Nubank e Mercado Pago suspendem cripto no mesmo dia
Duas das maiores plataformas digitais do país travaram movimentações de criptoativos ao mesmo tempo, em meio ao avanço da regulação do Banco Central sobre o setor.
Tatiana Botelho
📖 9 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Nubank e Mercado Pago suspenderam, no mesmo dia, as operações de depósito e saque de criptoativos em seus aplicativos.
- O saldo em cripto segue registrado nas contas dos clientes, mas não pode ser movimentado para fora enquanto a trava estiver ativa.
- O cenário mais provável para a coincidência é a adaptação ao Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022) e aos normativos do Banco Central.
Dois dos aplicativos financeiros mais usados pelos brasileiros — Nubank e Mercado Pago — interromperam, no mesmo dia, operações com criptoativos em suas plataformas. A medida pegou de surpresa quem usa essas carteiras para comprar, guardar ou movimentar moedas digitais como bitcoin, ethereum e stablecoins, e levantou uma pergunta imediata: o dinheiro em cripto que está lá dentro continua seguro?
Nesta reportagem você vai entender o que exatamente foi suspenso, quem é afetado, o que a regulação em curso do Banco Central tem a ver com isso e o que fazer agora para proteger o seu saldo.
O que mudou no Nubank e no Mercado Pago
Os usuários das duas plataformas passaram a se deparar com avisos dentro dos próprios aplicativos informando que as operações de depósito e de saque de criptoativos estavam temporariamente indisponíveis. Na prática, isso significa que quem queria transferir bitcoin de uma corretora para a conta do Nubank ou do Mercado Pago (depósito) ficou impedido de fazê-lo, e quem queria tirar os criptoativos dessas contas para enviar a uma carteira externa ou a outra exchange (saque) também encontrou o caminho bloqueado.
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A suspensão ocorreu de forma praticamente simultânea nas duas empresas, o que chamou a atenção do mercado — justamente por se tratar de duas das maiores instituições financeiras digitais do país, com dezenas de milhões de clientes..
O ponto central para o usuário é entender o que a suspensão não faz. Ela não significa, pelas informações até agora divulgadas, que o saldo em cripto tenha sido apagado, confiscado ou perdido. O que está bloqueado é a movimentação para dentro e para fora das plataformas. O saldo existente continua registrado na conta do cliente, mas, enquanto a trava estiver ativa, ele fica "parado" ali — sem poder ser enviado a outra carteira e, em alguns casos, sem poder ser aumentado por novos aportes vindos de fora.
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Quem é afetado e o que acontece com o saldo em cripto
A interrupção atinge, em primeiro lugar, o investidor pessoa física que usava Nubank ou Mercado Pago como "porta de entrada" simples para o mundo das criptomoedas. Esse perfil cresceu muito nos últimos anos justamente porque esses aplicativos reduziram a barreira técnica: em poucos toques, era possível comprar frações de bitcoin ou stablecoins atreladas ao dólar sem precisar abrir conta em uma exchange especializada.
Também são afetados os usuários que mantinham parte do patrimônio em stablecoins dentro dessas contas como forma de proteção contra a inflação ou de exposição ao dólar. Para esse grupo, a impossibilidade de sacar significa que, por enquanto, o valor não pode ser transferido para outra plataforma, nem levado para uma carteira própria (self-custody).
Um terceiro grupo impactado é o de pessoas que usavam cripto como meio de receber ou enviar valores — por exemplo, freelancers pagos em stablecoins por clientes no exterior. Essa movimentação, que dependia dos depósitos entrando na conta, fica interrompida enquanto a suspensão durar.
É importante separar duas coisas: a custódia do ativo e a liberdade de movimentação. A custódia, ou seja, o registro de que aquele cliente é dono de uma determinada quantidade de cripto, segue com a instituição. Já a liberdade de movimentar esse ativo — tirá-lo da plataforma, por exemplo — é o que foi temporariamente retirado.
Em termos práticos, o investidor que precisa realizar uma operação agora, seja para vender rapidamente num pico de preço, seja para migrar o ativo para outro lugar, está limitado às opções que ainda estiverem disponíveis dentro do próprio aplicativo.
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Por que duas fintechs grandes paralisariam ao mesmo tempo
Suspensões simultâneas em concorrentes diretas quase nunca são coincidência. Quando duas empresas que disputam o mesmo cliente travam, no mesmo dia, o mesmo tipo de operação, o cenário mais provável envolve um fator externo que afeta as duas ao mesmo tempo — e, no caso de serviços financeiros, esse fator costuma ser regulatório.
O setor de criptoativos no Brasil vive hoje uma fase de transição. Até pouco tempo atrás, exchanges e plataformas que ofereciam compra, venda e custódia de cripto operavam em um ambiente sem supervisão específica de um órgão financeiro. Com a sanção da Lei 14.478/2022, conhecida como Marco Legal das Criptomoedas, e com a definição do Banco Central como regulador do setor, esse ambiente passou a ser organizado por regras formais, à semelhança do que já acontece com bancos e corretoras tradicionais.
Um segundo elemento importante é a convergência de exigências técnicas e de compliance. As instituições que oferecem cripto precisam atender a regras de prevenção à lavagem de dinheiro, de identificação de clientes, de rastreabilidade das transações e de segregação do patrimônio dos clientes em relação ao da própria empresa. Mudanças, atualizações ou pedidos formais do regulador nesses pontos podem obrigar as plataformas a interromper momentaneamente certos serviços enquanto ajustam sistemas, contratos com parceiros custodiantes e processos internos.
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O que diz a Lei 14.478 e o papel do Banco Central
Para entender o pano de fundo da suspensão, vale conhecer o que a Lei 14.478/2022 estabelece. O texto criou no país a figura da Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais (PSAV) — nome técnico para empresas que compram, vendem, custodiam, administram ou intermedeiam criptoativos de terceiros. Para funcionar, essas empresas precisam de autorização do órgão designado pelo Executivo, que, por decreto, foi o Banco Central, conforme a lei.
Na prática, isso coloca as plataformas de cripto em um novo patamar de responsabilidade. Elas passam a responder por regras parecidas com as de uma instituição financeira: capital mínimo, controles internos, governança, prevenção à lavagem de dinheiro e, principalmente, proteção do cliente final.
Para o usuário, essas regras são boas notícias no longo prazo — significam menos risco de perder dinheiro em caso de problemas na plataforma —, mas, na transição, é natural que haja ajustes operacionais que, momentaneamente, restringem serviços.
O Banco Central vem publicando consultas públicas e normativos para dar forma concreta a essas exigências, definindo, por exemplo, como deve ser feita a segregação dos ativos dos clientes e quais garantias a plataforma precisa oferecer. Cada nova etapa desse calendário pode gerar ondas de adaptação — e é nesse contexto que uma suspensão simultânea em duas grandes plataformas digitais faz sentido: elas podem estar respondendo, cada uma à sua maneira, ao mesmo marco regulatório.
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O que o usuário pode fazer agora
Enquanto a situação não se normaliza, o investidor afetado pode (e deve) adotar algumas atitudes práticas para proteger seu patrimônio e evitar decisões por impulso.
1. Verificar o saldo e guardar comprovantes. O primeiro passo é abrir o aplicativo, conferir a quantidade de cada criptoativo registrada na conta e salvar capturas de tela ou extratos do saldo atual. Isso serve como documentação em caso de qualquer divergência futura.
2. Ler os avisos oficiais dentro do próprio aplicativo. As duas plataformas vêm atualizando as informações nas telas de cripto e nas centrais de ajuda. Esse é o canal mais confiável para saber o que está suspenso, o que segue funcionando (por exemplo, compra e venda interna) e qual é a previsão de retomada.
3. Desconfiar de contatos que pedem senha, chave Pix ou códigos. Momentos de incerteza são aproveitados por golpistas. Nenhuma instituição regulada vai pedir, por telefone, WhatsApp ou e-mail, que o cliente "transfira as criptomoedas para uma conta segura" ou informe senhas e códigos de autenticação. Esse tipo de abordagem é fraude.
4. Avaliar o perfil de uso antes de migrar. Para quem usa cripto de forma recorrente — recebe pagamentos no exterior, por exemplo —, pode fazer sentido avaliar a abertura de conta em uma exchange especializada e autorizada a operar no país. Já para quem comprou um valor pequeno por curiosidade ou como experimento, pode ser mais prudente aguardar a normalização antes de qualquer movimentação, para evitar custos de transação desnecessários.
5. Entender que suspensão não é perda. Enquanto o saldo seguir registrado na conta e a instituição estiver regularmente supervisionada, o fato de não poder sacar hoje não equivale a ter perdido o investimento. A volatilidade do preço das criptomoedas continua existindo, mas isso é outro risco — não decorre da suspensão em si.
O que esperar daqui para frente
O movimento do Nubank e do Mercado Pago precisa ser lido dentro de um ciclo maior: o de maturidade regulatória do mercado de criptoativos no Brasil. A tendência estrutural é de mais regras, mais exigências de transparência e mais responsabilidade das plataformas sobre o dinheiro do cliente — o que, no limite, aproxima a cripto do padrão de proteção que já existe em produtos como fundos de investimento e contas bancárias.
No curto prazo, três cenários são possíveis. O primeiro é a retomada rápida dos serviços, assim que os ajustes técnicos ou de compliance forem concluídos. O segundo é a retomada parcial, com alguns tipos de criptoativos ou algumas operações permanecendo restritos por mais tempo. O terceiro, mais extremo, seria uma reformulação profunda da oferta de cripto nessas plataformas, com mudanças nos parceiros custodiantes, nas taxas e na forma como o produto é apresentado ao cliente.
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Seja qual for o desfecho, a mensagem para o usuário comum é clara: o mercado de cripto no Brasil está deixando de ser uma zona cinzenta e passando a conviver com fiscalização direta do Banco Central. Isso traz interrupções ocasionais, como a que afetou Nubank e Mercado Pago, mas também constrói, aos poucos, um ambiente em que o investidor sabe a quem recorrer e quais direitos tem quando algo dá errado.
Resumo prático e próximo passo
O que aconteceu, em poucas linhas: duas grandes plataformas digitais do país — Nubank e Mercado Pago — suspenderam, no mesmo dia, depósitos e saques de criptoativos. O saldo dos clientes, pelas informações até agora disponíveis, segue registrado nas contas, mas não pode ser movimentado para fora enquanto a trava estiver ativa. O cenário mais provável para essa coincidência é a adaptação ao Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022) e aos normativos do Banco Central, que vêm estruturando a regulação do setor.
Próximo passo para o leitor afetado: abrir o aplicativo, conferir o saldo em cripto, salvar o comprovante, ler o aviso oficial da instituição e, só depois disso, decidir se vai esperar a normalização ou avaliar outras plataformas autorizadas pelo Banco Central. Em nenhuma hipótese forneça senhas, códigos ou chaves a terceiros que ligarem oferecendo "solução" — esse é o golpe mais provável nas próximas semanas.
Referências
- Lei nº 14.478/2022 — Marco Legal dos Ativos Virtuais (sanção em 21/12/2022)
- Banco Central do Brasil — normativos e consultas públicas sobre prestadores de serviços de ativos virtuais (PSAV)
- Avisos oficiais publicados nas telas de criptoativos dos aplicativos Nubank e Mercado Pago
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