Apostas em bets elevam inadimplência em 40%, diz Sicredi
Levantamento de 2025 mostra que brasileiros que gastaram com apostas online atrasam mais contas e comprometem renda essencial da família
Tatiana Botelho
📖 12 min de leitura
As apostas online, popularmente chamadas de bets, deixaram de ser apenas uma discussão de comportamento e passaram a aparecer, com números concretos, dentro dos indicadores de crédito do sistema financeiro. Um levantamento realizado pelo Sicredi em 2025 mostrou que os clientes que registraram gastos com casas de apostas apresentaram inadimplência 40% maior do que aqueles que não movimentaram dinheiro nesse tipo de plataforma. O dado é relevante porque parte de uma instituição financeira que enxerga, na prática, o que acontece com o orçamento das famílias depois que o Pix é enviado à bet — e o que fica registrado é atraso de conta, dívida acumulada e nome sujo.
Neste guia, você vai entender o que esse número significa na vida real do trabalhador CLT, do aposentado do INSS e da família de baixa renda, por que apostar aumenta tanto o risco de calote, quais são os sinais de que as bets estão engolindo o seu salário e o que fazer para reorganizar as contas antes que a dívida vire uma bola de neve difícil de parar.
O que o levantamento do Sicredi mostrou sobre bets e inadimplência
O estudo divulgado pelo Sicredi em 2025 comparou o comportamento financeiro de dois grupos de clientes: os que tiveram registro de transações com casas de apostas online e os que não tiveram nenhum gasto dessa natureza. O resultado principal foi claro — o grupo que apostou apresentou um índice de inadimplência 40% superior ao grupo que não apostou. Em outras palavras, para cada 10 pessoas que atrasam contas entre quem não usa bets, existem cerca de 14 atrasando entre quem usa.
Esse tipo de comparação é importante porque foge do debate moral sobre apostas e coloca a discussão em outro terreno: o da capacidade de pagamento. Quando uma instituição financeira observa, dentro da própria base de correntistas, que um comportamento específico está associado a mais atrasos de boletos, cartão de crédito e financiamentos, isso vira um sinal de alerta para quem administra o orçamento familiar. O dinheiro que sai em apostas não é dinheiro sobrando — na maioria dos casos, é dinheiro que faria falta na conta de luz, no supermercado ou na parcela de um empréstimo.
Outro ponto que merece atenção é a velocidade com que o fenômeno se espalhou. As bets se popularizaram principalmente pela facilidade de acesso: bastam um celular, uma conta digital e o Pix para depositar em segundos. Essa fricção baixa faz com que a decisão de apostar seja quase impulsiva, muito diferente de sacar dinheiro em uma agência ou preencher um formulário. E é exatamente essa facilidade que torna o produto perigoso para quem já vive com o orçamento no limite.
Por que apostar em bets aumenta o risco de ficar inadimplente
A relação entre apostas e inadimplência não é coincidência, é matemática comportamental. Existem pelo menos quatro mecanismos que explicam por que quem entra no ciclo das bets tem muito mais chance de atrasar contas.
O primeiro é o desvio de renda essencial. O dinheiro que vai para a aposta normalmente sai da mesma conta em que caem o salário, o benefício do INSS ou o Bolsa Família. Não existe uma "conta separada" de sobras. Assim, todo real apostado é um real que deixa de estar disponível para pagar aluguel, mercado, remédio ou parcela de crédito.
O segundo é o efeito psicológico da perda. Quando o apostador perde, a reação mais comum não é parar — é tentar recuperar o valor perdido com uma nova aposta, quase sempre de valor maior. Esse comportamento, conhecido como "perseguir a perda", é o que transforma um gasto pequeno em um rombo grande em poucas semanas. O orçamento familiar não estava planejado para absorver essa perda, e a conta chega no vencimento sem dinheiro para pagar.
O terceiro mecanismo é o uso do crédito para apostar. Quando o saldo em conta acaba, muitos apostadores recorrem ao limite do cartão, ao cheque especial ou até a empréstimos pessoais para continuar tentando. Aí a dívida deixa de ser apenas o valor apostado e passa a incluir os juros — que, no rotativo do cartão e no cheque especial, estão entre os mais altos do mercado. É esse acúmulo que aparece, meses depois, como inadimplência nos registros do Serasa e do SPC.
O quarto ponto é a ilusão da recompensa. As plataformas de apostas são desenhadas para dar ganhos pequenos e frequentes no começo, criando a sensação de que é possível "tirar um extra" no fim do mês. Na prática, o resultado agregado dos apostadores é negativo, e o que parecia renda extra vira compromisso financeiro extra. É por isso que o dado do Sicredi faz sentido: quem aposta, em média, atrasa mais.
Como as bets afetam o orçamento de trabalhadores CLT e aposentados do INSS
O impacto das apostas online é especialmente severo em dois grupos: o trabalhador com carteira assinada e o aposentado ou pensionista do INSS. Ambos vivem com renda fixa mensal, o que significa que qualquer gasto não planejado se transforma imediatamente em compromisso com o mês seguinte.
Para o trabalhador CLT, o salário costuma ter destino praticamente definido antes mesmo de cair na conta: aluguel, alimentação, transporte, contas de consumo, escola dos filhos e, muitas vezes, parcelas de financiamento ou cartão. Quando parte desse dinheiro é redirecionada para apostas, o buraco aparece justamente nas contas fixas. O padrão que se repete é o mesmo: primeiro atrasa o cartão de crédito, depois entra em cheque especial, em seguida vem a negativação no Serasa e, por fim, a dificuldade de conseguir novos créditos — inclusive os de juros mais baixos, como o consignado.
Já para o aposentado e pensionista do INSS, o problema é ainda mais delicado. A renda do benefício previdenciário é o principal pilar de sustento da família em muitos lares brasileiros, e não raro é a única entrada financeira estável da casa. Quando o beneficiário começa a apostar, o risco não é apenas comprometer seu próprio consumo — é comprometer a renda de que outras pessoas dependem, como cônjuge, filhos e netos. Além disso, o aposentado é um alvo constante de ofertas de crédito, e a combinação entre acesso fácil ao crédito e comportamento de aposta é justamente o que aparece nos números do Sicredi como inadimplência mais alta.
A família de baixa renda, seja de trabalhador informal ou de beneficiário de programas sociais, sofre um efeito ainda mais imediato. Como não há colchão de reserva, uma sequência de apostas perdidas em um único fim de semana pode significar não ter dinheiro para o almoço da semana seguinte. E, diferente de outras despesas, essa perda não deixa nada de valor em troca — não é comida, não é remédio, não é conserto de casa. É saldo negativo puro.
Sinais de alerta: quando as apostas estão comprometendo sua vida financeira
Muitas pessoas demoram a reconhecer que as apostas se tornaram um problema financeiro porque começam com valores baixos e com a sensação de estar apenas se distraindo. Mas existem sinais concretos que indicam que a situação já saiu do controle e que o risco de virar mais um número na estatística de inadimplência é real.
O primeiro sinal é usar dinheiro destinado a contas fixas para apostar, mesmo que com a promessa mental de "repor depois". Quando o orçamento passa a competir com a bet, a bet quase sempre vence — e a conta fica em atraso.
O segundo sinal é apostar com dinheiro emprestado, seja do limite do cartão, do cheque especial, de um empréstimo pessoal ou até de familiares. Esse é o ponto em que o gasto deixa de ser apenas gasto e vira dívida com juros, o que acelera muito o caminho para a inadimplência.
O terceiro sinal é a frequência crescente das apostas. Alguém que apostava esporadicamente e passa a apostar diariamente, ou várias vezes por dia, já está em um padrão comportamental que preocupa. A busca pela recuperação da perda anterior é o motor invisível desse aumento.
O quarto sinal é esconder as apostas de familiares, apagar o histórico do aplicativo ou usar contas paralelas para movimentar o dinheiro. O sigilo é um forte indicador de que a própria pessoa reconhece, no fundo, que o comportamento está fora do controle.
O quinto sinal é começar a receber cobranças, ligações de bancos ou notificações de negativação. Nesse ponto, o problema já saiu da esfera pessoal e entrou nos registros oficiais de crédito — e esse é o momento em que agir rápido faz muita diferença para não ver a dívida crescer com juros e multas.
Se você se identificou com dois ou mais desses sinais, o passo seguinte precisa ser uma pausa completa nas apostas e uma reorganização do orçamento, mesmo que doa admitir. Quanto mais cedo o freio é puxado, menor é o estrago no CPF e no bolso.
Como sair do ciclo entre apostas e dívidas
Quebrar o ciclo entre bets e inadimplência exige duas frentes de ação simultâneas: parar de alimentar o problema e começar a resolver a dívida que já existe. Uma coisa sem a outra não funciona.
O primeiro passo é bloquear o acesso às plataformas de apostas. Isso pode incluir excluir os aplicativos do celular, cancelar cartões cadastrados nas plataformas, tirar chaves Pix vinculadas a essas contas e, em casos mais graves, pedir a autoexclusão nos sites de apostas — recurso que muitas plataformas regulamentadas são obrigadas a oferecer. Reduzir a facilidade de acesso é fundamental porque a impulsividade é o principal combustível do problema.
O segundo passo é abrir todas as dívidas em uma lista única: cartão, cheque especial, empréstimos, boletos atrasados, financiamentos. Anote credor, valor total, taxa de juros e data de vencimento. Sem esse diagnóstico, qualquer tentativa de renegociação vira tiro no escuro.
O terceiro passo é priorizar as dívidas mais caras. Rotativo do cartão e cheque especial costumam ter as maiores taxas de juros do mercado, então concentrar esforços em quitá-los ou trocá-los por linhas mais baratas é a decisão que mais economiza dinheiro. Aposentados e pensionistas do INSS, por exemplo, podem avaliar linhas específicas para o seu perfil, sempre observando taxa de juros total (CET), valor da parcela e prazo — sem se comprometer com valores que a renda não sustente.
O quarto passo é buscar apoio. A ansiedade financeira gerada por dívidas com apostas costuma vir acompanhada de vergonha, e essa vergonha atrasa a busca por ajuda. Conversar com familiares, procurar núcleos de apoio ao consumidor endividado, como o Procon, e utilizar plataformas oficiais de renegociação de dívidas são caminhos concretos. Em situações em que o comportamento de apostar já é compulsivo, o acompanhamento com profissional de saúde mental é parte da solução — dívida e comportamento andam juntos.
O quinto passo é reconstruir o hábito financeiro. Isso significa criar um orçamento simples, com receitas e despesas separadas por categoria, e começar a formar uma reserva mínima, mesmo que seja de valor pequeno no início. A reserva é o que impede que uma emergência futura vire novo empréstimo caro.
Como proteger a renda de salário, INSS e benefícios sociais
Mais do que sair da dívida, o objetivo de médio prazo precisa ser blindar a renda essencial da família contra novos episódios. Algumas medidas práticas ajudam bastante nesse processo.
Separar o dinheiro por finalidade é uma das estratégias mais eficazes. Ter uma conta para receber o salário ou o benefício do INSS, transferir imediatamente o valor das contas fixas para outra conta destinada apenas ao pagamento de boletos e manter o valor da alimentação em uma terceira reserva ajuda a criar barreiras físicas contra o impulso de apostar. O que não está visível na conta principal não é gasto por impulso.
Evitar cadastrar cartão de crédito em qualquer plataforma de aposta é outra medida importante. O crédito transforma um gasto de R$ 50 em uma dívida de R$ 50 mais juros altíssimos por meses. Se a decisão for continuar apostando de forma recreativa — o que não é recomendado para quem tem histórico de inadimplência — que seja com valor pequeno, definido antes, pago à vista via saldo em conta, e nunca com dinheiro que teria outro destino.
Monitorar o CPF regularmente também é essencial. Serviços gratuitos de consulta permitem acompanhar se há negativações, dívidas em aberto ou consultas suspeitas. Descobrir um problema no início é muito diferente de descobrir depois que ele bloqueou o acesso a um financiamento importante.
Por fim, é importante lembrar que renda de aposentadoria, pensão e benefícios previdenciários têm proteções previstas em lei quanto a descontos e cobrança, conforme regras do INSS. Antes de aceitar qualquer proposta de crédito, empréstimo ou renegociação apresentada por telefone, mensagem ou redes sociais, o correto é confirmar as condições diretamente nos canais oficiais da instituição financeira e conferir a existência do produto junto ao Banco Central. Golpes envolvendo falsas ofertas de crédito e falsas negociações de dívida cresceram junto com o endividamento das famílias, e cair em um deles é o pior desfecho possível para quem já está tentando se organizar.
Conclusão: um número que precisa virar decisão
O indicador do Sicredi — inadimplência 40% maior entre quem apostou em 2025 — é mais do que uma estatística curiosa. É um retrato do que está acontecendo dentro de milhões de contas bancárias brasileiras: salário que entra e sai rápido, cartão que estoura, boleto que atrasa e nome que vai para o cadastro de inadimplentes. O caminho para reverter isso passa por três decisões que só o próprio consumidor pode tomar: parar de apostar, encarar de frente as dívidas que já existem e reconstruir um orçamento que caiba dentro da renda real da família. Se você está nesse ciclo, o próximo passo prático é hoje mesmo listar todas as suas contas em atraso e definir uma delas para renegociar esta semana. Um passo pequeno feito agora vale mais do que um plano perfeito que nunca começa.
Referências
- Sicredi — Levantamento sobre inadimplência de clientes com gastos em casas de apostas online (2025)
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.
Leia também em Vida Financeira
Ver todos →Pix Automático em conta-salário e boleto híbrido: o que muda
BC aprova Pix Automático em conta-salário, boleto com QR Code e novas regras antifraude no DICT. Veja o cronograma e como se preparar.
Tatiana Botelho
18 de set. de 2026
MP das bets: o que muda no seu bolso em 2026
Governo estuda MP para restringir bets e cassinos online. Veja o possível impacto no orçamento da família e o que fazer se já está endividado com apostas.
Tatiana Botelho
18 de set. de 2026
Greve da Caixa trava Move Brasil e atrasa financiamento imobiliário
Greve dos bancários da Caixa afeta liberação do Move Brasil e contratos de financiamento imobiliário. Veja o que continua funcionando e como se proteger.
Tatiana Botelho
17 de set. de 2026