do papel, mandar valores para um familiar em Portugal, receber pagamento de um cliente na Alemanha ou reembolsar uma compra feita na Itália poderá se aproximar da experiência que o brasileiro já vive dentro do país: transferência em segundos e a custo muito baixo.

A proposta ainda está em fase de avaliação técnica e não há prazo definido para entrar em operação. Mesmo assim, o movimento é significativo porque envolve as duas autoridades monetárias diretamente e sinaliza a direção que os pagamentos internacionais devem seguir nos próximos anos: menos bancos intermediários, mais liquidação instantânea e integração entre sistemas nacionais que já provaram funcionar em larga escala.

Abaixo, explicamos o que essa possível ligação representa, o que pode mudar no bolso de quem faz remessas e quais são as próximas etapas.

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O que é o TIPS e por que ele importa para o Pix

O TIPS (Target Instant Payment Settlement) é a infraestrutura de pagamentos instantâneos operada pelo Banco Central Europeu, dentro do conjunto de serviços do Eurosistema, que permite liquidar transferências em euros em poucos segundos, 24 horas por dia, todos os dias do ano. É, guardadas as diferenças de moeda e de regulação, o equivalente europeu ao papel que o Pix cumpre no Brasil: garantir que dinheiro saia da conta de um cidadão e caia na conta de outro em tempo real, sem depender do horário de funcionamento de agências bancárias.

Quando se fala em "conectar Pix e TIPS", a ideia central não é substituir um pelo outro nem criar uma moeda comum. É construir uma ponte técnica entre os dois sistemas para que uma ordem de pagamento originada no Brasil, em reais, possa ser recebida na Europa, em euros, de forma instantânea, com uma única operação de câmbio embutida e sem passar pela cadeia tradicional de bancos correspondentes internacionais.

Essa cadeia é justamente o que hoje encarece e atrasa as remessas: cada intermediário cobra tarifa própria, aplica seu próprio spread cambial e opera em horários limitados.

A importância estratégica dessa conexão está no volume. A União Europeia é um dos principais destinos de brasileiros que moram, estudam ou trabalham fora do país, e também um mercado relevante para exportadores, prestadores de serviço e criadores de conteúdo que faturam em euros. Reduzir o atrito nessas transferências afeta diretamente milhões de famílias.

O que muda para quem envia dinheiro do Brasil para a Europa

Hoje, mandar dinheiro do Brasil para um país da zona do euro normalmente exige contratar uma operação de câmbio em um banco ou fintech, pagar tarifa de remessa, aceitar o spread cambial cobrado pela instituição e esperar de um a alguns dias úteis até que o valor caia na conta de destino. O custo total, somando tarifa e câmbio, costuma ser bem superior ao de uma transferência doméstica.

Com Pix e TIPS conectados, o desenho pode mudar em três frentes principais:

  • Velocidade: a liquidação passaria a acontecer em segundos, e não em dias úteis, aproximando a experiência internacional da que o brasileiro já tem no Pix doméstico.
  • Custo: com menos intermediários entre o pagador e o beneficiário, tende a haver espaço para tarifas menores. O câmbio ainda existirá — reais precisam virar euros —, mas a estrutura mais enxuta pode reduzir spreads.
  • Simplicidade operacional: a expectativa é que o usuário possa acionar a transferência a partir do próprio aplicativo do banco, informando uma chave ou identificador do destinatário, sem precisar preencher formulários longos de câmbio.

É importante deixar claro que nada disso está disponível hoje. O estudo entre as duas autoridades monetárias ainda avalia a viabilidade técnica, jurídica e regulatória da conexão, e prazos, tarifas e limites operacionais só serão conhecidos quando o projeto avançar. Até lá, quem precisa remeter valores segue usando os canais tradicionais.

O que muda para quem recebe dinheiro do exterior

O outro lado da ponte é igualmente importante. Freelancers que prestam serviço para empresas europeias, exportadores de pequeno porte, professores particulares que atendem alunos na Europa e famílias que recebem ajuda de parentes que emigraram enfrentam hoje um problema espelhado: os valores demoram a chegar, sofrem descontos ao longo do caminho e muitas vezes exigem contas específicas para receber moeda estrangeira.

Com a integração em estudo, o beneficiário no Brasil poderia receber o crédito diretamente em sua conta em reais, de forma quase imediata após o envio no exterior, com a conversão cambial acontecendo dentro da própria operação. Na prática, isso significa três ganhos concretos para o público que depende dessas entradas:

  • Previsibilidade sobre quando o dinheiro chega, reduzindo o risco de atrasos em pagamentos de contas ou compromissos assumidos no Brasil.
  • Menor perda no caminho, já que cada intermediário eliminado é uma taxa a menos.
  • Possibilidade de receber valores pequenos com viabilidade econômica. Hoje, muitas remessas de valor baixo simplesmente não compensam por causa das tarifas fixas.

Ainda assim, é preciso lembrar que toda entrada de recurso do exterior continua sujeita às regras brasileiras de câmbio, de identificação do remetente e, quando for o caso, de tributação. A integração muda a infraestrutura de pagamento, mas não elimina a necessidade de o usuário observar as obrigações fiscais que já existem sobre rendimentos recebidos de fora do país.

Prazos, custos e o que ainda falta definir

O ponto que mais gera dúvida é quando essa conexão estará disponível para o usuário final. A resposta honesta é que ainda não há data. O que existe hoje é um estudo conjunto conduzido pelas duas autoridades monetárias — o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu — para verificar se e como a integração pode acontecer.

Antes de qualquer serviço chegar ao aplicativo do banco, uma série de definições precisa ser feita:

  • Modelo técnico da conexão: como os dois sistemas trocarão mensagens e liquidarão as operações em suas respectivas moedas.
  • Regras de câmbio: como será feita a conversão entre real e euro dentro de uma operação instantânea, e quem será responsável por essa etapa.
  • Limites e horários: se haverá teto por transação, por dia ou por cliente, especialmente no início da operação.
  • Custo ao usuário: tarifa cobrada pelas instituições financeiras autorizadas a oferecer o serviço, que não se confunde com o custo do sistema em si.
  • Prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro: mecanismos de identificação de partes e monitoramento das operações, atendendo às regras dos dois lados.

Outro ponto que ainda não está fechado é quais instituições no Brasil poderão oferecer o serviço quando ele existir, e se a adesão será obrigatória, como acontece hoje com o Pix doméstico para bancos de determinado porte, ou facultativa.

Enquanto essas definições não vêm, vale acompanhar as comunicações oficiais do Banco Central, canal onde o projeto será formalmente detalhado quando avançar.

Como se preparar desde já

Mesmo sem data para entrar em operação, quem faz ou recebe remessas internacionais com frequência pode se organizar para aproveitar a mudança quando ela chegar. Três atitudes ajudam:

  1. Manter a documentação em dia. Comprovantes de renda, de origem dos recursos e contratos com clientes no exterior facilitam tanto a operação atual quanto a futura, já que qualquer canal de remessa exigirá conformidade com as regras de câmbio.
  2. Comparar o que se paga hoje. Anote o valor bruto enviado ou recebido, a tarifa cobrada e a cotação aplicada. Ter essa referência ajudará a medir, no futuro, o ganho real com a nova infraestrutura.
  3. Acompanhar canais oficiais. As novidades sobre o Pix, incluindo eventual integração internacional, são divulgadas pelo Banco Central. Evite decisões financeiras baseadas em promessas de serviços que ainda não existem.

O estudo entre o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu é um passo importante para transformar a forma como o brasileiro se relaciona com o dinheiro que atravessa fronteiras. Se a conexão entre Pix e TIPS se concretizar, a lógica das remessas internacionais tende a se aproximar do que já é rotina no Brasil: instantânea, barata e feita direto do celular. Até lá, o melhor caminho é entender como o processo funciona hoje e ficar atento aos próximos anúncios oficiais.

Referências

  • Banco Central do Brasil — portal institucional (bcb.gov.br)
  • Banco Central Europeu — TIPS (Target Instant Payment Settlement), página oficial do Eurosistema

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