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Desenrola 3.0: governo quer comprar dívidas com 90% de desconto

Nova fase do programa prevê que a União assuma contratos negativados pagando no máximo 10% do valor original — e repasse esse abatimento ao devedor.

Tatiana Botelho

📖 10 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O governo prepara o Desenrola 3.0, em que o Tesouro compraria dívidas dos bancos com desconto mínimo de 90% e repassaria o abatimento ao consumidor.
  • A proposta foi antecipada pelo secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, em 22 de outubro de 2026.
  • Diferente das fases 1 e 2, que apenas intermediaram renegociações, o governo passaria a ser o novo credor das dívidas compradas.
  • O programa depende de alteração no PLOA 2027 para abrir espaço orçamentário e ainda não tem data oficial de início.

O governo federal prepara uma nova fase do programa de renegociação de dívidas, apelidada de Desenrola 3.0, com um desenho diferente das edições anteriores: em vez de apenas intermediar o acordo entre o devedor e o banco, a União pretende comprar as dívidas diretamente das instituições financeiras com desconto de, no mínimo, 90% sobre o valor registrado. Na prática, significa que o governo passaria a ser o novo credor e repassaria esse abatimento ao consumidor endividado, permitindo quitar o débito pagando uma fração muito pequena do saldo atual.

A informação foi antecipada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista divulgada em 22 de outubro de 2026. O desenho ainda depende de ajustes orçamentários e de aprovação no Congresso, mas já está sendo tratado como uma das principais apostas da equipe econômica para reduzir o nível de inadimplência das famílias brasileiras no próximo ano.

Nesta reportagem, você vai entender o que muda em relação ao Desenrola 1 e 2, como funcionaria a compra das dívidas com desconto, quem deve ser beneficiado, qual o cronograma previsto e o que o consumidor pode fazer agora, enquanto a nova fase não entra em vigor.

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O que é o Desenrola 3.0 e por que o governo mudou a estratégia

As duas primeiras fases do Desenrola funcionaram, essencialmente, como uma plataforma de renegociação: o governo oferecia garantias e condições especiais para que bancos e varejistas aceitassem reduzir juros, dar descontos e reparcelar débitos de pessoas físicas. O devedor continuava negociando com o próprio credor, só que em condições melhores do que conseguiria sozinho.

O Desenrola 3.0 muda essa lógica. A proposta em discussão prevê que o Tesouro Nacional compre as carteiras de dívidas que estão nos bancos, pagando um valor muito abaixo do saldo devedor registrado — o desconto mínimo seria de 90%. Como boa parte dessas dívidas antigas já foi provisionada como perda pelas instituições, elas tendem a aceitar vender esses créditos por um valor residual, em vez de insistir em uma cobrança que raramente resulta em pagamento integral.

Uma vez que o débito passa a pertencer ao governo, abre-se espaço para oferecer ao consumidor uma quitação acessível, compatível com o que ele realmente consegue pagar. A ideia é tirar milhões de pessoas da inadimplência de uma só vez, limpar o nome no e devolver essa população ao mercado de consumo e de crédito.

Como funcionaria a compra das dívidas com desconto de pelo menos 90%

O ponto central do novo desenho é o percentual de desconto. Pelo que foi antecipado pela Fazenda, o governo só compraria contratos em que o deságio fosse de no mínimo 90% sobre o valor nominal da dívida. Em termos simples: se uma pessoa deve R$ 10 mil hoje, o Tesouro pagaria ao banco, no máximo, R$ 1.000 para assumir esse crédito. A diferença — os outros R$ 9.000 — seria absorvida como prejuízo pela instituição que vendeu a carteira.

A partir daí, o governo teria duas opções principais para tratar o devedor:

  • Oferecer um valor único de quitação, muito próximo do que foi pago ao banco, encerrando a dívida em uma só parcela;
  • Permitir parcelamento desse valor residual em condições acessíveis, para quem não puder pagar à vista.

O formato exato — se será desconto automático, se o consumidor terá de aderir em uma plataforma como aconteceu nas fases anteriores, e qual será o teto de dívida elegível — ainda não foi detalhado publicamente. O que já está dito é que o programa será focado em dívidas que hoje estão praticamente paradas, sem perspectiva real de pagamento, e por isso são vendidas pelos bancos a preços muito baixos.

Esse mecanismo não é totalmente novo no mercado: empresas de recuperação de crédito já compram carteiras inadimplentes com grandes descontos. A diferença aqui é que, em vez de uma empresa privada tentar cobrar o devedor pelo valor cheio, o governo compraria para repassar o desconto diretamente ao consumidor.

Quem deve ser beneficiado pela nova fase

O público-alvo do Desenrola 3.0 segue a lógica das edições anteriores: pessoas físicas com dívidas em atraso, especialmente nas faixas de renda mais baixa. A edição anterior do programa priorizou devedores com renda de até dois salários mínimos e dívidas de valores menores, consideradas as mais difíceis de serem pagas sem algum tipo de abatimento.

Ainda não foi divulgada a lista oficial de regras da nova fase, mas a tendência, pelo que já foi sinalizado, é que o programa concentre esforços em:

  • Dívidas antigas, com muitos meses ou anos de atraso, que já foram baixadas contabilmente pelos bancos como provável prejuízo;
  • Pequenos valores, em que o custo de cobrança é alto para a instituição e o devedor dificilmente conseguiria quitar sozinho;
  • Consumidores com nome negativado e sem acesso a crédito, que precisam limpar o CPF para voltar ao mercado formal.

Detalhes como o teto de renda, o limite de valor por CPF, quais tipos de contrato entram (cartão de crédito, cheque especial, crediário, financiamentos) e se contas de serviços como luz, água e telefonia farão parte do pacote ainda dependem de regulamentação. É importante não acreditar em listas e promessas que circulam em redes sociais antes da publicação oficial pela Fazenda.

Diferenças em relação ao Desenrola 1 e ao Desenrola 2

Para entender por que o governo chama essa etapa de "3.0", vale comparar as três fases:

Desenrola 1 (2023): criado como uma plataforma de renegociação, com foco em dívidas bancárias de pequeno valor. O governo oferecia garantias para que os bancos aceitassem descontos pesados e parcelamentos longos. O devedor acessava um portal, consultava as ofertas disponíveis e fechava o acordo diretamente com o credor.

Desenrola 2 (2024-2025): ampliou o escopo para incluir mais tipos de dívida e aprimorou o atendimento, mantendo o mesmo princípio — o governo intermedeia, mas quem perdoa parte da dívida é o próprio credor privado.

Desenrola 3.0 (em preparação): inverte a lógica. Em vez de o banco perdoar parte do que o cliente deve dentro de uma plataforma, o Tesouro compra a dívida com desconto de pelo menos 90% e passa a ser o novo credor. O perdão deixa de depender da boa vontade do banco em cada caso e passa a ser estrutural: já está embutido no preço pago pelo governo.

Outra diferença importante é o papel do dinheiro público. Nas fases anteriores, o custo direto para a União era relativamente baixo, concentrado em garantias e operacionalização. No Desenrola 3.0, o governo precisa desembolsar efetivamente o valor da compra das carteiras — e por isso o programa depende de uma alteração no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 para abrir espaço no Orçamento.

Prazos, Orçamento e próximos passos no Congresso

O Desenrola 3.0 ainda não está em vigor. Para começar a funcionar, ele precisa de duas etapas:

  1. Previsão orçamentária: o Ministério do Planejamento e Orçamento está articulando uma alteração na proposta do PLOA 2027 para incluir os recursos necessários à compra das dívidas. Sem essa dotação, o Tesouro não pode fazer os pagamentos aos bancos.
  2. Regulamentação: depois de garantido o Orçamento, a Fazenda precisa publicar as regras operacionais — quem pode aderir, como será a adesão, prazos, limites por CPF, forma de pagamento e cronograma de execução.

A expectativa manifestada pelo governo é que a nova fase comece ao longo de 2027, mas ainda não há data oficial de início. O calendário depende da tramitação do PLOA 2027 no Congresso Nacional, que costuma ser votado nos últimos meses do ano anterior ao de vigência.

Enquanto isso, qualquer informação sobre "inscrições abertas no Desenrola 3.0" que apareça antes do anúncio oficial da Fazenda deve ser tratada como tentativa de golpe. Programas desse tipo não cobram taxa de adesão, não pedem Pix antecipado e não funcionam por WhatsApp ou SMS — a comunicação oficial é feita pelos canais do governo federal.

O que o consumidor endividado pode fazer agora

Enquanto o Desenrola 3.0 não é oficializado, quem está com o nome negativado ou com parcelas atrasadas não precisa — e nem deve — ficar parado esperando o programa. Alguns passos práticos ajudam a melhorar a situação desde já e colocam o consumidor em uma posição melhor caso a nova fase seja de fato aberta:

  • Faça um raio-X completo das dívidas. Liste todos os débitos em atraso, com valor atual, credor, quantas parcelas estão em aberto e há quanto tempo o atraso existe. Dívidas antigas, acima de cinco anos, podem já estar prescritas e não deveriam constar em cadastros de inadimplência.
  • Consulte gratuitamente o CPF. Serviços como Serasa, SPC e Registrato (do Banco Central) permitem ver dívidas registradas em seu nome, inclusive contratos esquecidos. A consulta ao Registrato é gratuita e feita pelo portal do próprio Banco Central.
  • Priorize dívidas com juros maiores. Entre o cartão de crédito rotativo, o cheque especial e o crediário de loja, os juros variam muito. Pagar primeiro a dívida mais cara reduz a bola de neve, mesmo que o valor seja menor.
  • Negocie direto com o credor. Mesmo fora de programas oficiais, bancos e varejistas aceitam descontos para quitar dívidas antigas à vista, especialmente aquelas já consideradas de difícil recuperação — exatamente o perfil que o governo pretende comprar no 3.0.
  • Evite trocar dívida cara por dívida cara. Pegar um empréstimo pessoal comum ou crédito no cartão para pagar outra dívida geralmente piora a situação. Linhas com juros mais baixos, como o consignado para quem tem direito, costumam ser alternativas melhores — desde que caibam no orçamento.
  • Cuidado com promessas de "limpar o nome na hora". Nenhuma empresa particular tem poder de retirar o CPF de cadastros de inadimplência sem a quitação ou o acordo com o credor. Pagamentos antecipados a intermediários sem contrato são a principal porta de entrada de fraudes.

O consumidor que organizar as contas agora chega à abertura do Desenrola 3.0 — se e quando ela acontecer — sabendo exatamente qual dívida vale a pena incluir, qual já está prescrita e qual pode ser quitada antes mesmo do programa.

Conclusão: um alívio em preparação, mas ainda sem data

O Desenrola 3.0 traz uma mudança importante em relação às fases anteriores: o governo deixaria de ser apenas o intermediário entre devedor e banco e passaria a comprar as dívidas com desconto mínimo de 90%, repassando esse abatimento ao consumidor. Se confirmado nos termos antecipados, o programa pode permitir que milhões de brasileiros quitem débitos antigos pagando uma fração muito pequena do saldo atual, com impacto direto na limpeza do nome e no retorno ao mercado de crédito.

Ainda assim, é fundamental tratar a nova fase com cautela: ela depende de aprovação orçamentária no PLOA 2027 e de regulamentação pela Fazenda, sem data oficial de início. Até lá, o melhor caminho é organizar as finanças, mapear as dívidas e desconfiar de qualquer oferta que prometa adesão imediata ao programa — porque ele ainda não existe formalmente. Quando as regras forem publicadas, elas sairão pelos canais oficiais do governo, de forma gratuita e sem intermediários.

Referências

  • Ministério da Fazenda — entrevista do secretário-executivo Dario Durigan (22/10/2026)
  • Ministério da Fazenda — regras das fases 1 e 2 do Programa Desenrola Brasil
  • Ministério do Planejamento e Orçamento — proposta de alteração do PLOA 2027

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