laptop computer beside coffee mug

El Niño pode elevar alimentos in natura em até 20%, aponta estudo

Estudo do Rabobank projeta alta de até 19,9% em hortaliças, carnes frescas e leite com El Niño forte; arroz e feijão sobem bem menos. Veja como se proteger.

TB

Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

O retorno do fenômeno climático El Niño voltou a ligar o sinal de alerta no orçamento das famílias brasileiras. Um levantamento recente do Rabobank projeta que, em um cenário de El Niño de forte intensidade, os alimentos in natura — como hortaliças, frutas, carnes frescas e leite — podem ficar até 19,9% mais caros nas gôndolas do supermercado. Esse encarecimento tende a se refletir no IPCA, o índice oficial de inflação, pressionando o custo de vida especialmente das famílias de baixa e média renda, que gastam uma fatia maior da renda com comida.

Antes de generalizar, é importante entender que o número de 20% não vale para tudo que está no prato. Ele se aplica sobretudo aos itens perecíveis, aqueles que dependem diretamente de chuva no momento certo, temperatura estável e pastagem verde. Alimentos semi-elaborados e armazenáveis, como o arroz e o feijão, tendem a subir bem menos — a projeção fica em torno de 3,6% no mesmo cenário climático adverso. Ou seja: o efeito El Niño chega ao supermercado, mas de forma desigual, e vale conhecer os detalhes para se planejar.

Nesta matéria, explicamos de forma direta o que é o El Niño, por que ele mexe com o preço da comida, quais produtos e regiões devem ser mais afetados e, principalmente, o que o consumidor pode fazer no dia a dia para proteger o bolso.

Por que o El Niño encarece os alimentos

O El Niño é um fenômeno de aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera o regime de chuvas em várias partes do planeta. No Brasil, ele tem um efeito característico: chuvas acima da média no Sul e estiagem com temperaturas elevadas no Centro-Oeste, Norte e parte do Nordeste. Segundo a NOAA, agência norte-americana responsável por monitorar o oceano e a atmosfera, a intensidade do fenômeno vem sendo acompanhada mês a mês, e o mercado agropecuário utiliza essas projeções para calcular o risco de perda de safra.

Quando a chuva falta na hora errada — durante o plantio, o desenvolvimento da lavoura ou a formação do pasto — a produção cai. Menos oferta, com a mesma demanda, resulta em preço mais alto. A regra vale tanto para o tomate quanto para o boi gordo. Além disso, o clima extremo encarece o transporte (estradas afetadas, rios mais baixos para escoamento pela hidrovia) e aumenta os custos de irrigação artificial que o produtor precisa contratar para tentar salvar a lavoura.

É por isso que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão oficial vinculado ao governo federal, faz previsões regionais que servem de bússola tanto para o produtor quanto para o consumidor final. Quando o Inmet sinaliza estiagem prolongada numa região específica, o mercado atacadista já começa a se movimentar semanas antes — e o preço no varejo geralmente sobe pouco tempo depois.

Outro ponto que costuma passar despercebido: o efeito do El Niño no bolso não é imediato. Existe um intervalo entre a quebra da safra e a chegada do preço mais alto na prateleira. Isso significa que o encarecimento projetado agora tende a se materializar nos meses seguintes, e o consumidor que se antecipa consegue economizar.

Quais alimentos devem ficar mais caros

O estudo do Rabobank aponta o teto de 19,9% de alta especificamente para o grupo dos alimentos in natura em cenário de El Niño forte. Nesse grupo estão:

  • Hortaliças e legumes: tomate, cebola, batata, alface, cenoura, pimentão. São itens sensíveis, com ciclo curto de produção, que sofrem imediatamente com falta de chuva ou excesso de calor.
  • Frutas frescas: banana, maçã, mamão, laranja. Um período de estiagem no meio do desenvolvimento do fruto derruba a qualidade e reduz a colheita.
  • Carnes frescas: bovina, suína e de frango. A pecuária depende diretamente da disponibilidade de pasto e água. Quando o pasto seca, o produtor precisa comprar ração — e o custo é repassado no preço final.
  • Leite e derivados: mesma lógica da carne. Vaca com menos capim disponível produz menos leite, e o custo por litro sobe.

Já o arroz e o feijão, itens centrais na mesa do brasileiro, tendem a sofrer um impacto muito menor, com projeção próxima de 3,6% no mesmo cenário adverso. Isso acontece por três motivos: eles são semi-elaborados (passam por beneficiamento antes de chegar ao consumidor), podem ser armazenados por longos períodos e possuem estoque regulador tanto público quanto privado. Portanto, o consumidor que ouvir alguém dizer que "o arroz e o feijão vão subir 20%" pode ficar tranquilo — essa afirmação não corresponde ao que os estudos técnicos projetam.

O açúcar, o café e o óleo de soja também são commodities influenciadas pelo clima, mas o preço deles no varejo brasileiro depende bastante do câmbio e da cotação internacional, então o efeito El Niño se mistura a outros fatores.

Regiões mais afetadas pela estiagem e pelo excesso de chuva

O El Niño não afeta o Brasil de forma uniforme. Cada região tem seus próprios riscos, e entender esse mapa ajuda a interpretar por que certos produtos podem subir mais em um estado do que em outro.

Centro-Oeste e Norte são as áreas onde o Inmet projeta os principais gargalos para a pecuária e para a disponibilidade de água nesta temporada. Menos chuva significa pasto mais seco, açudes com nível baixo e produtor precisando complementar a alimentação do rebanho com ração comprada. Como o Centro-Oeste concentra parte relevante do abate de bovinos do país, o efeito no preço da carne pode ser sentido em todo o território nacional.

Nordeste merece um recorte específico: nem todo baixo volume de chuva prejudica a produção na região. De acordo com o Inmet, o cenário previsto pode inclusive favorecer a colheita do feijão no Nordeste, já que a cultura precisa de tempo mais seco no período de maturação para evitar perdas do grão. Isso ajuda a explicar por que o feijão, na projeção nacional, tende a sofrer um impacto mais brando.

Sudeste é a região mais dependente da produção hortifrutigranjeira que abastece as grandes capitais. Se o Cinturão Verde de São Paulo, o interior de Minas Gerais e o Rio de Janeiro sofrerem estiagens localizadas, o preço do tomate, da alface e das folhas verdes tende a subir rapidamente. É onde o consumidor sente mais rápido a alta dos alimentos in natura.

Sul é o oposto do restante do país: o El Niño costuma trazer chuvas acima da média, o que pode atrapalhar a colheita de grãos (soja, trigo, milho) e prejudicar plantações de maçã e uva. Excesso de água apodrece raízes e favorece pragas. Como o Sul é grande produtor de trigo, o efeito pode chegar ao consumidor via pão francês e massas.

A inflação de alimentos, quando puxada por clima, tem esse componente regional forte — e isso significa que o supermercado do seu bairro pode reagir de forma diferente do supermercado de outra cidade.

Como proteger o orçamento familiar da alta dos alimentos

Saber que existe risco é o primeiro passo. O segundo é adaptar a rotina de compras para reduzir o impacto no bolso sem abrir mão de comer bem. Algumas estratégias práticas:

1. Estoque inteligente dos não perecíveis. Se arroz, feijão, óleo, açúcar, farinha e macarrão são itens de baixo risco de alta agora, aproveitar promoções e formar um pequeno estoque doméstico é uma jogada válida. Não é acumular por medo, é apenas antecipar compras que você faria de qualquer jeito.

2. Trocar produtos in natura por versões mais resistentes. Se o tomate estiver caro, o molho de tomate industrializado (que foi produzido meses atrás, com preço travado) pode sair mais em conta. Se a alface subir, agrião e couve costumam ter comportamento de preço diferente. Substituir cortes bovinos caros por frango, ovos ou leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) também protege o bolso e mantém a alimentação equilibrada.

3. Comprar em feiras livres no fim do expediente. Feirantes preferem vender mais barato do que voltar com o caminhão cheio. Frutas e verduras costumam sair com desconto significativo nas últimas horas.

4. Priorizar produtos da estação. Alimentos da safra da região saem mais baratos e sofrem menos com o clima extremo, porque estão colhidos dentro do ciclo natural.

5. Revisar o cartão e evitar parcelamento de compra de mercado. Em momentos de inflação de alimentos, muita gente começa a parcelar compras corriqueiras no cartão de crédito. Isso é uma armadilha: os juros do rotativo do cartão são os mais altos do sistema financeiro, e um mês difícil vira uma dívida de 12 meses. Se o orçamento estiver apertado, é preferível ajustar o cardápio da semana do que financiar o supermercado.

6. Acompanhar as previsões oficiais. As atualizações do Inmet e da NOAA sobre a intensidade do El Niño mudam mês a mês. Um fenômeno que começa "forte" pode enfraquecer, e o oposto também vale. Ficar de olho ajuda a decidir se vale a pena antecipar ou não uma compra maior.

O consumidor mais preparado é aquele que combina informação com flexibilidade no cardápio — trocar um item caro por outro semelhante, e não insistir na mesma receita quando o insumo principal está fora de preço.

Conclusão: informação é a melhor defesa

O El Niño é um fator real de pressão sobre a inflação de alimentos, mas o efeito no bolso de cada família depende de vários filtros: o tipo de alimento consumido, a região onde a família mora, a intensidade que o fenômeno vai atingir e a capacidade de adaptação do consumidor. O teto de aumento de cerca de 20% se refere ao grupo dos alimentos in natura em cenário de El Niño forte — não é uma média para o carrinho inteiro do mercado, e não vale para arroz e feijão.

A recomendação prática é simples: revise sua lista de compras, valorize itens armazenáveis, prefira produtos da estação, monitore as previsões oficiais e evite financiar supermercado no cartão de crédito. Combinar essas atitudes reduz de forma consistente o impacto da inflação de alimentos no orçamento — independentemente do que o clima decidir fazer nos próximos meses.

Referências

  • Rabobank — Estudo sobre El Niño e inflação de alimentos (projeções de 19,9% para in natura e 3,6% para semi-elaborados em cenário de El Niño forte).
  • NOAA — Monitoramento e projeção mensal da intensidade do El Niño.
  • Inmet — Previsão de impactos regionais do El Niño no Brasil.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.