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Galípolo sinaliza novas medidas do BC para o rotativo em 2026

Presidente do BC admite que juros do rotativo seguem incompatíveis com a realidade do brasileiro e indica que ajustes podem sair antes do fim do ano.

Tatiana Botelho

📖 10 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O rotativo do cartão segue como uma das linhas mais caras do sistema financeiro, mesmo depois do teto de 100% para o custo total da dívida, em vigor desde 2024.
  • Entre as frentes já debatidas no setor estão revisão do teto do rotativo, portabilidade da dívida de cartão, mais transparência na fatura e limites ao parcelamento sem juros.
  • Enquanto o novo pacote não sai, o consumidor pode se proteger evitando pagar só o mínimo, negociando antes de atrasar e trocando dívida cara por linhas mais baratas, como consignado.

O endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro da agenda do Banco Central. Em declaração recente, o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, afirmou que a instituição estuda um novo conjunto de medidas para conter o peso do cartão de crédito e, principalmente, do crédito rotativo nos orçamentos domésticos — e deu a entender que parte dessas mudanças pode entrar em vigor ainda em 2026. A sinalização reacende um debate antigo: o Brasil convive há anos com uma das taxas de juros ao consumidor mais elevadas do mundo, e o rotativo do cartão continua sendo a linha mais cara de todas.

Este guia explica, em linguagem direta, o que o Banco Central está preparando, por que o rotativo virou o alvo principal e o que já mudou nos últimos anos no cartão de crédito. Também mostra o que pode mudar até o fim de 2026 e como se proteger enquanto as novas regras não saem do papel.

O que Galípolo sinalizou sobre o endividamento no cartão

A fala do presidente do Banco Central deixou claro que o diagnóstico interno é de que o atual patamar de juros do cartão de crédito — em especial do rotativo — segue incompatível com a renda média do trabalhador brasileiro. Em outras palavras: mesmo depois das mudanças implementadas em 2024, que colocaram um limite para o custo total do rotativo e do parcelamento da fatura, o cartão continua empurrando famílias para um ciclo de dívida difícil de romper.

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Galípolo não detalhou publicamente quais instrumentos estão sobre a mesa, mas afirmou que a instituição estuda um novo pacote e que a intenção é agir ainda neste ano. Nos meses anteriores, a autoridade monetária vinha concentrando sua comunicação em torno da política de juros (Selic), com menor destaque para o debate sobre crédito ao consumidor.

Na prática, o recado para o mercado é duplo: de um lado, bancos e emissores de cartão devem se preparar para uma nova rodada de ajustes regulatórios; de outro, o consumidor que hoje depende do rotativo ou do parcelamento da fatura pode começar a ver mudanças concretas nas regras de contratação, nos avisos obrigatórios e, possivelmente, no próprio custo final da dívida.

Por que o rotativo do cartão virou o principal alvo do Banco Central

O crédito rotativo é a modalidade acionada quando o cliente paga menos do que o valor total da fatura do cartão. O saldo que sobra passa a render juros — e esses juros, historicamente, são os mais altos do sistema financeiro brasileiro. É por isso que ele se tornou prioridade na agenda do Banco Central.

A conta é direta para o consumidor: uma dívida pequena, quando entra no rotativo, pode crescer rapidamente por causa das taxas elevadas praticadas nessa modalidade.

Em 2023, o Congresso aprovou uma lei determinando que o custo total da dívida no cartão (rotativo mais parcelamento da fatura) não poderia ultrapassar 100% do valor original — ou seja, o consumidor não deve pagar mais do que o dobro do que devia. A regra entrou em vigor em janeiro de 2024 e foi um primeiro freio relevante no setor.

Mesmo assim, o problema persistiu. A inadimplência no cartão continua elevada, e boa parte das famílias endividadas aponta a fatura do cartão como principal origem do problema. É esse pano de fundo que explica a nova movimentação do Banco Central: o remédio aplicado em 2024 ajudou, mas não resolveu.

Como o cartão de crédito se compara às outras linhas no custo final

Para entender o tamanho do problema, vale olhar o cartão de crédito dentro do "cardápio" de crédito disponível ao brasileiro. O rotativo do cartão disputa com o cheque especial o posto de linha mais cara do país, enquanto modalidades como consignado e crédito com garantia costumam ter taxas muito menores — justamente porque oferecem mais segurança ao banco.

O quadro abaixo traz as médias atualizadas das principais linhas de crédito pessoal, de acordo com os dados oficiais do Banco Central:

Juros médios do mercadoTaxa média mensal de juros por tipo de crédito, para pessoa física.
Empréstimo pessoal6,39% a.m.
Cheque especial7,43% a.m.
Cartão de crédito rotativo15,18% a.m.

Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.

A diferença entre uma linha e outra ajuda a explicar por que o Banco Central vem tratando o rotativo como prioridade. Quando um consumidor paga só o mínimo da fatura por alguns meses seguidos, ele muitas vezes acaba desembolsando, em juros, mais do que o valor que efetivamente consumiu — e isso em prazos curtos, de meses, não de anos. É um padrão que corrói renda, derruba score e, no limite, empurra famílias para a inadimplência.

O que pode mudar nas regras do cartão até o fim de 2026

O presidente do Banco Central não anunciou um pacote fechado, mas sinalizou que novas medidas estão sendo estudadas. Com base no que já foi debatido nos últimos anos dentro do setor financeiro e nos movimentos recentes da autoridade monetária, há algumas frentes que tendem a aparecer no desenho das novas regras:

  • Revisão do teto do rotativo: o limite de 100% hoje vale para o custo total da dívida. O Banco Central pode propor um teto mais rígido, com corte adicional, ou criar gatilhos para que o consumidor seja migrado automaticamente para linhas mais baratas antes de a dívida explodir.
  • Portabilidade da dívida de cartão: ampliar a possibilidade de o consumidor transferir sua dívida de cartão para outra instituição que ofereça condições melhores, o que forçaria uma concorrência real por essas carteiras.
  • Mais transparência na fatura: regras mais duras para o aviso de entrada no rotativo, para a projeção do quanto a dívida vai custar se o cliente pagar só o mínimo e para o destaque do CET (Custo Efetivo Total).
  • Limites ao parcelamento sem juros: tema sensível, debatido há tempos no mercado, que mexeria com o modelo de negócio do varejo e das bandeiras. Ainda sem definição pública.
  • Educação financeira obrigatória nos canais do cartão: ampliação de avisos padronizados sobre risco de superendividamento, inspirados nas regras já existentes para o consignado.

Nenhuma dessas medidas foi oficialmente confirmada, e qualquer mudança passará por consulta pública e discussão com o setor antes de virar norma. O que a declaração de Galípolo mostra é que o tema voltou para o topo da agenda.

O que já mudou nos últimos anos e por que ainda não foi suficiente

As mudanças no cartão de crédito não começam agora. Nos últimos dois anos, o setor passou por uma série de ajustes que mexeram tanto no custo quanto na forma de contratação:

  1. Teto para o custo total da dívida no cartão: desde 2024, o valor total pago pelo consumidor em juros e encargos no rotativo e no parcelamento da fatura não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida.
  2. Obrigatoriedade de oferta de parcelamento mais barato: emissores precisam oferecer, de forma clara, uma opção de parcelamento da fatura com condições melhores que o rotativo, para evitar que o cliente permaneça preso à modalidade mais cara.
  3. Mais informação na fatura: avisos sobre quanto o cliente pagará se quitar apenas o mínimo e simulações de parcelamento tornaram-se mais presentes.
  4. Discussão sobre parcelado sem juros: embora não tenha havido mudança efetiva, o debate pressionou o setor a repensar prazos e modelos.

Essas mudanças aliviaram o problema, mas não eliminaram. Parte do motivo é estrutural: o cartão de crédito no Brasil combina parcelado sem juros (muito usado pelo consumidor) com um rotativo caríssimo, e esse desenho faz com que o custo do "sem juros" acabe embutido em outras partes do sistema. Além disso, o perfil de uso do cartão mudou: ele deixou de ser apenas meio de pagamento e virou linha de crédito emergencial para muita família, o que amplia o risco.

É nesse contexto que o Banco Central estuda uma nova rodada de medidas: não para refazer o que já foi feito, mas para fechar brechas que a primeira tentativa não cobriu.

Como se proteger do endividamento no cartão enquanto as novas regras não saem

Enquanto o pacote estudado pelo Banco Central não é publicado, o consumidor pode (e deve) agir para não cair ou não se afundar mais no rotativo. Algumas atitudes práticas, aplicáveis a qualquer orçamento:

  • Nunca pague só o mínimo da fatura por mais de um mês: pagar o mínimo é a porta de entrada do rotativo, a linha de crédito mais cara do país. Se não há como pagar o total, procure imediatamente o banco para parcelar a fatura — essa opção, por regra, precisa ser mais barata que o rotativo.
  • Negocie antes de atrasar: a fatura em dia tem muito mais poder de negociação do que a dívida vencida. Bancos e emissores oferecem condições melhores a quem procura antes do vencimento.
  • Troque dívida cara por dívida barata: se você tem uma dívida presa no cartão, avalie usar uma linha mais barata — como consignado (para quem tem direito) ou crédito com garantia — para quitar o cartão e passar a pagar uma parcela única, menor e previsível. Isso é educação financeira na prática: trocar o juro alto pelo juro baixo.
  • Mapeie suas faturas: anote, em um só lugar, todos os cartões, valores totais, datas de vencimento e taxas. Muita gente perde o controle justamente por não enxergar o conjunto da dívida.
  • Evite abrir novos cartões para pagar os antigos: essa é uma das principais armadilhas de quem já está endividado. Em pouco tempo, a dívida se multiplica.
  • Aproveite programas de renegociação: campanhas como o Desenrola e mutirões periódicos de limpa nome oferecem descontos relevantes para quitação à vista, principalmente de dívidas de cartão.

Se o endividamento já está fora de controle, vale buscar atendimento gratuito nos Procons, nos Núcleos de Defensoria Pública ou nos canais oficiais de superendividamento ligados ao Senacon, criados a partir da Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021). Esses canais ajudam a organizar as dívidas e, em alguns casos, a abrir um processo formal de repactuação.

O que esperar daqui pra frente

A sinalização de Gabriel Galípolo coloca o cartão de crédito e o rotativo de volta no centro do debate regulatório. Para o consumidor, três movimentos devem acontecer nos próximos meses: anúncio de uma consulta pública com propostas concretas, discussão com o setor bancário e, em seguida, a edição de normas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo próprio Banco Central.

Não há garantia de que todas as medidas em estudo virarão regra, nem na magnitude esperada. Mas o recado é claro: o atual patamar de juros do rotativo é considerado insustentável pela autoridade monetária, e novos limites devem ser propostos.

Para quem usa cartão, o resumo prático é: a tendência é de mais proteção ao consumidor, mas essa proteção não substitui o cuidado individual. Pagar a fatura total sempre que possível, evitar o rotativo a todo custo e trocar dívida cara por dívida barata continuam sendo as três atitudes mais poderosas para blindar o orçamento — independentemente do que o Banco Central vier a decidir até o fim de 2026.

Acompanhar as próximas publicações oficiais do Banco Central (bcb.gov.br) é a forma mais segura de saber quando as novas regras entram em vigor e o que, exatamente, muda na vida de quem usa cartão de crédito no Brasil.

Referências

  • Banco Central do Brasil — declaração do presidente Gabriel Galípolo sobre novas medidas para o cartão de crédito e o rotativo
  • Banco Central do Brasil — estatísticas de taxas médias de juros ao consumidor por modalidade de crédito
  • Lei nº 14.181/2021 — Lei do Superendividamento (Senacon)

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