Santander é condenado por terceirizar assessores
Decisão enxerga vínculo direto entre banco e profissionais contratados via escritórios parceiros e pode mudar o modelo de distribuição de investimentos no país.
Rita Cavalcanti
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Resumo em 30 segundos
- A Justiça do Trabalho condenou o Santander por manter assessores de investimento contratados via escritório terceirizado, reconhecendo vínculo direto com o banco.
- A decisão aplicou o princípio da primazia da realidade: subordinação, metas, sistemas e hierarquia eram do próprio Santander, apesar do contrato formal com empresa interposta.
- Enquadrado como bancário, o profissional passa a ter direito a jornada reduzida, PLR, adicionais e benefícios previstos na convenção coletiva da categoria.
- O precedente pode levar outros assessores a ajuizar ações contra bancos e corretoras que usam o modelo de escritórios parceiros no varejo de investimentos.
Uma decisão da Justiça do Trabalho envolvendo o Santander chamou a atenção do mercado financeiro brasileiro: o banco foi condenado por manter assessores de investimento contratados por meio de empresa terceirizada, prática que o Judiciário entendeu como irregular. Mais do que a condenação em si, o que chama atenção é o fundamento usado pelos magistrados — o reconhecimento de que esses profissionais exerciam atividade típica de bancário e, por isso, teriam direito ao mesmo tratamento dado aos empregados diretos da instituição.
Se a tese se consolidar nas instâncias superiores, o impacto vai muito além de um único processo. Milhares de assessores de investimento espalhados pelo país trabalham hoje vinculados a escritórios autônomos credenciados por grandes bancos e corretoras — um modelo que virou padrão nos últimos anos. A decisão abre caminho para que esses profissionais discutam na Justiça o reconhecimento como bancários, com direito ao conjunto de garantias previsto para a categoria.
Neste artigo você vai entender exatamente o que foi decidido, por que isso incomoda tanto o setor financeiro, quais direitos estão em jogo quando um trabalhador é enquadrado como bancário e o que isso significa, na prática, para quem está nessa situação.
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O que a Justiça decidiu no caso do Santander
A sentença trata, em resumo, de uma condenação ao Santander pela forma como o banco organizava a atuação de assessores de investimento ligados a ele por meio de uma empresa interposta — ou seja, não eram funcionários CLT do próprio banco, mas de um escritório contratado. A Justiça do Trabalho entendeu que essa estrutura mascarava uma relação de emprego direta: na prática, quem dava as ordens, controlava metas, fornecia sistemas e colhia o resultado comercial era o próprio Santander.
Quando a Justiça identifica essa configuração — subordinação, pessoalidade, habitualidade e remuneração, mesmo que indiretas, pagas pela tomadora do serviço — ela aplica o chamado "princípio da primazia da realidade". Em linguagem simples: pouco importa o nome do contrato que foi assinado; o que vale é o que de fato acontecia no dia a dia. Se o trabalhador agia como bancário do Santander, o vínculo é com o Santander.
A condenação impõe ao banco o pagamento das verbas que seriam devidas a um empregado direto no cargo correspondente, retroativo ao período em que a relação foi mantida de forma travestida....
Quem são os assessores de investimento e por que o modelo é polêmico
Assessor de investimento é o profissional certificado que atende clientes de bancos, corretoras e plataformas para oferecer produtos como fundos, títulos de renda fixa, previdência privada e ações. Nos últimos anos, esse profissional se tornou peça central da expansão do varejo financeiro — especialmente nas plataformas de investimento que cresceram puxadas pela queda dos juros, pela digitalização dos serviços e pela corrida dos brasileiros por alternativas à poupança.
O modelo de negócio mais comum funciona assim: o banco ou a corretora não contrata o assessor diretamente. Em vez disso, firma parceria com um escritório — uma pessoa jurídica autônoma — que, por sua vez, mantém os assessores em seu quadro. Para a instituição financeira, esse arranjo reduz encargos trabalhistas, dá flexibilidade na remuneração (quase sempre variável, baseada em comissão sobre produtos vendidos) e pulveriza riscos.
O problema aparece quando o controle do banco sobre a atividade do assessor é tão grande que a independência do escritório vira ficção. Quando metas, sistemas, hierarquia, campanhas comerciais, treinamentos e carteira de clientes são do banco, a autonomia alegada não se sustenta. Foi exatamente esse ponto que a Justiça do Trabalho atacou no caso do Santander. Para o Judiciário, o que havia era, na essência, uma estrutura de distribuição comercial do próprio banco, operada por profissionais sem os direitos de bancário.
O que muda quando o trabalhador é reconhecido como bancário
Ser enquadrado como bancário, no Brasil, não é um detalhe burocrático: significa entrar em uma das categorias historicamente mais protegidas do setor privado. Entre os direitos tradicionalmente associados à categoria estão a jornada reduzida em relação à CLT comum, adicionais e pisos previstos na convenção coletiva, participação nos lucros e resultados (PLR) negociada pela categoria, auxílios como refeição e alimentação em valores definidos em norma coletiva, além de benefícios de saúde específicos.
Isso faz com que o reconhecimento retroativo do vínculo traga, normalmente, três grupos de consequências financeiras para o trabalhador:
- Diferenças salariais e de adicionais acumuladas durante todo o período trabalhado, respeitado o prazo prescricional. Em outras palavras: o profissional pode ter direito a receber a diferença entre o que recebeu como terceirizado e o que teria recebido como bancário efetivo no mesmo cargo.
- Reflexos dessas diferenças em férias, 13º salário, FGTS, aviso prévio e verbas rescisórias — já que o cálculo correto dessas rubricas depende do salário real da categoria.
- Pagamento de horas extras quando a jornada praticada ultrapassou a jornada da categoria bancária, com o adicional previsto em norma coletiva e os respectivos reflexos.
Na prática, condenações desse tipo costumam somar valores altos por trabalhador — o que ajuda a explicar a resistência histórica do setor financeiro ao reconhecimento desse vínculo e, do lado do profissional, a demora em questionar o modelo.
A base legal: terceirização, atividade-fim e primazia da realidade
Para entender por que a decisão é importante, é preciso lembrar do debate jurídico dos últimos anos. A reforma trabalhista e a Lei da Terceirização passaram a permitir, de forma mais ampla, a contratação de serviços terceirizados, inclusive em atividades-fim da empresa. Durante um tempo, isso foi lido no mercado como uma espécie de "liberação geral" para esse tipo de arranjo, inclusive no sistema financeiro.
A Justiça do Trabalho, no entanto, vem reafirmando um ponto que a lei não revogou: terceirização lícita não é sinônimo de fraude autorizada. Mesmo com a lei permitindo a terceirização, o vínculo direto com o tomador deve ser reconhecido sempre que ficar demonstrada subordinação jurídica — ou seja, quando o trabalhador recebe ordens, cumpre metas, usa estrutura e segue a hierarquia da empresa contratante como se fosse empregado dela.
No caso do Santander, foi justamente esse o fundamento central: segundo o entendimento aplicado, os assessores agiam dentro da estrutura do banco, usavam sistemas do banco, atendiam clientes do banco, participavam de campanhas comerciais do banco e eram cobrados por metas definidas pelo banco.. Nesse cenário, a existência de um contrato formal com um escritório não impede o reconhecimento do vínculo bancário — ao contrário, reforça a tese de que o contrato foi um instrumento para afastar direitos que, pela natureza da atividade, seriam aplicáveis.
Precedente para o setor financeiro: por que outros bancos olham para esse caso
A decisão não vincula automaticamente todos os bancos e corretoras do país — cada caso continua precisando ser analisado individualmente. Mas ela indica um caminho de interpretação que outros juízes podem seguir. Quando a Justiça do Trabalho começa a repetir um tipo de fundamentação, os departamentos jurídicos das grandes instituições reagem de duas formas: aumentam a provisão para contingências e revisam o próprio modelo de contratação.
Hoje, o modelo de assessoria com escritórios parceiros é usado em larga escala por praticamente todas as instituições que atuam no varejo de investimentos — bancos tradicionais, bancos digitais e plataformas independentes. Se o entendimento aplicado ao Santander for mantido em instâncias superiores e replicado em outros processos, três movimentos tendem a aparecer:
- Reavaliação da forma de contratação dos assessores, com adoção de modelos híbridos (parte CLT, parte autônomo) ou aumento da autonomia real do escritório parceiro, para reduzir indícios de subordinação.
- Aumento das ações individuais e coletivas promovidas por assessores e ex-assessores pedindo o reconhecimento de vínculo e o pagamento das diferenças retroativas.
- Pressão sobre a estrutura de remuneração do setor, já que o enquadramento como bancário muda os custos para a instituição e, do lado do profissional, costuma significar menos remuneração variável e mais salário fixo e benefícios.
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O que o assessor de investimento terceirizado pode fazer agora
Para o trabalhador que hoje atua ou atuou como assessor de investimento vinculado a um escritório parceiro, a notícia é relevante por um motivo prático: cria um ambiente mais favorável a quem decidir discutir na Justiça o reconhecimento do vínculo com a instituição financeira para a qual, de fato, trabalhava.
Alguns pontos práticos que esse profissional deve considerar antes de qualquer decisão:
- Prazo para pedir direitos trabalhistas: pela regra geral da Justiça do Trabalho, o trabalhador tem até dois anos após o fim do contrato para ajuizar a ação e pode cobrar os últimos cinco anos de direitos. Esperar demais pode significar perder parte do que teria a receber.
- Reunir provas: e-mails, prints de sistemas internos, documentos de metas, mensagens com gestores do banco, registros de treinamentos, crachás, uniformes, materiais de marca e qualquer registro que mostre a presença concreta do banco no dia a dia da atividade são peças centrais em uma eventual ação.
- Avaliar o custo-benefício individual: o reconhecimento como bancário tem efeitos positivos e negativos. Em geral traz direitos retroativos relevantes, mas pode afetar o comissionamento futuro, a relação com o escritório parceiro atual e, dependendo do contexto, inviabilizar a continuidade da atividade no mesmo modelo.
- Procurar orientação especializada: cada situação é única. Advogados trabalhistas conseguem avaliar as provas disponíveis, a chance de êxito e a melhor estratégia — ação individual, coletiva ou participação em ações movidas por sindicatos da categoria bancária.
Também vale acompanhar como o caso evolui. A decisão pode ser revista pelas instâncias superiores da Justiça do Trabalho, e o próprio banco pode recorrer. Até lá, o entendimento aplicado é um indicativo forte, mas ainda não é a palavra final sobre o tema.
Conclusão: um novo capítulo para a distribuição de investimentos
A condenação do Santander por manter assessores de investimento como terceirizados, com reconhecimento do vínculo bancário, é mais do que um caso isolado: é um sinal de que a Justiça do Trabalho está disposta a olhar para dentro das estruturas montadas pelo setor financeiro e enxergar a relação de emprego quando ela existe, mesmo que escondida por um contrato formal com um escritório parceiro.
Para o profissional que atua nesse modelo, o recado prático é duplo. Primeiro: existe um caminho jurídico concreto para discutir direitos que vinham sendo tratados como inexistentes. Segundo: qualquer decisão desse tipo deve ser tomada com informação e orientação — tanto para medir o que se tem a ganhar, quanto para entender o que muda na rotina profissional e na relação com o escritório atual.
Para quem é cliente desse tipo de serviço, o movimento também importa: a forma como o seu assessor é remunerado e a quem ele responde no fim da linha podem mudar nos próximos anos. E, para o setor financeiro como um todo, começa um novo capítulo de ajuste do modelo de distribuição de produtos de investimento no Brasil — um capítulo em que a estrutura jurídica dos contratos vai ter de resistir ao que efetivamente acontece dentro das agências, das plataformas e dos escritórios parceiros.
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Referências
- Justiça do Trabalho — sentença em processo contra o Santander sobre terceirização de assessores de investimento
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