Piggy bank with coins and paper money

1% mais rico concentra 24% da renda no Brasil, aponta Oxfam

Estudo aponta que o 1% mais rico fica com 24% da renda e o 0,01% paga IR efetivo de 4,6%. Entenda o impacto no bolso de quem vive de salário.

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Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

Um novo levantamento sobre a distribuição de renda no Brasil trouxe dados que ajudam a explicar o aperto no bolso do trabalhador, do aposentado e das famílias de baixa renda. Segundo o relatório da Oxfam Brasil, o 1% mais rico do país concentra cerca de 24% de toda a renda nacional. E, dentro desse grupo, o estrato do 0,01% mais rico paga uma alíquota efetiva de Imposto de Renda de aproximadamente 4,6%. Para efeito de comparação, um trabalhador CLT que ganha pouco mais de R$ 3 mil por mês já cai na tabela do IR, conforme regras da Receita Federal.

O tema pode parecer distante do dia a dia de quem vive com salário mínimo, aposentadoria do INSS ou BPC/LOAS, mas não é. A forma como o país tributa renda, patrimônio e consumo define quanto sobra no fim do mês para o cidadão comum — e ajuda a explicar por que a conta do supermercado, do gás e da energia pesa tanto em quem ganha menos. A seguir, você vai entender o que o estudo revelou, por que existe essa diferença entre o topo e a base, como a chamada tributação regressiva afeta o consumidor de baixa renda e o que dá para fazer, no plano pessoal, para se proteger.

O que o estudo revelou sobre concentração de renda no Brasil

O levantamento cruza dados de renda declarada, indicadores de desigualdade e informações da Receita Federal para mostrar como a riqueza se distribui no país. O primeiro dado que salta aos olhos é a fatia do 1% mais rico: esse grupo, formado por cerca de 1,6 milhão de brasileiros adultos, fica com aproximadamente 24% da renda total gerada no país, segundo a Oxfam. Em termos práticos, isso significa que a cada R$ 100 de renda produzida, R$ 24 vão para esse 1% — e os outros R$ 76 são divididos entre os 99% restantes.

Esse padrão de concentração se mantém firme há décadas, o que ajuda a explicar por que o Brasil aparece de forma recorrente entre os países mais desiguais do mundo. Os dados do IBGE reforçam esse quadro: o índice de Gini, medida internacional de desigualdade que vai de 0 (igualdade total) a 1 (concentração total), permanece em patamar elevado, indicando que a diferença de rendimento per capita entre os extremos da sociedade brasileira segue muito acima da média internacional.

Outro elemento importante é o recorte por gênero e por raça. Segundo a Oxfam, a concentração de renda no topo não é neutra: os grupos que compõem o 1% mais rico são majoritariamente formados por homens brancos, enquanto mulheres e a população negra estão sobre-representadas nas faixas de menor rendimento. Isso ajuda a entender por que iniciativas de educação financeira precisam considerar os públicos que historicamente têm menos acesso a crédito de qualidade, previdência complementar e reserva de emergência.

Por que o 0,01% mais rico paga apenas 4,6% de IR efetivo

Este é o ponto que gerou mais repercussão — e onde é preciso ter cuidado com o número. A alíquota efetiva de 4,6% de Imposto de Renda não se refere ao 1% mais rico como um todo, e sim a um recorte mais estreito dentro dele: o 0,01% mais rico, ou seja, os brasileiros com os maiores rendimentos declarados do país, conforme o estudo da Oxfam. Estamos falando de um grupo bem menor, formado por famílias com patrimônio milionário ou bilionário.

A pergunta natural é: como alguém que ganha tanto pode pagar, proporcionalmente, menos imposto do que um professor, um enfermeiro ou um técnico administrativo? A resposta está na composição da renda. A tabela progressiva do IR — aquela em que a alíquota sobe conforme o salário aumenta — incide sobre rendimentos do trabalho, como salário CLT, pró-labore, aposentadoria e pensão, segundo a Receita Federal. Já a maior parte da renda do topo da pirâmide não vem de salário: vem de lucros e dividendos, que hoje são isentos de Imposto de Renda na pessoa física, e de aplicações financeiras com tributação exclusiva na fonte, geralmente em alíquotas menores do que as da tabela progressiva.

Ou seja: o assalariado tem imposto retido todo mês na folha, com pouca margem para planejamento. Já quem recebe a maior parte da renda como sócio de empresa consegue, dentro da lei atual, receber uma parcela relevante sem passar pela tabela progressiva. É essa combinação de regras que explica por que, no topo do topo, a alíquota efetiva chega a cerca de 4,6%, segundo o levantamento.

Estudos internacionais sobre milionários, como os publicados pelo UBS, também apontam que essa lógica se repete em várias economias: quanto maior o patrimônio, maior a fatia da renda que vem de investimentos e menor tende a ser a alíquota efetiva paga sobre o total. A diferença é que, em vários países desenvolvidos, lucros e dividendos são tributados — o que atenua a distorção.

Como a tributação regressiva afeta o bolso de quem ganha menos

Para entender por que esse debate importa para o trabalhador comum, é preciso olhar para o outro lado da moeda: a tributação sobre o consumo. No Brasil, uma parte grande da arrecadação vem de tributos que incidem sobre produtos e serviços — como ICMS, PIS, Cofins e IPI. Esses tributos estão embutidos no preço final da conta de luz, do botijão de gás, do pacote de arroz, do combustível e de praticamente tudo o que se compra no dia a dia.

O problema é que esse tipo de imposto é regressivo, ou seja, pesa mais em quem ganha menos. Uma família que recebe um salário mínimo gasta praticamente 100% da renda em consumo — e paga imposto embutido em cada compra. Já uma família de altíssima renda consome apenas uma fração do que ganha, e o restante vai para investimentos, que têm tributação mais leve. O resultado é que, em proporção da renda, o trabalhador de baixa renda acaba entregando ao fisco uma parcela maior do que a paga por quem está no topo da pirâmide, conforme aponta a Oxfam.

Esse desenho explica por que aumentos no preço do combustível, da energia ou dos alimentos essenciais têm um efeito relevante nos orçamentos mais apertados: além da inflação, o tributo embutido cresce em valor absoluto. E também ajuda a entender por que o aposentado do INSS, o beneficiário do BPC/LOAS e o trabalhador CLT de baixa renda relatam que "o dinheiro não fica" — porque, na prática, boa parte da renda escoa por meio de impostos indiretos que sequer aparecem no contracheque.

O que o trabalhador e o aposentado podem fazer diante desse cenário

Mudar a estrutura tributária do país é tarefa de longo prazo e depende do Congresso Nacional. Mas, no plano individual, existem passos práticos para reduzir o impacto dessa engrenagem no seu bolso — sem promessas mágicas.

1. Conheça sua alíquota efetiva. Muita gente olha só para a alíquota da tabela do IR e não percebe que, com deduções (dependentes, saúde, previdência), a alíquota efetiva costuma ser bem menor. Fazer a declaração com atenção — ou pelo modelo completo, quando compensa — pode devolver dinheiro para o seu bolso.

2. Use o crédito consignado como ferramenta de organização, não de consumo. Para aposentados e pensionistas do INSS, o consignado tem prazo máximo de 108 meses e margem total de 40% do benefício, sendo 5% reservados a cartão consignado ou cartão benefício. Se você tem dívidas caras (cartão de crédito rotativo, cheque especial), trocar por consignado costuma reduzir juros e liberar caixa no mês. Para o trabalhador CLT, o consignado privado vai até 96 meses, com margem de 35%.

3. Não caia em desinformação sobre benefícios. Um exemplo comum: circula por aí a ideia de que quem recebe BPC/LOAS não pode fazer empréstimo consignado. Isso é incorreto. Por lei, o BPC/LOAS pode ser usado como base para consignado. O que acontece atualmente é que, diante do alto volume de revisões e cessações desse benefício, as instituições autorizadas recuaram na oferta prática. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade junto aos bancos está reduzida no momento.

4. Construa uma reserva, mesmo que pequena. Guardar R$ 30 ou R$ 50 por mês em uma aplicação de baixo risco (Tesouro Selic, CDB de liquidez diária de banco sólido) é a forma mais direta de sair da lógica em que 100% da renda vira consumo tributado. Cada real que vai para reserva rende juros e passa a trabalhar por você.

5. Fique de olho na Reforma Tributária. As mudanças em curso podem alterar a forma como o consumo é tributado nos próximos anos, com impacto direto em produtos da cesta básica e serviços essenciais. Acompanhar o tema pelos canais oficiais (Receita Federal e Ministério da Fazenda) é a melhor forma de não ser pego de surpresa.

Conclusão: um retrato incômodo, mas útil

Os números do estudo são duros, mas úteis. Saber que o 1% mais rico concentra cerca de 24% da renda e que, dentro desse grupo, o 0,01% mais rico paga alíquota efetiva de Imposto de Renda de aproximadamente 4,6%, segundo a Oxfam, não é apenas uma curiosidade estatística — é uma explicação concreta para o aperto que a maior parte da população sente no fim do mês. Enquanto a estrutura tributária brasileira continuar apoiada em impostos sobre consumo e leve na tributação de lucros e dividendos, o peso relativo do fisco tende a continuar recaindo sobre quem menos pode pagar.

No plano individual, o caminho é o de sempre: organizar as dívidas, aproveitar instrumentos legítimos como o consignado do INSS ou do CLT dentro dos limites regulatórios, construir reserva e não acreditar em atalhos. No plano coletivo, entender esses dados é o primeiro passo para cobrar, com informação, as mudanças que podem realmente aliviar o bolso do trabalhador brasileiro.


Referências

  • Relatório Oxfam Brasil 2026 — concentração de renda e alíquota efetiva do 0,01% mais rico.
  • IBGE — rendimento per capita e índice de Gini 2024.
  • Receita Federal — regras de incidência do IR, isenção de lucros e dividendos na pessoa física e tributação exclusiva na fonte de aplicações financeiras.
  • UBS — estudos sobre padrão internacional de tributação de milionários.

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