Afastamentos do INSS por vício em apostas sobem 441% em 2 anos
Casos de ludopatia reconhecidos como incapacidade para o trabalho saltaram de 67 em 2023 para 363 em 2025, após a legalização das bets.
Tatiana Botelho
📖 11 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Afastamentos do INSS por transtorno do jogo passaram de 67 em 2023 para 363 em 2025, alta de 441%.
- O período coincide com a sanção da Lei nº 14.790/2023, que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil.
- A ludopatia é reconhecida como doença (CID-11) e pode gerar auxílio por incapacidade temporária após perícia médica federal.
- Tratamento gratuito está disponível no SUS, especialmente nos CAPS, e a lei das bets prevê autoexclusão nas plataformas autorizadas.
A popularização das apostas online no Brasil começa a aparecer nas estatísticas de saúde e renda do trabalhador. Entre 2023 e 2025, o número de afastamentos concedidos pelo INSS com diagnóstico ligado ao vício em apostas — o chamado transtorno do jogo, ou ludopatia — cresceu 441%, saltando de 67 benefícios em 2023 para 363 em 2025. O período coincide com a regulamentação das bets, sancionada em dezembro de 2023, que abriu caminho para a oferta legal e massiva de sites de apostas no país.
O dado é tratado como alerta pelas áreas técnicas que acompanham benefícios por incapacidade, porque indica que o problema deixou de ser estatística de saúde pública e passou a aparecer no balcão da perícia médica, com trabalhadores perdendo a capacidade de exercer suas funções por causa do jogo. Mais do que uma questão comportamental, o vício em apostas vem destruindo salários, levando ao endividamento e, agora, afastando pessoas do mercado de trabalho formal.
O que este guia cobre
Se você é CLT, aposentado, pensionista ou vive com alguém que começou a apostar com frequência, este guia reúne o que o cidadão precisa saber: o que dizem os números oficiais, por que o reconhecimento do vício como doença muda tudo na vida financeira, como funciona o afastamento pelo INSS nesses casos, quais os sinais de alerta e, principalmente, como proteger o orçamento da família quando o jogo vira doença.
Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.
Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
A proposta aqui não é moralizar o comportamento de quem aposta, mas mostrar, com dados oficiais e regras vigentes, o tamanho do problema e os caminhos de proteção que a legislação brasileira já oferece.
O que os números do INSS revelam sobre o vício em apostas
Os registros administrativos do INSS passaram a diferenciar os afastamentos concedidos com fundamento no diagnóstico de transtorno do jogo (CID-11), categoria em que se enquadra a ludopatia. Com base nesses registros, o cenário observado nos últimos anos é o seguinte:
- 2023: 67 benefícios por incapacidade temporária concedidos com esse diagnóstico;
- 2025: 363 benefícios concedidos pelo mesmo motivo;
- Crescimento acumulado em dois anos: 441%.
É importante entender o contexto desses números. Eles não representam o universo total de brasileiros com problemas relacionados ao jogo — representam apenas quem chegou ao INSS, passou por perícia médica e teve a incapacidade reconhecida. Ou seja, são casos em que o quadro já estava grave o suficiente para impedir o trabalho. A quantidade de pessoas em sofrimento sem buscar auxílio tende a ser muito maior.
Por que a comparação começa em 2023
A escolha de 2023 como ponto de partida não é aleatória. Até dezembro daquele ano, as apostas de quota fixa (bets) operavam no Brasil em uma zona cinzenta: eram previstas em lei desde 2018, mas sem regulamentação. A sanção da Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023, estabeleceu o marco legal da modalidade, abriu caminho para operadoras autorizadas e inaugurou uma avalanche de publicidade, patrocínios e aplicativos no mercado brasileiro.
O salto de 67 para 363 casos entre 2023 e 2025, portanto, ocorre justamente no período de popularização e normalização das apostas online, o que ajuda a explicar a velocidade do crescimento.
Perfil preliminar dos afastados
Ainda que o INSS não divulgue estatísticas detalhadas por profissão e faixa etária em relação à ludopatia, o cruzamento com os dados gerais de benefícios por incapacidade mostra concentração entre homens em idade produtiva, com vínculo formal ativo e carteira assinada. É um perfil que ajuda a dimensionar o impacto econômico: trabalhador que, estando doente, deixa de produzir, deixa de receber integralmente e passa a depender do benefício.
O que é ludopatia e por que ela é reconhecida como doença
Ludopatia, ou transtorno do jogo, é um quadro clínico classificado pela Organização Mundial da Saúde na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), no capítulo dos transtornos por comportamentos aditivos. O ponto central é a perda de controle sobre o ato de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e profissionais evidentes.
Alguns sinais frequentemente associados ao quadro:
- Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma excitação;
- Tentativas repetidas e malsucedidas de parar ou reduzir as apostas;
- Inquietação ou irritabilidade quando tenta diminuir o jogo;
- Apostar para fugir de problemas ou aliviar sentimentos como tristeza e ansiedade;
- Mentir para familiares sobre o quanto gastou ou perdeu;
- Pedir dinheiro emprestado para apostar ou cobrir perdas;
- Comprometimento do trabalho, do estudo ou das relações pessoais em razão do jogo.
Por estar na CID, a ludopatia é tratada como qualquer outra doença incapacitante do ponto de vista previdenciário: quando o perito médico do INSS entende que o quadro impede o segurado de exercer suas funções, o afastamento é concedido.
Diferença entre jogar ocasionalmente e desenvolver o transtorno
Nem todo apostador desenvolve ludopatia. O diagnóstico exige um padrão persistente, recorrente e com prejuízo funcional, geralmente observado por período mínimo definido pelo profissional de saúde. O que preocupa os especialistas é que a facilidade de acesso — bets no celular, pagamentos instantâneos, propagandas constantes — encurta o caminho entre a aposta recreativa e o comportamento compulsivo.
A regulamentação das bets e o impacto na saúde do trabalhador
A Lei nº 14.790/2023 fixou as regras do setor, incluindo a necessidade de autorização federal para operar, exigência de medidas de jogo responsável, limites de publicidade e tributação específica. Na prática, porém, a entrada em vigor da regulamentação consolidou um mercado que já vinha crescendo de forma acelerada desde a pandemia.
Alguns elementos ajudam a explicar por que o aumento dos afastamentos do INSS acompanhou a legalização:
- Hiperexposição publicitária: a presença das bets em transmissões esportivas, redes sociais e estádios tornou o produto onipresente;
- Barreira de entrada quase zero: depósitos de poucos reais, cadastro rápido e saque via Pix instantâneo;
- Design dos aplicativos: mecânicas de recompensa variável, próprias dos cassinos, que estimulam a continuidade do jogo;
- Normalização cultural: a aposta passou a ser apresentada como forma legítima e corriqueira de "ganhar uma renda extra".
O resultado é um ambiente em que o risco de desenvolvimento do transtorno aumenta — e, com ele, a demanda por tratamento e por afastamento do trabalho.
Como funciona o afastamento pelo INSS por vício em apostas
Quando o quadro de ludopatia atinge grau que impede o trabalho, o segurado pode solicitar o auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença). Vale para trabalhadores com carteira assinada, contribuintes individuais, facultativos e domésticos, desde que mantidas as condições previstas em lei.
Requisitos básicos
Para ter direito ao benefício, em regra, o segurado precisa cumprir simultaneamente:
- Qualidade de segurado no momento do pedido;
- Carência mínima de 12 contribuições mensais (dispensada em alguns casos específicos previstos em lei);
- Incapacidade comprovada por perícia médica federal, com previsão de recuperação;
- Para o empregado CLT, afastamento superior a 15 dias consecutivos do trabalho em razão da mesma doença — os 15 primeiros dias são pagos pelo empregador.
Passo a passo do pedido
- Agendar o requerimento pelo aplicativo ou site Meu INSS, ou pelo telefone 135;
- Anexar laudos, exames, relatórios psiquiátricos e psicológicos que descrevam o diagnóstico de transtorno do jogo e o impacto na capacidade laborativa;
- Comparecer à perícia médica federal na data agendada;
- Aguardar a decisão administrativa — se concedido, o benefício é pago enquanto durar a incapacidade;
- Em caso de indeferimento, é possível apresentar recurso administrativo à Junta de Recursos e, em última instância, discutir o pedido na Justiça Federal.
Valor do benefício
O valor do auxílio por incapacidade temporária é calculado conforme as regras previdenciárias vigentes, considerando a média dos salários de contribuição do segurado, respeitado o teto do INSS e o piso de um salário mínimo. Para o CLT, o pagamento substitui a remuneração a partir do 16º dia de afastamento.
Impactos financeiros do vício em apostas na vida do segurado
Impactos financeiros do vício em apostas
Os 441% de aumento nos afastamentos são apenas a face mais visível de um problema que, antes de chegar à perícia médica, já destruiu patrimônio e endividou famílias. Entender esses impactos é parte da proteção.
Erosão da renda mensal
Quem desenvolve o padrão compulsivo tende a comprometer parcelas crescentes do salário com apostas. É comum o apostador recorrer ao cheque especial, cartão de crédito rotativo e empréstimo pessoal para cobrir perdas — justamente as linhas de crédito mais caras do mercado.
Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.
Comprometimento do crédito futuro
A inadimplência gerada pelo uso excessivo dessas linhas provoca negativação em cadastros de proteção ao crédito, o que afeta a capacidade de contratar financiamentos, alugar imóveis e até conseguir determinados empregos.
Perda de renda durante o afastamento
Mesmo com o benefício do INSS, o segurado afastado em geral recebe valor inferior ao salário integral, especialmente nos primeiros meses, porque o cálculo considera a média dos salários de contribuição e respeita o teto previdenciário. Para quem já estava endividado por causa das apostas, a redução de renda agrava o quadro financeiro.
Impacto sobre dependentes
Quando o segurado é o principal provedor da casa, o vício compromete a renda familiar como um todo. Contas básicas — moradia, alimentação, escola das crianças — passam a competir com os valores destinados ao jogo.
Como se proteger e proteger quem está perto
A notícia positiva é que, uma vez reconhecida como doença, a ludopatia tem tratamento disponível pelo SUS e caminhos legais de proteção financeira. Alguns passos práticos:
- Buscar atendimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo. Os CAPS oferecem acompanhamento multidisciplinar gratuito para transtornos relacionados ao uso de substâncias e a comportamentos aditivos, incluindo o jogo;
- Procurar grupos de apoio especializados em jogadores compulsivos, que funcionam em várias cidades do país;
- Pedir o autoexcluir nas plataformas de apostas autorizadas: a regulamentação prevê que o apostador pode solicitar bloqueio voluntário;
- Reorganizar o orçamento familiar com a ajuda de um parente de confiança, para que o jogador não administre sozinho o dinheiro no período de tratamento;
- Renegociar dívidas por meio de canais oficiais, priorizando a quitação do crédito mais caro;
- Avaliar o afastamento do trabalho, com apoio médico, quando a continuidade das atividades estiver comprometida — é para isso que o auxílio por incapacidade temporária existe.
Papel da família
A família costuma perceber antes do próprio apostador que algo está fora de controle. Observar mudanças de comportamento — isolamento, irritabilidade, uso excessivo do celular, pedidos recorrentes de dinheiro emprestado, desaparecimento de valores em casa — é fundamental para intervir cedo.
Alerta sobre empréstimos para "recuperar perdas"
Um erro comum e perigoso é contratar novos empréstimos para "cobrir" o rombo das apostas. A lógica do transtorno leva o apostador a usar o dinheiro novo em novas apostas, aprofundando a dívida. Qualquer renegociação ou crédito deve ser feito com acompanhamento de terceiros e, preferencialmente, após o início do tratamento.
Conclusão
O salto de 67 para 363 afastamentos por vício em apostas entre 2023 e 2025, equivalente a 441% em dois anos, é um retrato claro de que a regulamentação das bets veio acompanhada de um custo humano e financeiro que agora aparece nas estatísticas oficiais. O cidadão informado pode se antecipar.
Pontos essenciais para levar deste guia:
- A ludopatia é doença reconhecida (CID-11) e pode gerar afastamento pelo INSS quando incapacita para o trabalho;
- O benefício aplicável, em regra, é o auxílio por incapacidade temporária, com perícia médica federal;
- A Lei nº 14.790/2023 regulamentou as apostas no Brasil e prevê medidas de jogo responsável, incluindo a autoexclusão;
- O impacto financeiro do vício começa muito antes do afastamento, destruindo renda e crédito;
- Tratamento gratuito está disponível no SUS, especialmente nos CAPS, e deve ser buscado o quanto antes.
O próximo passo prático, se você ou alguém da sua família apresenta sinais de perda de controle sobre as apostas, é agendar atendimento em uma unidade básica de saúde ou em um CAPS e, se houver comprometimento da capacidade de trabalhar, iniciar o pedido de perícia pelo Meu INSS ou pelo telefone 135. Quanto mais cedo o problema é tratado como o que é — uma doença —, menores os danos à renda, ao emprego e à vida familiar.
Perguntas frequentes
Quem recebe auxílio por incapacidade temporária por ludopatia pode ser demitido?
Durante o período de afastamento pelo INSS, o contrato de trabalho do empregado CLT fica suspenso, e, em regra, ele não pode ser demitido sem justa causa enquanto estiver recebendo o benefício. Após a alta médica, o retorno ao trabalho segue as regras gerais da legislação trabalhista.
O vício em apostas pode ser considerado doença ocupacional?
Como regra, não. A ludopatia é classificada como transtorno de comportamento aditivo (CID-11) e não decorre do ambiente de trabalho. Por isso, costuma gerar auxílio por incapacidade temporária comum, e não acidentário. Casos específicos devem ser analisados individualmente por perito e por advogado previdenciário.
Aposentados e pensionistas também podem desenvolver ludopatia?
Sim. Embora os afastamentos registrados pelo INSS envolvam segurados em atividade, aposentados e pensionistas também estão expostos ao vício, inclusive porque recebem renda mensal fixa que pode ser rapidamente consumida em plataformas de apostas. Para esse público, o cuidado com o uso do crédito e com o controle do orçamento é especialmente importante.
Perder dinheiro em apostas dá direito a algum ressarcimento?
Não. A perda financeira em apostas legalmente autorizadas é risco assumido pelo apostador. O que a lei garante é a existência de medidas de jogo responsável, canais de autoexclusão e obrigações das operadoras autorizadas. Prejuízos sofridos em sites não autorizados, por sua vez, são de recuperação ainda mais difícil, porque essas plataformas operam fora da regulamentação brasileira.
É possível pedir afastamento do INSS logo no início do problema?
O afastamento só é concedido quando a perícia médica federal reconhece que a incapacidade para o trabalho está instalada. Em quadros iniciais, o caminho correto é buscar tratamento clínico — por meio do SUS, convênio ou atendimento particular — e, se a doença evoluir a ponto de impedir o exercício das atividades, aí sim requerer o benefício.
Referências
- Ministério do Trabalho / INSS — dados de auxílio por incapacidade temporária com CID de transtorno do jogo (2023–2025)
- INSS — regras do auxílio por incapacidade temporária (Lei nº 8.213/1991 e normativos vigentes)
- Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023 — regulamentação das apostas de quota fixa (bets)
- Organização Mundial da Saúde — Classificação Internacional de Doenças (CID-11), transtorno do jogo
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.
Leia também em Vida Financeira
Ver todos →Pausar a carreira: o custo invisível na aposentadoria da mulher
Anos fora do mercado reduzem benefício do INSS, poupança e patrimônio. Veja como medir o impacto e se proteger antes, durante e depois da pausa.
Tatiana Botelho
07 de out. de 2026
Ministro do TST alerta para impacto das bets no trabalho
Ministro do TST associa bets a endividamento de famílias vulneráveis, ludopatia e queda de produtividade no trabalho. Entenda o alerta e os cuidados.
Tatiana Botelho
06 de out. de 2026
Dia das Crianças: brinquedos sobem 7,1% em 2026, diz CNC
Brinquedos ficaram 7,1% mais caros para o Dia das Crianças 2026, segundo a CNC. Veja como presentear sem comprometer o orçamento da família.
Tatiana Botelho
06 de out. de 2026