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Desenrola 3.0: os bancos que mais ganham, diz Goldman Sachs

Análise da casa global aponta que grandes bancos privados devem ser os mais beneficiados pela nova rodada de renegociação de dívidas do governo federal.

Tatiana Botelho

📖 10 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Relatório do Goldman Sachs aponta grandes bancos privados brasileiros como principais beneficiados pelo Desenrola 3.0, pela alta exposição a cartão de crédito e crédito pessoal.
  • O programa mantém a lógica de leilão reverso, em que credores disputam entre si oferecendo o maior desconto para receber primeiro.
  • Bancos públicos tendem a ficar em posição mais neutra, por concentrarem crédito consignado e habitacional, linhas com inadimplência estruturalmente mais baixa.
  • Para o consumidor, a orientação é conferir o valor final renegociado, desconfiar de intermediários que cobram taxa e priorizar dívidas com juros mais altos.

O governo federal apresentou uma nova rodada do programa de renegociação de dívidas, chamada de Desenrola 3.0. É a terceira versão de uma iniciativa que, desde 2023, tenta atacar o problema da inadimplência do consumidor brasileiro por meio de descontos negociados com credores e reperfilamento de parcelas. A novidade da vez chamou a atenção não só de quem está com o nome sujo, mas também de investidores: um relatório recente do banco de investimentos Goldman Sachs listou quais instituições financeiras devem sair ganhando com o desenho do novo programa.

O ponto sensível é que renegociar dívida velha, em tese, é uma operação ruim para o credor — afinal, ele aceita receber menos do que a dívida somava. Só que, na prática, boa parte dessa carteira já estava contabilizada como perda pelos bancos. Recuperar qualquer fração dela em dinheiro novo tende a ser positivo para o balanço.

É esse cálculo, feito linha a linha, que a análise do Goldman colocou em números e que este texto traduz para quem quer entender o efeito prático do Desenrola 3.0 — tanto no seu CPF quanto no lucro dos maiores bancos do país.

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O que é o Desenrola 3.0 e o que muda em relação às rodadas anteriores

O Desenrola nasceu em 2023 como uma resposta emergencial ao endividamento das famílias. A primeira rodada mirou dívidas de valor mais baixo, com o Tesouro Nacional dando uma espécie de garantia aos bancos para viabilizar descontos agressivos. A segunda rodada ampliou o público e ajustou regras operacionais. O 3.0 é apresentado pelo governo federal como um passo mais estrutural: em vez de uma janela emergencial de poucos meses, a proposta é criar um mecanismo permanente de renegociação, com regras estáveis para credores e devedores.

As mudanças anunciadas incluem. O que já se sabe é que o programa mantém a lógica de leilão reverso — o mecanismo em que os credores disputam entre si oferecendo o maior desconto possível para ter seu passivo pago primeiro. Essa engrenagem é o que faz o Desenrola funcionar economicamente e é também o que explica por que alguns bancos são mais beneficiados do que outros.

Do ponto de vista do consumidor endividado, o objetivo continua o mesmo: sair do CPF negativado, voltar a ter acesso a crédito e recompor o orçamento sem carregar para sempre uma parcela impagável. Do ponto de vista do sistema financeiro, o objetivo é limpar carteiras antigas, liberar capital regulatório e reduzir provisões — dinheiro que os bancos são obrigados a guardar para cobrir dívidas que provavelmente não serão pagas.

Como funciona o leilão reverso, a engrenagem central do programa

Entender o leilão reverso é fundamental para entender por que o Desenrola 3.0 mexe com o resultado dos bancos. Na dinâmica tradicional, o devedor precisa negociar dívida por dívida, banco por banco, sem clareza sobre qual credor topa o desconto mais fundo. No leilão reverso, é o contrário: o devedor entra numa plataforma única, todas as suas dívidas são listadas, e os credores oferecem lances de desconto. Quem oferece o maior abatimento é pago primeiro com os recursos disponíveis do consumidor.

Esse desenho cria uma pressão competitiva entre os credores. Um banco que se recusa a oferecer desconto corre o risco de não receber nada, enquanto o concorrente que aceita um corte maior recebe imediatamente, em dinheiro.

Do lado do consumidor, a vantagem é obter descontos que raramente conseguiria em uma negociação individual.

Do lado do sistema financeiro, o efeito prático é acelerar a monetização de créditos que, sem o programa, ficariam anos parados em cobrança judicial ou seriam vendidos por preço baixíssimo a empresas de recuperação.

A análise citada pelo Goldman Sachs se apoia justamente nessa mecânica: quanto maior o estoque de dívida vencida e provisionada de um banco, maior o potencial de ganho quando parte dessa carteira volta a gerar caixa via Desenrola 3.0.

Quais dívidas entram no Desenrola 3.0

O escopo do programa é um dos pontos mais observados por quem tem restrição no nome. Nas rodadas anteriores, entraram principalmente dívidas bancárias — cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e financiamentos —, com faixas de valor definidas em portaria. Contas de consumo (luz, água, telefone) e dívidas com o varejo também foram incorporadas em determinadas fases.

Para a versão 3.0, o desenho definitivo do escopo depende de. O que a experiência das rodadas anteriores mostra é que dívidas de cartão de crédito e cheque especial são as que mais aparecem nas renegociações. São exatamente as linhas de crédito com as maiores taxas de juros do mercado — e, por isso, as que mais rapidamente saem do controle do orçamento familiar.

Essa concentração ajuda a explicar por que o programa é tão relevante para o balanço dos bancos: cartão e cheque especial são produtos com margens altas, mas também com inadimplência alta e provisões pesadas. Reduzir esse estoque de crédito problemático libera capital para novas operações e melhora indicadores como o índice de inadimplência acima de 90 dias.

Juros médios do mercadoTaxa média mensal de juros por tipo de crédito, para pessoa física.
Empréstimo pessoal6,42% a.m.
Cheque especial7,47% a.m.
Cartão de crédito rotativo15,02% a.m.

Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. jul/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.

Por que os grandes bancos saem ganhando, na leitura do Goldman Sachs

O ponto central da análise do Goldman Sachs é que o Desenrola 3.0 tende a beneficiar de forma desproporcional os bancos privados com maior exposição a crédito para pessoa física de menor renda. A lógica é direta: essas instituições são as que mais concederam cartão de crédito e crédito pessoal nos últimos anos e, portanto, são as que carregam os maiores estoques de dívidas vencidas passíveis de renegociação.

Entre os nomes citados como potencialmente mais beneficiados aparecem. A análise pondera que o efeito não é automático — depende de quantos clientes efetivamente aderem ao programa, de qual desconto médio será praticado nos leilões e de quanto dessas dívidas já estava totalmente provisionado.

Há também um segundo canal de benefício, mais indireto: à medida que consumidores saem da inadimplência, voltam a ser elegíveis para novas linhas de crédito. Isso significa que os mesmos bancos que recebem parte da dívida antiga via Desenrola 3.0 podem, em seguida, originar crédito novo para esses clientes reabilitados. É o que a análise chama de efeito de "reciclagem" da base de clientes — um ganho que se estende por vários trimestres depois do programa.

Bancos públicos, por outro lado, aparecem em posição mais neutra na avaliação. Eles têm carteira relevante de crédito consignado e habitacional, produtos com inadimplência estruturalmente mais baixa, e menor exposição às linhas rotativas que dominam o Desenrola. O impacto no resultado, portanto, tende a ser menor em termos relativos.

Impacto nas provisões e no lucro dos bancos listados

Para entender por que a análise de uma casa global movimenta o preço de ações de bancos, é preciso olhar para a mecânica contábil das provisões. Todo banco é obrigado, pela regulação do Banco Central, a reservar dinheiro para cobrir dívidas que provavelmente não serão pagas. Essa reserva é a chamada provisão para devedores duvidosos — e ela reduz o lucro no trimestre em que é constituída.

Quando uma dívida provisionada é efetivamente paga, ainda que parcialmente, parte dessa provisão pode ser revertida — ou seja, volta como resultado positivo no balanço. É por isso que o Desenrola 3.0 é lido pelo mercado como um potencial vetor de recomposição de lucro dos bancos. Cada real recebido em renegociação de dívida já 100% provisionada entra praticamente inteiro como ganho contábil.

A magnitude desse efeito depende de. Ainda assim, o mecanismo em si é bem conhecido: rodadas anteriores do Desenrola produziram efeito semelhante nos balanços trimestrais, com bancos reportando reversões de provisão relevantes nos meses seguintes à adesão dos clientes.

Há um contrapeso importante: o desconto oferecido no leilão reverso pode, dependendo do tamanho, superar o que já estava provisionado. Quando isso acontece, o banco tem prejuízo adicional na operação. Por isso, a estratégia de cada instituição é diferente — algumas optam por descontos mais agressivos para monetizar rapidamente uma carteira que consideram de baixa recuperabilidade; outras preferem descontos menores mesmo que isso signifique receber de menos clientes.

Como o Desenrola 3.0 conversa com o cenário de crédito em 2026

O programa chega em um momento em que o crédito para pessoa física está mais caro. A taxa Selic elevada, mantida pelo Banco Central para conter a inflação, encarece diretamente linhas como cheque especial, cartão rotativo e crédito pessoal sem garantia. Para famílias já endividadas, isso significa que a dívida cresce mais rápido do que a capacidade de pagar — cenário que engorda a base potencial de aderentes ao Desenrola.

De forma geral, no mercado de crédito, linhas com garantia — como as que descontam a parcela direto do salário ou do benefício, ou aquelas com bem em garantia como imóvel ou veículo — tendem a ser bem mais baratas do que linhas sem garantia como cartão rotativo e cheque especial. Um dos ganhos práticos para quem sai do Desenrola 3.0 com o CPF limpo é justamente recuperar o acesso a essas linhas de custo mais baixo, deixando de depender exclusivamente das opções de crédito emergencial mais caras.

Esse é o círculo virtuoso que o programa tenta criar: renegociar dívida cara, limpar o nome, migrar para crédito mais barato e reconstruir orçamento. Do lado dos bancos, o mesmo círculo significa reduzir estoque de inadimplência e originar novo crédito para uma base de clientes reabilitados.

O que o consumidor precisa saber antes de aderir

Por mais que a discussão sobre lucro dos bancos ocupe o noticiário econômico, a decisão que importa para a maioria das pessoas é bem mais concreta: vale a pena entrar no Desenrola 3.0? A resposta, em geral, é sim para quem tem dívida vencida, o CPF negativado e alguma capacidade de pagamento — nem que seja pequena.

Alguns pontos merecem atenção antes de assinar qualquer proposta:

  • Confira o valor final da dívida renegociada. O desconto anunciado deve ser calculado sobre o total atualizado, não sobre um valor inflado artificialmente. Peça o extrato antes e depois.
  • Cuidado com prazos longos demais. Um desconto grande pode ser diluído em muitas parcelas, e a soma total paga acaba não sendo tão vantajosa. Compare o valor presente da proposta.
  • Priorize dívidas com juros mais altos. Cartão de crédito e cheque especial são geralmente as mais caras e devem entrar na frente.
  • Desconfie de intermediários que cobram taxa para inscrever no programa. A adesão ao Desenrola é feita em canais oficiais e não exige pagamento antecipado.
  • Mantenha o pagamento em dia depois de renegociar. Perder uma parcela do acordo pode fazer com que o desconto seja perdido e a dívida original volte integralmente.

A adesão será feita pelos canais oficiais definidos pelo governo federal, e o funcionamento operacional depende de. Quem já passou pelas rodadas anteriores pode aderir novamente, desde que tenha dívidas elegíveis dentro do novo escopo.

Conclusão: um programa com dois lados que se completam

O Desenrola 3.0 é, ao mesmo tempo, um instrumento de política pública para reduzir a inadimplência das famílias e um evento relevante para o resultado dos bancos. A análise do Goldman Sachs colocou luz sobre o segundo lado, mostrando que o desenho do programa tende a beneficiar de forma desproporcional os bancos privados mais expostos a crédito de varejo. Mas nada disso funciona sem o primeiro lado: são milhões de consumidores brasileiros com o nome sujo que, ao aderirem, transformam provisão em caixa e reabrem o próprio acesso ao crédito.

Para quem está endividado, o próximo passo prático é reunir a lista de dívidas, entender quais têm chance de entrar no programa e acompanhar a abertura oficial da adesão. Renegociar bem uma dívida antiga costuma valer mais do que qualquer outro movimento financeiro que uma família endividada pode fazer no curto prazo.

Referências

  • Governo Federal — anúncio do programa Desenrola 3.0
  • Goldman Sachs — relatório de análise sobre o impacto do Desenrola 3.0 nos bancos brasileiros

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