Fecomércio-SP: dívida atinge mais de 70% das famílias
Mesmo com carteira assinada, orçamento apertado pelos juros altos empurra brasileiro a dividir compras do dia a dia em várias vezes
Tatiana Botelho
📖 8 min de leitura
Ter emprego fixo tem se mostrado insuficiente para manter o orçamento no azul em muitas famílias brasileiras, segundo levantamento recente. Uma nova leitura sobre o comportamento do consumidor mostra que a maioria das famílias brasileiras convive hoje com algum tipo de dívida — e uma parcela crescente já divide em prestações itens que antes eram pagos à vista, como alimentos, medicamentos e conta de luz. O dado que sintetiza esse quadro vem da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), que aponta endividamento acima de 70% entre os lares pesquisados.
Neste artigo, você vai entender o que está por trás desse número, por que a renda estável não tem sido suficiente para segurar as contas no azul, quais são os riscos de parcelar despesas essenciais e o que fazer para escapar da bola de neve dos juros. A ideia é oferecer um guia direto, com linguagem simples, para quem sente que o salário some antes do fim do mês mesmo trabalhando o mês inteiro.
O que a pesquisa da Fecomércio-SP mostra sobre o endividamento das famílias
Segundo a Fecomércio-SP, mais de 70% das famílias pesquisadas declararam ter alguma dívida em aberto no período analisado. Esse patamar é considerado elevado porque significa que apenas uma minoria dos lares consegue viver exclusivamente com o que ganha, sem depender de crédito, cartão parcelado ou financiamento para fechar o mês.
O ponto que chama atenção não é somente o volume de endividados, mas o perfil das dívidas. Historicamente, comprometer a renda com prestações estava mais associado a bens duráveis — geladeira, celular, moto, móveis. Agora, a pesquisa da Fecomércio-SP indica que o parcelamento migrou para o consumo básico, aquilo que a família precisa toda semana para se manter. É o carrinho de supermercado dividido em duas vezes no cartão, o remédio de uso contínuo pago no crediário da farmácia, a conta de energia rolada para o mês seguinte.
Outro elemento relevante é a condição de trabalho de quem está endividado. Boa parte dessas famílias tem alguém com carteira assinada, renda regular e emprego estável. Ou seja, não estamos falando apenas de desempregados ou trabalhadores informais em situação de vulnerabilidade extrema — o aperto atinge também o assalariado comum, o que revela um problema de custo de vida versus poder de compra, e não apenas de falta de renda.
Por que trabalhador com emprego estável está parcelando comida e remédio
Quando um lar precisa dividir arroz, feijão, carne ou remédio de pressão em várias parcelas, o sinal é claro: o salário líquido não está mais cobrindo o custo de vida corrente. Existem alguns fatores combinados que explicam esse fenômeno.
O primeiro é a inflação acumulada em itens essenciais. Alimentos, energia elétrica, transporte e serviços de saúde subiram de forma consistente nos últimos anos, corroendo o poder de compra de quem tem reajuste salarial anual — muitas vezes abaixo da inflação real sentida no supermercado. Mesmo mantendo o mesmo emprego, o trabalhador percebe que o dinheiro rende menos.
O segundo fator é o custo do crédito. Com a taxa básica de juros elevada, todas as linhas de crédito ao consumidor ficam mais caras: cartão rotativo, cheque especial, crediário de loja e empréstimo pessoal. Quem entra numa dívida pequena para cobrir uma emergência acaba pagando muito mais do que pegou, porque os juros se somam mês a mês.
O terceiro elemento é o efeito psicológico do parcelamento. Dividir uma compra de R$ 300 em seis vezes de R$ 50 parece caber no orçamento no momento da compra. O problema aparece quando várias parcelinhas se acumulam de meses diferentes e, juntas, consomem uma fatia enorme do salário. Muitas famílias descobrem que estão comprometidas com prestações antes mesmo de receber o pagamento.
Por fim, há a ausência de reserva de emergência. Sem uma poupança mínima para imprevistos — conserto de carro, remédio caro, uma consulta médica particular —, qualquer despesa fora do previsto vira dívida. E, uma vez dentro do ciclo, é difícil sair sem uma reorganização profunda.
Os riscos de parcelar itens essenciais no cartão e no crediário
Parcelar uma geladeira nova em 10 vezes sem juros pode ser uma decisão razoável. Parcelar a feira do mês, o gás e o remédio, não. Existe uma diferença técnica importante entre financiar um bem que dura anos e financiar um consumo que se esgota em dias.
Quando você divide uma compra de supermercado em três vezes, por exemplo, o alimento já foi consumido antes mesmo de a segunda parcela vencer. Ou seja, você continua pagando por algo que não existe mais na sua casa — e, ao mesmo tempo, precisa comprar a feira do próximo mês, provavelmente parcelando de novo. É a mecânica clássica da bola de neve.
Os principais riscos desse comportamento são:
- Comprometimento progressivo da renda: as parcelas se sobrepõem e, em poucos meses, mais da metade do salário pode estar destinada a dívidas.
- Migração para o rotativo do cartão: quem não consegue pagar a fatura integral cai no rotativo, uma das modalidades de crédito mais caras do mercado.
- Uso do cheque especial como salário: entrar no negativo da conta corrente vira rotina, e o banco cobra juros elevados por cada dia de saldo devedor.
- Negativação do CPF: atrasos em contas básicas, cartão e crediário resultam em restrição no nome, dificultando novas compras, aluguel de imóvel e até processos seletivos de emprego.
- Deterioração da saúde mental: viver com dívidas gera ansiedade, insônia e conflitos familiares, algo cada vez mais discutido por especialistas em finanças pessoais.
Como sair do ciclo do endividamento e reorganizar o orçamento
O caminho para escapar do endividamento crônico exige método e paciência. Não há solução mágica, mas há passos práticos que funcionam quando aplicados com consistência. Veja um roteiro objetivo para começar hoje mesmo.
1. Coloque todas as dívidas no papel. Liste cada uma com valor total, taxa de juros mensal, parcela e data de vencimento. Só é possível resolver o que se enxerga por inteiro. Muita gente evita fazer essa conta justamente por medo do resultado — e é aí que a dívida cresce sem controle.
2. Ataque primeiro as dívidas mais caras. O rotativo do cartão de crédito e o cheque especial costumam ter os juros mais altos entre as linhas de crédito ao consumidor. Priorize quitar essas modalidades antes de qualquer outra, mesmo que sejam valores pequenos. Cada dia que passa sem quitá-las, o saldo devedor aumenta.
3. Negocie diretamente com o credor. Bancos, financeiras e lojas costumam aceitar renegociação, com desconto no valor total, alongamento do prazo ou migração para uma linha de crédito com juros menores. Existem também mutirões periódicos de renegociação promovidos por órgãos oficiais de defesa do consumidor, como o portal Consumidor.gov.br, mantido pela Secretaria Nacional do Consumidor.
4. Corte o cartão de crédito temporariamente. Enquanto a casa não estiver equilibrada, evite novas compras parceladas. Volte a comprar à vista, no débito ou em dinheiro — a dor de ver o valor sair da conta na hora ajuda o cérebro a frear o consumo por impulso.
5. Reveja despesas fixas. Assinaturas de streaming, plano de celular, TV a cabo, academia e serviços que você não usa regularmente somam, no fim do mês, um valor que pode ser direcionado à quitação das dívidas.
6. Aumente a renda no curto prazo. Vender itens parados em casa, prestar serviços pontuais nos fins de semana ou aceitar horas extras podem gerar um caixa extra para acelerar a quitação.
7. Comece uma reserva mínima, mesmo pequena. Depois de quitar as dívidas mais caras, guarde um valor todo mês — ainda que sejam R$ 50 ou R$ 100 — em uma conta separada. Essa reserva é o que vai evitar que uma próxima emergência jogue a família de volta no vermelho.
Conclusão: emprego estável não substitui planejamento financeiro
O retrato traçado pela Fecomércio-SP mostra que ter carteira assinada continua sendo essencial, mas não basta. Num cenário de juros altos e custo de vida pressionado, o trabalhador brasileiro precisa somar à renda um mínimo de planejamento financeiro — sob risco de ver o salário evaporar em parcelas que se acumulam mês a mês.
Próximos passos práticos para o leitor
Se você se identificou com o quadro descrito nesta reportagem, o próximo passo é simples e começa hoje: pegue papel e caneta (ou uma planilha), some tudo o que deve, identifique a dívida mais cara e trace um plano para quitá-la primeiro. Buscar orientação em canais oficiais, como o Procon do seu estado e o Consumidor.gov.br, também é uma alternativa gratuita e segura para renegociar. Parar de parcelar o essencial é o primeiro sinal de que o orçamento voltou a andar no ritmo certo.
Referências
- Fecomércio-SP — Pesquisa sobre endividamento e hábitos de consumo das famílias
- Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon/MJ) — Plataforma Consumidor.gov.br
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