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Cofrinho digital ou poupança em 2026: qual rende mais hoje?

Com saques superando depósitos na poupança em 2026, veja como comparar rendimento, IR e segurança das caixinhas dos bancos digitais.

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Uche Ochôa

📖 9 min de leitura

A poupança, tradicional refúgio da classe trabalhadora brasileira, vive um dos piores momentos da sua história recente. Segundo dados do Banco Central referentes ao primeiro semestre de 2026, o volume de saques superou o de novos depósitos, confirmando uma tendência de captação líquida negativa observada nos últimos anos. Ao mesmo tempo, os chamados cofrinhos digitais — as caixinhas oferecidas por bancos como Nubank, PicPay, Mercado Pago e outros — ganharam espaço como alternativa simples e com rendimento maior. Mas, afinal, qual das duas opções vale mais a pena para quem quer guardar dinheiro sem correr risco? Este guia foi feito para responder essa dúvida de forma direta, mostrando quanto rende cada aplicação, quais são as diferenças de segurança, liquidez e imposto, e como decidir onde deixar sua reserva no cenário atual.

Por que os brasileiros estão deixando a poupança em 2026

O comportamento do poupador mudou. Durante décadas, guardar dinheiro na caderneta foi quase um automatismo: era o produto mais acessível, dispensava conhecimento financeiro e estava presente em qualquer agência. Só que essa lógica começou a ruir quando os aplicativos das fintechs popularizaram alternativas com rendimento superior e a mesma facilidade de uso.

Os dados de captação da poupança no primeiro semestre de 2026, divulgados pelo Banco Central, mostram esse movimento: o saldo entre depósitos e retiradas ficou negativo, o que significa que os brasileiros tiraram mais dinheiro do que colocaram. Vários fatores ajudam a explicar essa migração. Em primeiro lugar, a inflação corroeu o poder de compra das famílias e muita gente precisou usar a reserva para pagar contas do dia a dia. Em segundo lugar, a comparação de rendimento entre a poupança e outras aplicações de baixo risco ficou cada vez mais desfavorável para a caderneta, especialmente quando o investidor descobre que pode ter liquidez diária em produtos que rendem mais.

O resultado é um ambiente em que a poupança deixou de ser sinônimo de "lugar seguro para o dinheiro" e passou a competir de igual para igual com opções que antes soavam sofisticadas demais para o público leigo.

Como funciona o rendimento da poupança hoje

Antes de comparar, é importante entender como a poupança rende. A regra é definida pela Lei nº 12.703/2012 e depende diretamente da taxa Selic, o juro básico da economia. Quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR). Quando a Selic está igual ou abaixo de 8,5% ao ano, o rendimento cai para 70% da Selic mais a TR.

Esse desenho tem duas consequências práticas. A primeira é que, em cenários de juros altos, o rendimento da caderneta fica travado no 0,5% ao mês — mesmo que outras aplicações atreladas ao CDI (que caminha colado com a Selic) rendam muito mais. A segunda é que a TR, que por muitos anos foi zero, voltou a ter valor positivo, mas continua modesta. Ou seja: em nenhum dos dois cenários a poupança consegue acompanhar aplicações de renda fixa que pagam 100% do CDI ou mais.

A vantagem clássica da caderneta é a isenção de Imposto de Renda para pessoa física e a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por CPF e por instituição. São dois pontos importantes, mas que precisam ser pesados contra o rendimento efetivo. Se o dinheiro na poupança perde para a inflação, a segurança de curto prazo pode se transformar em prejuízo silencioso no longo prazo.

O que são os cofrinhos digitais e como eles rendem

Cofrinho digital é o apelido popular das caixinhas, cofres e produtos similares oferecidos pelos bancos digitais dentro do próprio aplicativo. Na prática, o cliente separa uma parte do saldo da conta, transfere para essa "caixinha" com um toque na tela e o dinheiro passa a render automaticamente, geralmente com liquidez diária — ou seja, pode ser resgatado a qualquer momento e voltar para a conta em segundos.

Apesar do nome fofinho, o que existe por trás desses produtos são investimentos de renda fixa, na maioria dos casos CDBs de liquidez diária emitidos pelo próprio banco digital ou por parceiros, ou fundos de investimento atrelados ao CDI. O rendimento costuma ser expresso como um percentual do CDI: 100% do CDI, 105% do CDI, 110% do CDI, e assim por diante. Cada instituição define a sua régua, e ela pode variar conforme o tipo de cliente ou o valor aplicado.

A diferença para a poupança aparece justamente nesse ponto. Enquanto a caderneta é limitada pela regra dos 70% da Selic (ou 0,5% ao mês), o cofrinho digital costuma pagar um percentual mais próximo — ou até acima — do CDI cheio. Em um cenário de juros altos, essa diferença pode se traduzir em alguns reais a mais por ano para quem guarda uma reserva modesta.

Há, porém, um detalhe importante: as caixinhas têm Imposto de Renda regressivo sobre o rendimento, começando em 22,5% para resgates em até 180 dias e caindo até 15% para prazos acima de 720 dias. A poupança, como já dito, é isenta. Mesmo com o IR descontado, os cofrinhos podem render mais que a caderneta em vários cenários — mas fazer a conta líquida (depois do imposto) é essencial para não se enganar com o número bruto que aparece no app.

Comparativo prático: quem rende mais no bolso do trabalhador

Para transformar a discussão em algo palpável, imagine um trabalhador que guardou R$ 5.000 de reserva de emergência e quer decidir entre poupança e uma caixinha que paga 100% do CDI. O rendimento bruto da caixinha, ao longo de 12 meses, tende a ficar acima do da poupança sempre que a Selic estiver em patamares de dois dígitos. Mesmo aplicando a alíquota mais alta de Imposto de Renda (22,5% para até 180 dias), o resultado líquido da caixinha, nesse cenário, tende a superar o da caderneta.

O ganho pode parecer pequeno em valores absolutos quando se olha só um mês, mas se acumula. Em prazos de dois ou três anos, com aportes mensais, a diferença entre deixar o dinheiro parado na poupança e migrar para um cofrinho digital pode representar uma parcela extra de aluguel, uma conta de luz do ano inteiro ou o pagamento de uma dívida a menos.

Além do rendimento, vale comparar outros pontos:

  • Liquidez: empate técnico. Tanto a poupança quanto a maioria dos cofrinhos digitais permitem resgate imediato. A poupança tem a peculiaridade do "aniversário": o dinheiro só rende se ficar aplicado até a data mensal de aniversário do depósito. Nas caixinhas, o rendimento é diário, o que evita perder juros por sacar em dia errado.
  • Segurança: os dois produtos são cobertos pelo FGC até R$ 250 mil por CPF por instituição, desde que o cofrinho seja estruturado como CDB. Em fundos de investimento, essa proteção não se aplica, o que exige atenção do investidor.
  • Facilidade: empate. Os aplicativos dos bancos digitais tornaram a caixinha tão simples quanto abrir a poupança.
  • Imposto de Renda: vantagem da poupança, que é isenta. As caixinhas descontam IR no resgate, mas ainda assim o líquido pode ser maior.

Quando ainda faz sentido manter dinheiro na poupança

Apesar do rendimento inferior, existem situações específicas em que a poupança continua sendo uma escolha razoável. A primeira é para quem tem valores muito baixos e prazos muito curtos, como guardar dinheiro por 30 ou 60 dias para uma compra imediata. Nesse caso, o ganho extra do cofrinho digital pode ser marginal, e a isenção de IR simplifica a vida.

A segunda situação é a de quem ainda não tem conta em banco digital e não pretende abrir. Para o público mais velho, mais avesso à tecnologia ou que mora em regiões com sinal de internet ruim, a poupança do banco de relacionamento continua sendo o caminho mais prático.

A terceira é o uso da poupança como "conta de passagem", ou seja, um lugar em que o dinheiro fica apenas alguns dias antes de ir para outra aplicação ou para uma despesa programada. Nesse caso, o rendimento é secundário e a familiaridade fala mais alto.

Fora dessas hipóteses, para quem tem reserva de emergência de alguns milhares de reais e usa aplicativo bancário no dia a dia, a matemática favorece o cofrinho digital.

Como escolher o cofrinho digital certo e evitar armadilhas

A regra número um é olhar o rendimento líquido, não o bruto. Um cofrinho que anuncia "110% do CDI" mas cobra taxa de administração alta pode render menos do que outro de 100% sem taxa. A segunda regra é verificar se o produto por trás da caixinha é um CDB (coberto pelo FGC) ou um fundo (não coberto). Essa informação aparece no regulamento ou nos detalhes do produto dentro do próprio app.

A terceira é distribuir a reserva de emergência entre no máximo duas ou três instituições sólidas, respeitando o limite de R$ 250 mil por CPF por banco garantido pelo FGC. Concentração excessiva em uma única fintech, por mais confiável que ela pareça, é um risco desnecessário.

Por fim, cuidado com promessas de rendimento fora da curva. Se aparecer um app oferecendo 200% ou 300% do CDI com resgate imediato, desconfie: ou é ação promocional de curtíssimo prazo, ou é armadilha. No universo da renda fixa de liquidez diária, ninguém entrega milagre — entrega, no máximo, alguns pontos percentuais a mais que o concorrente.

Resumo prático: o que fazer agora

A queda na captação da poupança no primeiro semestre de 2026, apontada pelo Banco Central, reflete uma mudança de comportamento em que muitos brasileiros passaram a comparar alternativas simples, seguras e mais rentáveis para a sua reserva. Manter dinheiro na caderneta por hábito, sem comparar, pode significar abrir mão de rendimento que faz falta no orçamento familiar.

O próximo passo é objetivo: abra o aplicativo do seu banco digital, procure a área de caixinhas, cofres ou "guardar dinheiro", verifique o percentual do CDI oferecido, confirme se o produto é CDB coberto pelo FGC e, se as condições forem melhores que as da poupança, transfira parte da reserva. Comece com um valor pequeno, acompanhe o rendimento por um ou dois meses e, uma vez confortável, migre o restante. Educação financeira, no fim das contas, é isso: parar de aceitar o padrão e começar a escolher onde o seu dinheiro dorme.

Referências

  • Banco Central do Brasil — dados de captação da poupança no 1º semestre de 2026.
  • Lei nº 12.703/2012 — regra de remuneração da caderneta de poupança.

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