Quaest: 69% têm renda maior, mas 32% perdem para a inflação
Levantamento mostra que a maioria dos brasileiros ganhou mais no último ano, mas boa parte não sente melhora no bolso por causa da inflação de preços básicos.
Tatiana Botelho
📖 8 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Pesquisa Quaest aponta que 69% dos brasileiros tiveram aumento de renda nos últimos 12 meses.
- Entre os entrevistados, 32% dizem que o ganho foi corroído pelo aumento do custo de vida.
- A diferença entre salário nominal e salário real explica por que ganhar mais nem sempre significa viver melhor no fim do mês.
Receber mais no fim do mês deveria significar viver melhor. Mas, para uma fatia considerável dos brasileiros, o aumento de renda do último ano virou pó na frente do carrinho do supermercado, da conta de luz e do aluguel. É isso que mostra um novo levantamento do instituto Quaest sobre a percepção da população em relação ao próprio dinheiro: 69% afirmam que a renda subiu nos últimos 12 meses, mas 32% dizem que o ganho foi corroído pelo custo de vida.
Esse descompasso entre o salário nominal (o número que aparece no contracheque) e o poder de compra real (o quanto esse dinheiro consegue efetivamente comprar) é um dos temas mais importantes da vida financeira hoje — especialmente para o trabalhador CLT, o aposentado do INSS e as famílias de baixa renda, que gastam uma parcela maior do que recebem com itens essenciais.
Nesta matéria, você vai entender o que a pesquisa revela, por que ganhar mais nem sempre quer dizer viver melhor e o que fazer, na prática, para proteger o seu bolso quando o custo de vida sobe mais rápido do que o salário.
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O que a pesquisa Quaest revelou sobre a renda do brasileiro
O ponto de partida do levantamento é positivo: 69% dos entrevistados afirmaram que a própria renda aumentou nos últimos 12 meses. É um indicativo de que o mercado de trabalho vem gerando oportunidades, de que reajustes estão chegando a parte dos trabalhadores e de que iniciativas de complemento de renda — como bicos, trabalhos por aplicativo e vendas por conta própria — estão de fato engrossando o orçamento das famílias.
Mas o próprio estudo joga um balde de água fria no otimismo. Entre quem viu a renda subir, uma parcela expressiva — 32% — reconhece que esse ganho foi todo (ou quase todo) absorvido pelo aumento do custo de vida.
Em outras palavras: o número no contracheque é maior, mas o que sobra no fim do mês é igual ou pior do que antes.
Esse tipo de dado é especialmente útil porque mostra como as pessoas estão se sentindo em relação ao próprio dinheiro — a chamada percepção de renda. E, em finanças pessoais, percepção importa tanto quanto o número frio: é a sensação de "estou conseguindo" ou "não estou conseguindo" que faz a família decidir se compra parcelado, se pega um empréstimo, se corta o plano de saúde ou se consegue, enfim, começar uma reserva de emergência.
Por que ganhar mais não é sinônimo de viver melhor
A explicação para esse paradoxo está na diferença entre dois conceitos que todo mundo deveria conhecer: salário nominal e salário real.
O salário nominal é simplesmente o valor em reais que você recebe. Se no ano passado você ganhava R$ 2.000 e hoje ganha R$ 2.200, seu salário nominal subiu 10%. Já o salário real leva em conta a inflação: se nesse mesmo período os preços dos itens que você consome subiram 10%, seu poder de compra ficou igual. Se subiram mais do que isso, você empobreceu — mesmo recebendo mais.
Para famílias de renda mais baixa, o problema é ainda mais grave. Isso porque uma parte muito maior do orçamento vai para itens essenciais — comida, energia elétrica, gás de cozinha, transporte e aluguel. E são justamente esses itens que costumam puxar a inflação para cima nos períodos mais apertados. O resultado é o que a pesquisa Quaest captou: a pessoa recebeu reajuste, trabalhou mais, pegou um bico — mas, na hora de pagar as contas, não sente diferença.
Outro fator que ajuda a entender esse descompasso é a chamada "inflação sentida". O índice oficial de preços é uma média do país inteiro, mas cada família tem a sua própria cesta. Quem mora em cidade grande sente mais o aumento do aluguel. Quem tem filhos sente material escolar e mensalidade. Quem depende do carro sente combustível. Quando esses itens específicos sobem muito, a sensação de empobrecimento é maior do que a inflação geral indicaria.
O que esse cenário significa para a sua vida financeira
Se você se encaixa nos 32% que viram o aumento ser engolido pelo custo de vida, o primeiro passo é entender que isso não é falha pessoal — é um fenômeno econômico que está atingindo milhões de brasileiros ao mesmo tempo. Mas isso não quer dizer que não há nada a fazer. Pelo contrário: períodos em que o custo de vida pressiona são exatamente os momentos em que organizar o orçamento faz mais diferença.
Alguns alertas importantes que esse tipo de cenário acende:
- Risco de endividamento crescente. Quando o salário sobe, mas não sobra, muita gente recorre a crédito caro para fechar o mês — cartão rotativo, cheque especial, parcelamento de fatura. Essas são as linhas de crédito mais caras do mercado e podem transformar um aperto temporário em dívida de longo prazo.
- Reserva de emergência estagnada. Se tudo que entra, sai, não há como poupar. E, sem reserva, qualquer imprevisto — uma troca de geladeira, uma consulta médica, um conserto do carro — vira motivo para mais dívida.
- Dificuldade de planejar o médio prazo. Objetivos como trocar de carro, dar entrada em um imóvel ou se aposentar com tranquilidade ficam travados quando o presente consome 100% do orçamento.
Reconhecer esses sintomas é o começo da virada. O passo seguinte é agir.
Como proteger o bolso quando o custo de vida sobe mais que o salário
Não existe fórmula mágica, mas existem decisões concretas que fazem diferença no fim do mês. Veja um roteiro prático para quem se sente dentro do grupo retratado pela pesquisa Quaest.
1. Faça um raio-X do orçamento por 30 dias. Antes de cortar qualquer coisa, você precisa saber para onde o dinheiro está indo. Anote tudo — do café da padaria ao boleto do streaming. A maioria das pessoas descobre, nesse exercício, pelo menos R$ 100 a R$ 300 por mês escapando em gastos que nem lembrava.
2. Separe gastos essenciais, importantes e supérfluos. Essenciais são moradia, comida, transporte, saúde. Importantes são educação, poupança, seguros. Supérfluos é todo o resto. Em momentos de pressão de custo de vida, o corte precisa começar pelos supérfluos — e, se necessário, revisar até os importantes.
3. Negocie o que já é dívida antes de contratar nova dívida. Se existem débitos atrasados, essa é a prioridade número um. Juros de rotativo e cheque especial estão entre os mais altos do mercado, e cada mês parado só aumenta o rombo.
Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.
4. Olhe com atenção para as linhas de crédito mais baratas antes das mais caras. Se precisar mesmo pegar crédito, compare bem. Modalidades com garantia (como consignado para quem tem direito, crédito com garantia de imóvel ou de veículo) costumam cobrar bem menos juros do que cartão e cheque especial. Mas atenção: contratar qualquer crédito sem planejamento só adia o problema.
5. Comece uma reserva de emergência, mesmo que pequena. Guardar R$ 50 ou R$ 100 por mês parece pouco, mas cria o hábito e, em um ano, já são R$ 600 a R$ 1.200 — valor suficiente para resolver muitos imprevistos sem precisar recorrer a crédito.
6. Busque fontes extras de renda com estratégia. Se o salário fixo não acompanha o custo de vida, pensar em renda extra deixa de ser luxo e vira necessidade. Mas é importante escolher atividades que não comprometam saúde física e mental, nem o emprego principal.
7. Reveja benefícios aos quais você pode ter direito. Programas sociais, descontos em tarifas de energia para famílias de baixa renda, isenções e revisões de benefícios do INSS podem representar uma folga importante no orçamento. Vale consultar os canais oficiais, como o site do INSS e o portal gov.br, para confirmar o que se aplica ao seu caso.
Conclusão: o que fazer com a informação da pesquisa
A pesquisa Quaest escancara um retrato que muita gente já sente na pele: 69% dos brasileiros estão ganhando mais, mas quase um terço desse grupo não vê a melhora no bolso. É um recado duplo. Para o país, mostra que a recuperação da renda ainda precisa se traduzir em melhora real de vida. Para você, leitor, é um lembrete de que, mesmo quando o salário sobe, controlar gastos, fugir das dívidas caras e construir uma reserva continuam sendo as decisões mais importantes para proteger o próprio futuro.
Se o próximo mês chegar e você sentir que o salário aumentou mas o dinheiro não rende, não se culpe sozinho — mas também não espere a economia resolver. Comece pelo passo mais simples: um raio-X honesto do seu orçamento. É dali que sai qualquer plano de verdade.
Referências
- Instituto Quaest — divulgação de pesquisa sobre percepção de renda do brasileiro
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