a wooden judge's hammer sitting on top of a table

Queda das bets pressiona Imposto Seletivo e reforma em 2027

Corte na receita das apostas online obriga o governo a recalcular a arrecadação do novo Imposto Seletivo, peça central da reforma tributária que entra em vigor no próximo ano.

Ricardo Silva

📖 10 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • As apostas de quota fixa foram regulamentadas pela Lei nº 14.790/2023 e sofreram sucessivas restrições que reduziram a arrecadação esperada.
  • O Imposto Seletivo, criado pela EC nº 132/2023 e detalhado pela LC nº 214/2025, contava com as bets como uma de suas principais bases de receita a partir de 2027.
  • Se o IS arrecada menos, a alíquota de referência da CBS e do IBS tende a subir para manter a carga total, encarecendo o consumo geral.
  • O impacto recai principalmente sobre trabalhador CLT, aposentado do INSS, servidor público e famílias de baixa renda, que sustentam a tributação sobre consumo.

O recuo do mercado de apostas online no Brasil, antes tratado como tema de comportamento e saúde pública, passou a ter efeito fiscal direto sobre a arrecadação do novo Imposto Seletivo e sobre a calibragem da reforma tributária que passa a valer, na prática, a partir de 2027.

O ponto é simples de entender e complicado de resolver: as apostas de quota fixa — as chamadas bets — foram desenhadas como uma das fontes relevantes do Imposto Seletivo, o tributo que a reforma criou para incidir sobre produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. Se essa base de arrecadação encolhe, alguém precisa compensar.

E, historicamente, quem compensa é o consumidor final e o trabalhador assalariado, seja via alíquotas maiores, seja via cortes em serviços públicos.

Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.

Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.

Este guia foi escrito para o público que sente esse ajuste no bolso: trabalhador CLT, aposentado do INSS, servidor público e famílias de renda baixa e média. Você vai entender, em linguagem direta, o que muda com o recuo das bets, como o Imposto Seletivo estava estruturado para receber esse dinheiro, por que a reforma tributária de 2027 depende dessa arrecadação e o que esperar do governo para fechar a conta.

Por que isso interessa a quem não aposta

Se você não aposta, pode estar pensando que o assunto não é seu. É, sim. A regra fiscal do país é como um cobertor curto: quando um tributo rende menos que o previsto, outro precisa render mais — e a conta costuma parar em quem tem o rendimento na folha de pagamento ou no benefício do INSS.

O que aconteceu com as bets e por que a arrecadação caiu

O mercado brasileiro de apostas de quota fixa foi regulamentado pela Lei nº 14.790/2023, que definiu regras de funcionamento, obrigou o pagamento de outorga para operar, criou a tributação específica sobre a arrecadação das casas e determinou a fiscalização pelo Ministério da Fazenda. A ideia original era transformar um mercado que já existia na informalidade em uma base tributável, com controle de operadores e proteção mínima ao apostador.

Desde então, esse arranjo passou por sucessivos apertos. Restrições à publicidade, bloqueios de sites não autorizados, limitações de pagamento por cartão de crédito e discussões judiciais e legislativas sobre a proibição parcial ou total da modalidade reduziram o tamanho do mercado formal e, com ele, a arrecadação esperada.

O ciclo que derrubou a receita

  • Redução do número de operadores autorizados, com casas saindo do país ou perdendo licença.
  • Queda no volume apostado (GGR), à medida que restrições de publicidade e de meios de pagamento cortaram a entrada de novos apostadores.
  • Migração de parte do público para o mercado clandestino, que não recolhe imposto no Brasil.
  • Judicialização de dispositivos da regulamentação, o que gera insegurança para as empresas decidirem investir.

O efeito prático é que a projeção de receita que a Fazenda usava para dimensionar o Imposto Seletivo, e por consequência o desenho da reforma tributária, ficou defasada.

Como as bets entram no Imposto Seletivo

A reforma tributária promulgada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e detalhada pela Lei Complementar nº 214/2025 criou três tributos novos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e o Imposto Seletivo (IS). O Imposto Seletivo é o mais específico dos três: incide apenas sobre determinados bens e serviços listados em lei, com finalidade extrafiscal — ou seja, com o objetivo de desestimular o consumo, não apenas de arrecadar.

A lista de itens sujeitos ao Imposto Seletivo inclui, entre outros, bebidas alcoólicas, produtos fumígenos, veículos poluentes, extração de recursos minerais e as apostas de quota fixa. É por isso que o desempenho das bets deixou de ser um assunto restrito ao setor de jogos e virou variável central do orçamento federal.

Por que o IS depende tanto das bets

Quando o governo apresentou as projeções da reforma, a arrecadação prevista com o novo imposto tinha as apostas como uma das linhas mais generosas. O motivo é técnico: diferente de bebidas e cigarros, cujo consumo já está maduro e altamente tributado, as bets representavam uma base nova, formalizada há pouco tempo, com potencial de crescimento e sem tributação anterior sobreposta.

  • Base de arrecadação recente, criada pela Lei nº 14.790/2023.
  • Consumo em expansão até a onda de restrições recentes.
  • Ausência de tributos federais anteriores sobre a modalidade específica, o que abria espaço para o Imposto Seletivo sem risco de bitributação.
  • Alta elasticidade da receita, já que pequenas variações de alíquota geram grandes variações de arrecadação em um mercado digital.

Quando esse mercado encolhe, o IS perde exatamente a linha que se esperava mais dinâmica. As linhas remanescentes — bebidas, cigarros, veículos — são bases lentas, difíceis de expandir sem confronto político com setores tradicionais.

O impacto direto na arrecadação de 2027

O ano de 2027 é decisivo porque marca a entrada em vigor da CBS na alíquota cheia e o início efetivo da cobrança do Imposto Seletivo, conforme o cronograma da reforma tributária definido pela EC nº 132/2023 e pela LC nº 214/2025. É o primeiro exercício em que o governo federal terá de mostrar, na prática, que a promessa de arrecadação da reforma se cumpre.

O que muda no orçamento federal

Ao perder receita esperada com as bets, o Executivo tem, essencialmente, quatro caminhos possíveis para fechar a conta:

  1. Aumentar a alíquota do Imposto Seletivo sobre os demais itens da lista, o que atinge bebidas, cigarros e combustíveis.
  2. Elevar a alíquota da CBS, o que encarece bens e serviços em geral consumidos por todo o público.
  3. Cortar despesas discricionárias, o que costuma atingir investimento público, saúde e educação antes de atingir folha e benefícios.
  4. Rever a própria regulação das bets, tornando o mercado formal mais atrativo do que o clandestino para recuperar base tributável.

Cada um desses caminhos tem custo político e social. Aumentar CBS pesa em quem consome. Cortar despesa pesa em quem depende de serviço público. Rever a regulação das bets abre novo embate com quem defende a proibição por razões de saúde pública.

Por que isso importa para o público CLT e INSS

O ponto que raramente aparece nas manchetes é que quem paga a conta de uma frustração de arrecadação não é o apostador. É o conjunto de contribuintes que sustenta o Estado — e, no Brasil, o peso maior recai sobre o consumo e a folha de pagamentos.

  • Trabalhador CLT sente aumento de CBS diretamente em produtos do dia a dia e em serviços contratados.
  • Aposentado e pensionista do INSS sofre o impacto no custo de vida, sem reajuste automático para compensar aumento indireto de tributo.
  • Servidor público convive com a pressão por corte de despesa como resposta a frustração de arrecadação.
  • Famílias de baixa renda são as mais atingidas por tributos sobre consumo, porque gastam praticamente toda a renda.

A pressão sobre a reforma tributária

A reforma tributária foi vendida como um pacto entre União, Estados, Municípios, setor produtivo e consumidor. Cada uma dessas partes fez concessões esperando um resultado agregado: mais simplicidade, menos litígio, alíquota efetiva controlada. Quando uma das linhas de receita frustra a projeção, o pacto é reaberto.

O papel da alíquota de referência

A LC nº 214/2025 estabeleceu que a alíquota final da CBS e do IBS será calibrada para manter a carga tributária global do consumo em patamar equivalente ao do sistema antigo — o chamado princípio da neutralidade da carga. Isso significa que, se o Imposto Seletivo arrecada menos, a alíquota de referência da CBS/IBS tende a subir para compensar.

Em outras palavras: quando o governo diz que a alíquota final girará em torno de determinado patamar, essa promessa depende de o Imposto Seletivo entregar o valor projetado. Se as bets rendem menos, a alíquota da CBS/IBS não é mais aquela.

O risco de segunda ordem

Há ainda um efeito de segunda ordem que preocupa técnicos do Ministério da Fazenda:

  • Se a alíquota da CBS/IBS sobe para compensar, encarece o consumo formal.
  • Consumo formal mais caro estimula informalidade.
  • Informalidade maior reduz base tributável.
  • Base menor exige nova elevação de alíquota.

Esse ciclo é o pesadelo clássico de qualquer reforma tributária. Foi para evitá-lo que o Imposto Seletivo foi desenhado com bases específicas — bebidas, cigarros, veículos poluentes, apostas — que teoricamente têm baixa elasticidade, ou seja, que continuam sendo consumidas mesmo quando ficam mais caras. O problema é que as bets provaram ter elasticidade alta: quando o ambiente regulatório aperta, o consumo migra ou desaparece.

O que muda para o contribuinte comum

O leitor que chegou até aqui provavelmente quer a pergunta prática: o que isso significa no meu bolso em 2027. A resposta honesta depende da escolha política que o governo fizer nos próximos meses, mas alguns efeitos já podem ser antecipados.

Efeitos prováveis a curto prazo

  • Preço de bebidas alcoólicas e cigarros deve subir mais do que o inicialmente projetado, se o governo optar por elevar o Imposto Seletivo sobre esses itens para compensar as bets.
  • Preço de combustíveis pode ser reavaliado, já que o setor também entra na lista do IS.
  • Alíquota da CBS pode ser calibrada em patamar ligeiramente mais alto do que a promessa original.
  • Serviços contratados por famílias de renda média — como planos, aplicativos, assinaturas — tendem a refletir o aumento em cadeia.

O que fazer como contribuinte

Não existe milagre individual contra uma decisão de política tributária, mas há passos práticos que reduzem o impacto:

  1. Revise o orçamento doméstico considerando a possibilidade de alíquotas maiores em bens de consumo específico em 2027.
  2. Acompanhe a publicação da alíquota de referência definitiva da CBS e do IBS, prevista no cronograma da LC nº 214/2025.
  3. Confira a Nota Fiscal — a reforma tributária obriga o destaque do tributo pago em cada compra, o que dá ao consumidor a informação necessária para comparar.
  4. Evite se endividar com base em projeções otimistas de preço ou renda para 2027, já que o cenário fiscal ainda está em ajuste.

Conclusão

O recuo do mercado de apostas online no Brasil deixou de ser um debate setorial e se tornou um problema fiscal com efeito direto sobre a reforma tributária que entra em vigor em 2027. Quando uma linha importante do Imposto Seletivo frustra a projeção, o governo tem que escolher entre elevar outras alíquotas, cortar despesas ou rever a própria regulação — e nenhuma das opções é neutra para o contribuinte comum.

O que ficar registrado deste guia:

  • As bets foram regulamentadas pela Lei nº 14.790/2023 e sofreram sucessivas restrições que reduziram sua arrecadação.
  • O Imposto Seletivo, criado pela EC nº 132/2023 e detalhado pela LC nº 214/2025, contava com as apostas como uma das principais bases.
  • A frustração de receita pressiona a alíquota de referência da CBS e do IBS para cima, encarecendo o consumo geral.
  • O impacto real recai sobre trabalhador CLT, aposentado do INSS, servidor público e famílias de baixa renda, que são quem sustenta a base tributária de consumo.
  • Existem mecanismos de proteção, como o cashback do CadÚnico, mas eles não substituem uma reforma bem calibrada.

O próximo passo prático é acompanhar a publicação oficial da alíquota de referência definitiva da CBS e do IBS pelo Ministério da Fazenda e revisar o orçamento doméstico com margem de segurança para 2027. Decisões fiscais tomadas em 2026 vão determinar o custo de vida do próximo ano, e chegar informado ao debate é a única forma de o contribuinte não ser apenas espectador do próprio bolso.

Gostou do conteúdo?

Veja quanto você pode pegar no consignado CLT

Simulação gratuita e sem compromisso: você confere o valor e as parcelas antes de decidir.

Simular agora

Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.

Perguntas frequentes

O fim das bets significa que elas serão totalmente proibidas no Brasil?

Não necessariamente. O que existe hoje é um cenário de restrição crescente, com discussão sobre limites de publicidade, meios de pagamento e revisão de licenças de operadores. Uma proibição total dependeria de nova lei federal, que revogasse ou substituísse a Lei nº 14.790/2023. O que está em curso é um recuo do mercado formal, com queda de arrecadação, e não uma proibição plena vigente.

O Imposto Seletivo já está sendo cobrado?

Não. O Imposto Seletivo passa a ser cobrado a partir de 2027, conforme o cronograma da reforma tributária definido pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentado pela Lei Complementar nº 214/2025. Antes disso, o tributo existe apenas no papel, com projeções de arrecadação sendo calibradas pelo Ministério da Fazenda.

Se as bets rendem menos, meu imposto vai subir?

De forma direta, o trabalhador CLT ou o aposentado do INSS não paga Imposto Seletivo — ele incide sobre bens e serviços específicos. Mas de forma indireta, sim, o efeito chega: se o IS arrecada menos, a alíquota da CBS/IBS tende a ser calibrada em patamar mais alto para manter a carga total, encarecendo o consumo geral. Além disso, cortes de despesa pública para compensar a frustração podem afetar serviços dos quais o contribuinte depende.

Aposentado e pensionista do INSS têm algum benefício ou desconto na nova tributação?

A reforma tributária prevê o mecanismo do cashback, com devolução de parte da CBS e do IBS pagos por famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único, conforme regras da LC nº 214/2025. Isso inclui aposentados e pensionistas que se enquadrem nos critérios de renda. Não é um desconto automático para todo beneficiário do INSS: depende do perfil de renda e da inscrição no CadÚnico.

Vale a pena antecipar compras grandes para 2026 antes das novas alíquotas?

Depende do bem e da situação financeira. Antecipar compras usando crédito caro para escapar de um aumento futuro de alíquota costuma ser péssimo negócio: o juro pago no financiamento supera, com folga, qualquer diferença de imposto. Só faz sentido antecipar quando há dinheiro à vista disponível e o bem já era necessário. Endividar-se por causa de reforma tributária não é estratégia recomendável.

Referências

  • Lei nº 14.790/2023 — regulamentação das apostas de quota fixa (bets)
  • Emenda Constitucional nº 132/2023 — reforma tributária sobre o consumo
  • Lei Complementar nº 214/2025 — regulamentação da CBS, do IBS e do Imposto Seletivo
  • Ministério da Fazenda — projeções de arrecadação do Imposto Seletivo

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.

Leia também em Direitos do Trabalhador

Ver todos →