A person placing a piece of wood into a pyramid

Rede Savegnago troca 6x1 por 5x2 sem perder lucro

Em entrevista pública, Chalim Savegnago defende o modelo de cinco dias de trabalho e sugere jornada por hora como alternativa complementar ao debate sobre o fim do 6x1.

Rita Cavalcanti

📖 7 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A rede Savegnago, grande supermercadista do interior paulista, migrou os funcionários da escala 6x1 para a 5x2.
  • O CEO Chalim Savegnago afirma que a mudança elevou a produtividade sem derrubar a lucratividade da empresa.
  • O executivo também defende um regime de contratação por hora como complemento ao modelo atual de jornada fixa.
  • A escala 5x2 pode ser adotada por decisão interna da empresa, mesmo antes de qualquer alteração na CLT.

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um novo ingrediente nas últimas semanas: o relato de uma grande rede varejista do interior paulista que já abandonou o modelo tradicional de seis dias de trabalho por um de folga e migrou os funcionários para a escala 5x2 — cinco dias de trabalho e dois de descanso por semana. Segundo o CEO da rede, Chalim Savegnago, a mudança não derrubou a lucratividade e, mais do que isso, veio acompanhada de um ganho de produtividade dentro das lojas.

O ponto é relevante para o trabalhador brasileiro porque, até aqui, o principal argumento contra o fim do 6x1 vinha de entidades empresariais do comércio e dos serviços, que alertam para possível aumento de custos e queda de faturamento. O caso da rede Savegnago entra na conversa pelo lado oposto: um empregador que diz ter feito a conta na prática e afirma que o modelo de cinco dias funciona — inclusive em um setor historicamente associado à jornada estendida, como o supermercadista.

Neste texto, você vai entender o que a rede mudou, o que o CEO diz ter observado em produtividade e lucro, qual é a proposta de "regime por hora" que ele defende como complemento, e o que esse debate significa para quem hoje cumpre escala 6x1 no comércio, nos serviços e no setor de alimentação.

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O que mudou na escala da rede Savegnago

A rede Savegnago é uma das maiores operações supermercadistas do interior de São Paulo e emprega milhares de pessoas em funções de loja, logística e administrativo. A decisão de migrar da escala 6x1 para a 5x2 significa, na prática, que o funcionário passa a trabalhar cinco dias por semana e folga dois — padrão que já é comum em escritórios, mas pouco frequente no varejo de autosserviço, que opera todos os dias da semana e precisa manter equipes aos sábados, domingos e feriados.

Para viabilizar isso em um negócio que não fecha as portas, a empresa precisa reorganizar escalas, rodízios de fim de semana e dimensionamento de equipes. O CEO afirma que essa engenharia foi feita e que o resultado em produtividade apareceu.

O número exato de ganho percentual de produtividade informado na entrevista não foi detalhado na pauta recebida pela redação.

Vale um recorte importante: a escala 5x2 não é, por si só, redução de jornada semanal. Ela redistribui os dias. A discussão sobre reduzir o total de horas trabalhadas por semana — hoje em até 44 horas pela Constituição — é um debate paralelo, puxado por propostas em tramitação no Congresso que pretendem acabar com o 6x1 e reduzir a carga semanal. O que a rede Savegnago mostra é um empregador privado adotando o 5x2 por decisão própria, independentemente da regulamentação futura.

Produtividade subiu e lucro ficou de pé, diz o CEO

O argumento central do executivo é que a mudança não penalizou o resultado financeiro da empresa. Em outras palavras: dar mais um dia de folga por semana ao funcionário não significou, no caso da rede, perder dinheiro. Pelo contrário — ele descreve um movimento de aumento de produtividade por hora trabalhada, o que ajuda a compensar o fato de o colaborador estar na loja um dia a menos.

Isso dialoga com uma literatura internacional que vem sendo observada em experimentos de semana reduzida em países como Reino Unido, Islândia e Portugal, nos quais empresas relataram que trabalhadores mais descansados cometem menos erros, faltam menos e entregam mais em menos tempo.

A diferença é que, no caso brasileiro, o relato partiu de dentro do varejo de alimentos — setor que lida com margens apertadas, alto giro de pessoal e operação sete dias por semana.

Os valores exatos de faturamento, margem e absenteísmo citados pelo executivo na entrevista não foram detalhados no material disponível para esta reportagem.

Para o trabalhador, o dado prático a reter é este: há empregador grande, de capital privado, afirmando publicamente que trocar o 6x1 pelo 5x2 é economicamente viável. Isso enfraquece o argumento de que a mudança é inviável para o varejo e muda o tom do debate que vai se desenhando no Congresso e nos sindicatos.

A proposta de regime "por hora" como complemento

Além de defender o 5x2 na prática da própria rede, o CEO levantou na entrevista uma segunda ideia: a adoção de um regime de contratação por hora como complemento ao modelo atual de jornada fixa. A proposta é apresentada por ele como uma forma de dar flexibilidade tanto para o empregador — que ajusta a equipe à demanda — quanto para o trabalhador que queira completar renda ou conciliar outras atividades.

Aqui é importante separar as coisas para o leitor não se confundir. O que é hoje a contratação por hora no Brasil:

  • A CLT já prevê o contrato intermitente desde a reforma trabalhista de 2017, no qual o trabalhador é chamado conforme a necessidade e recebe pelas horas efetivamente trabalhadas, com direitos proporcionais a férias, 13º e FGTS.
  • Também existe o trabalhador avulso, o autônomo e o MEI, que operam fora do modelo CLT clássico.

O que o CEO defende na entrevista é algo adicional ou mais amplo que isso — mas o desenho jurídico detalhado da proposta não foi aprofundado no material captado.

O ponto político do debate é claro: setores empresariais pedem flexibilização em troca do fim do 6x1. Centrais sindicais, por outro lado, costumam ver com desconfiança modelos de contratação por hora, pela experiência do intermitente — que, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, gerou vínculos de baixa remuneração média para boa parte dos contratados.

O que esse debate significa para quem cumpre 6x1 hoje

Se você trabalha no comércio, em supermercado, em restaurante, em farmácia, em call center, em segurança ou em serviços de limpeza, é bem provável que esteja em escala 6x1 — às vezes com folga em dia útil, raramente aos domingos. Essa é a realidade de milhões de brasileiros, e é esse público que acompanha com atenção qualquer sinalização de mudança nas regras.

Alguns pontos práticos para entender onde o país está nesse debate:

  1. A escala 6x1 é permitida pela CLT, desde que respeitado o limite de 44 horas semanais e um dia de descanso remunerado, preferencialmente aos domingos.
  2. A PEC que propõe acabar com o 6x1 tramita no Congresso e pretende reduzir a jornada semanal e garantir dois dias de folga. A tramitação ainda depende de pareceres e votações.
  3. Enquanto a regra geral não muda, empresas podem — como fez a rede Savegnago — adotar escala 5x2 por decisão interna, mediante acordo individual, coletivo ou convenção com o sindicato da categoria.

O relato do varejista entra como um contraponto empírico ao argumento de que "não dá para fechar a conta". A editoria vai acompanhar a tramitação da proposta e eventuais réplicas de entidades do comércio, que ainda devem se manifestar sobre o caso.

Conclusão: o que o trabalhador deve observar daqui para frente

O caso da rede Savegnago é relevante porque é raro: um empregador grande do varejo colocando o nome na mesa para dizer que trocou o 6x1 pelo 5x2 e saiu ganhando em produtividade. Isso não encerra o debate — ainda faltam dados abertos de absenteísmo, rotatividade e margem para a sociedade avaliar com precisão o impacto —, mas desloca o eixo da discussão. Deixa de ser apenas "sindicato quer x empresa não quer" e passa a incluir "empresa testou, mediu e defende".

Para quem hoje cumpre jornada 6x1, a dica prática é dupla:

  • Acompanhe a convenção coletiva da sua categoria. Mudanças de escala podem vir primeiro por acordo setorial, antes mesmo de qualquer reforma na CLT.
  • Converse com o RH e com o sindicato. Se a sua empresa estuda modelo semelhante ao da rede Savegnago, é no acordo coletivo que serão definidos pontos sensíveis: trabalho aos domingos, banco de horas, adicional noturno e intervalos.

A editoria segue monitorando o avanço do debate sobre o fim do 6x1 no Congresso e novos relatos de empresas que estejam testando a escala 5x2 ou modelos híbridos. Em uma próxima matéria, vamos destrinchar como ficaria o cálculo da sua jornada e do seu salário caso a mudança na jornada semanal seja aprovada.

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Referências

  • Constituição Federal de 1988 — artigo 7º, inciso XIII (jornada semanal de até 44 horas)
  • Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) — Decreto-Lei nº 5.452/1943 (jornada e descanso semanal remunerado)
  • Lei nº 13.467/2017 — Reforma Trabalhista (contrato de trabalho intermitente)
  • Ministério do Trabalho e Emprego — dados sobre contrato intermitente

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