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Milhas como ativo: o que muda com projeto aprovado na Câmara

Câmara aprova projeto que reconhece milhas aéreas como ativo negociável e conversível em dinheiro. Entenda o que muda no seu bolso e os próximos passos.

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Tatiana Botelho

📖 12 min de leitura

Durante anos, aquele saldo de milhas acumulado no cartão de crédito ou nos programas de fidelidade parecia dinheiro que existia só no papel. Servia para trocar por passagem, hospedagem ou algum produto no catálogo, mas dificilmente virava dinheiro de verdade na conta. Isso pode estar prestes a mudar. A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que reconhece as milhas aéreas como um ativo com valor econômico próprio, podendo ser convertido em dinheiro e negociado legalmente. Na prática, se a proposta virar lei, milhões de brasileiros que hoje têm pontos parados podem passar a olhar para esse saldo como uma reserva financeira — algo que pode virar renda extra, ajudar a quitar uma dívida cara ou reforçar o orçamento no fim do mês.

Nesta matéria, você vai entender de forma direta o que o projeto muda, como transformar milhas em dinheiro na prática, se realmente vale a pena usar esse caminho para pagar dívidas, quais os cuidados com impostos e possíveis armadilhas, e o que ainda precisa acontecer para a regra valer de fato.

O que muda com o projeto que transforma milhas em dinheiro

O projeto aprovado na Câmara dos Deputados tem como autor o deputado Ricardo Ayres, do Republicanos do Tocantins, e trata as milhas aéreas como um bem com valor econômico reconhecido, que pode ser negociado, transferido e convertido em dinheiro pelo consumidor. Isso pode parecer óbvio para quem já vende milhas em plataformas informais há anos, mas juridicamente sempre houve uma zona cinzenta: os programas de fidelidade costumavam tratar os pontos como um benefício da empresa, com regras próprias, prazos de validade e restrições de transferência.

Com o novo marco, a lógica se inverte. As milhas passam a ser encaradas como patrimônio do consumidor. Isso significa, entre outras coisas, que o titular ganha mais liberdade para decidir o que fazer com o próprio saldo — inclusive vendê-lo em dinheiro, sem depender exclusivamente do catálogo de recompensas da empresa emissora.

O tema também ganhou peso político. O vice-líder do governo, deputado Airton Faleiro, do PT do Pará, se manifestou publicamente sobre a proposta durante a tramitação. A discussão mostra que o assunto ultrapassou o debate técnico de aviação e passou a ser tratado como uma pauta de defesa do consumidor e de circulação de valor na economia.

É importante deixar claro, porém, que a aprovação na Câmara não é o fim do caminho. O texto ainda precisa passar por outras etapas para virar lei em vigor. Enquanto isso não acontece, as regras atuais dos programas de fidelidade continuam valendo. Ou seja: nada muda de um dia para o outro no seu extrato de milhas.

Como as milhas podem virar renda extra na prática

A parte que mais interessa ao leitor é o efeito prático: como esse saldo parado pode se transformar em dinheiro no fim do mês. Hoje, existem basicamente três formas de tirar proveito de milhas: trocar por passagens e produtos, transferir entre programas em busca de bônus e vender para intermediários que compram esses pontos. As duas primeiras são reconhecidas pelas próprias companhias. A terceira sempre viveu em uma zona nebulosa — e é justamente ela que o projeto tende a organizar.

Com milhas reconhecidas como ativo negociável, tende a ficar mais claro e mais seguro para o consumidor vender pontos e receber dinheiro em troca. Para quem tem um saldo grande acumulado — muitas vezes por causa de compras de trabalho, mensalidades e contas do dia a dia pagas no cartão — isso pode representar uma renda extra concreta. Não é enriquecimento rápido, mas é dinheiro que existia apenas como "crédito futuro" e passa a poder circular.

Alguns cenários em que essa renda extra faz diferença:

  • Trabalhador CLT que usa o cartão de crédito para concentrar gastos e ganha pontos, mas quase nunca viaja. Em vez de deixar o saldo expirar, pode vender e reforçar o orçamento.
  • Aposentado ou pensionista que recebeu milhas de bônus em alguma promoção do banco e não tem interesse em usar em passagem. Vira dinheiro que pode ir para a poupança ou para pagar uma conta.
  • Autônomo que compra insumos no cartão e acumula pontos como consequência natural do trabalho. Aquele saldo passa a ser um pequeno "caixa" adicional do negócio.

Sem valores oficiais de referência, o mais recomendado é o consumidor pesquisar as cotações no momento em que decidir vender e comparar entre diferentes canais autorizados, sempre desconfiando de propostas muito acima da média — golpes envolvendo milhas são comuns.

Milhas para quitar dívidas: vale a pena usar esse caminho?

Uma das aplicações mais interessantes desse novo cenário é o uso das milhas para pagar dívidas — especialmente as mais caras. Não é segredo que o brasileiro convive com juros altíssimos no rotativo do cartão de crédito e no cheque especial. Uma dívida de mil reais no rotativo pode, em poucos meses, virar o dobro. Diante disso, qualquer recurso disponível para quitar esse tipo de passivo o quanto antes tende a valer a pena do ponto de vista financeiro.

Se o projeto for confirmado como lei, converter milhas em dinheiro e usar esse valor para abater dívidas passa a ser uma estratégia legítima e mais transparente. Vamos raciocinar em termos simples: se você tem um saldo de pontos que dificilmente vai virar uma passagem útil (por falta de tempo, planejamento ou disponibilidade nas datas que interessam), esse saldo, na prática, está parado. Deixar parado significa correr risco de expiração e de desvalorização. Já converter em dinheiro para tirar uma dívida cara das costas gera um alívio financeiro imediato e mensurável.

Algumas prioridades que costumam fazer sentido nesse tipo de decisão:

  1. Rotativo do cartão de crédito, por ter os juros mais altos do mercado.
  2. Cheque especial, também com juros elevados.
  3. Parcelamento de fatura em atraso.
  4. Empréstimos pessoais sem garantia.
  5. Contas de consumo em atraso, que podem gerar cortes de serviço.

Dívidas mais baratas, como financiamento imobiliário e crédito consignado do INSS ou do CLT — que já têm juros mais controlados e prazos longos — costumam ser as últimas da fila para esse tipo de estratégia. Nesses casos, muitas vezes faz mais sentido manter o pagamento em dia e usar o dinheiro das milhas para outro fim, como formar uma reserva de emergência.

Vale reforçar um ponto: milhas são um recurso limitado. Uma vez vendidas, acabaram. Por isso, o ideal é usar essa conversão como parte de um plano maior de organização financeira, e não como fonte recorrente de dinheiro para bancar o padrão de vida.

Cuidados com tributação e regras ao vender milhas

Um ponto que gera muita dúvida quando se fala em transformar milhas em dinheiro é a tributação. Enquanto o tratamento tributário específico não estiver claro no texto final da lei, o mais prudente é seguir as regras gerais da Receita Federal para bens e direitos: qualquer valor recebido de forma relevante deve ser declarado no Imposto de Renda, e ganhos com venda de ativos podem estar sujeitos a tributação.

Mesmo antes do projeto virar lei, alguns cuidados já são recomendados para quem pretende vender milhas:

  • Guardar comprovantes de toda a operação. Extratos do programa, e-mails, comprovantes de transferência de milhas e comprovantes bancários do valor recebido. Isso protege o consumidor em caso de questionamento futuro.
  • Movimentar por meio de canais rastreáveis. Evitar receber grandes valores em espécie ou por meios informais. Transferência bancária em nome do próprio titular é o caminho mais seguro.
  • Ficar atento a operações em nome de terceiros. Emprestar a conta de milhas para outra pessoa negociar é prática de risco, tanto por regras dos programas quanto por eventuais complicações tributárias.
  • Desconfiar de intermediários que prometem valores muito acima do mercado. Golpe com clonagem de conta de milhas é frequente. O pagamento parece bom, mas a conta acaba bloqueada e o consumidor perde tudo.

Outro cuidado envolve as regras próprias dos programas de fidelidade. Ainda que a lei venha a reconhecer as milhas como ativo do consumidor, as companhias podem manter regras internas de uso, limites de transferência e regras antifraude. Até haver definição, o consumidor precisa continuar lendo os termos de cada programa antes de fazer movimentações grandes.

Para aposentados, pensionistas e beneficiários do INSS que muitas vezes têm menos familiaridade com plataformas digitais, o alerta é ainda mais importante. Nunca fornecer login e senha do programa de fidelidade para terceiros, mesmo que se apresentem como "corretor de milhas". A segurança da conta é responsabilidade do titular, e a maioria dos golpes começa exatamente com o repasse desses dados.

Passo a passo para organizar suas milhas

Independentemente de quando o projeto entrar em vigor, o momento é ótimo para o consumidor organizar suas milhas. Muita gente sequer sabe quanto tem acumulado, em quantos programas, com que prazo de validade. Colocar isso no papel já é um passo importante para transformar esse saldo em dinheiro no futuro.

Um roteiro prático:

  1. Liste todos os programas em que você tem cadastro. Programas das companhias aéreas, do banco, da bandeira do cartão e de redes de varejo. É comum ter saldo pequeno em vários lugares que, somados, viram um valor relevante.
  2. Consulte o saldo e a validade. Em muitos programas, os pontos expiram em prazos que variam de meses a poucos anos. Saber a data de expiração evita perder valor.
  3. Verifique se há transferências com bônus. Alguns programas do banco oferecem transferência para companhias aéreas com bônus considerável. Isso pode aumentar o valor do seu saldo antes de uma futura conversão em dinheiro.
  4. Atualize seus dados cadastrais. CPF, e-mail e telefone corretos são essenciais para receber avisos de expiração e para conseguir vender legalmente no futuro.
  5. Ative a autenticação em dois fatores. É o principal cuidado contra invasão da conta de milhas. Se o programa oferecer, ative agora.
  6. Acompanhe a tramitação da nova regra. Assim que o projeto virar lei, cada programa terá que se adequar. Quem estiver com a casa em ordem sai na frente para tomar a melhor decisão.

Esse tipo de organização também ajuda em outra frente: planejamento familiar. Ao saber exatamente quanto vale seu saldo em milhas, fica mais fácil pesar se compensa mais usar em passagem para uma viagem já planejada ou converter em dinheiro para outra finalidade. Não há resposta única — depende do momento de cada família.

Para quem vive do orçamento apertado, como muitas famílias de trabalhadores CLT, aposentados e beneficiários do INSS, o mais provável é que a conversão em dinheiro faça mais sentido do que uma viagem. Já para quem tem estabilidade e paga suas contas com folga, usar em passagem pode gerar mais valor do que o equivalente em reais.

O que ainda pode mudar antes da lei entrar em vigor

Apesar da repercussão positiva, é importante ter os pés no chão. A aprovação na Câmara é uma etapa relevante, mas não é a final. Ao longo desse caminho, o texto pode sofrer alterações: pontos podem ser incluídos, retirados ou ajustados. Regras de transição, prazos para adaptação das empresas e possíveis limites para a operação de venda de milhas costumam ser temas que aparecem nessa etapa.

Outro ponto que ainda tende a ser debatido é o impacto sobre as próprias companhias aéreas e programas de fidelidade. Reconhecer as milhas como ativo do consumidor muda a lógica desses programas, que hoje têm nesses pontos um instrumento de fidelização e de contabilidade próprio. É natural esperar reações do setor, com pedidos de ajustes durante a tramitação.

Há também a questão da fiscalização. Se milhas viram um ativo negociável em dinheiro, o mercado precisa de regras claras sobre quem pode intermediar essas operações, como registrar as transações e como proteger o consumidor de fraudes. Sem esse desenho, o risco é o mercado paralelo continuar funcionando como sempre funcionou, apenas com uma camada legal por cima.

Do lado do consumidor, a recomendação é acompanhar o tema com atenção, mas sem correria. Não faz sentido tomar decisões precipitadas — como vender todas as milhas às pressas ou aceitar propostas suspeitas — antes de o texto virar lei e ter sua aplicação regulamentada.

Conclusão: prepare-se para tratar suas milhas com estratégia

O projeto aprovado pela Câmara pode representar uma virada importante para o consumidor brasileiro: milhas deixam de ser apenas um prêmio simbólico dos programas de fidelidade e passam a ser reconhecidas como um ativo com valor econômico, negociável e conversível em dinheiro. Para milhões de pessoas que acumulam pontos como consequência do próprio dia a dia — trabalhadores CLT, aposentados, pensionistas, beneficiários do INSS, autônomos — isso significa uma nova ferramenta de organização financeira, que pode virar renda extra, ajudar a quitar dívidas caras e reforçar o orçamento.

Enquanto o texto percorre as próximas etapas até virar lei, o melhor que o consumidor pode fazer é se organizar: mapear seus saldos, proteger suas contas contra fraudes, acompanhar as regras dos programas e evitar decisões precipitadas. O próximo passo prático é simples: entre agora nos seus programas de fidelidade, veja o saldo, verifique a validade e comece a pensar, com calma, no que faria mais sentido para o seu bolso: usar em passagem ou, no futuro, converter em reais.


Referências

  • Câmara dos Deputados — projeto de lei de autoria do deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO).
  • G1 Economia, 13/08/2026 — cobertura da aprovação do projeto que trata milhas como ativo conversível em dinheiro.
  • Manifestação pública do vice-líder do governo, deputado Airton Faleiro (PT-PA), durante a tramitação do projeto.

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