Focus projeta inflação de 4,99% e Selic a 13,50% em 2026
Boletim divulgado pelo Banco Central revisou expectativas para o ano; Selic segue hoje em 13,75% e mercado vê recuo gradual até 2028.
Tatiana Botelho
📖 10 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- O Boletim Focus projetou inflação (IPCA) de 4,99% para 2026, acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central.
- A Selic segue em 13,75% ao ano, com projeção de queda gradual: 13,50% no fim de 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028.
- Com juros altos por mais tempo, consignado, financiamento imobiliário e de veículos tendem a permanecer caros nos próximos meses.
- Priorizar a quitação de dívidas caras, montar reserva de emergência e usar portabilidade quando a Selic cair são passos práticos recomendados.
O Boletim Focus desta semana trouxe uma sinalização importante para quem já tem crédito contratado — ou está pensando em pegar um empréstimo, financiar um carro ou comprar a casa própria nos próximos meses.
As projeções de inflação para 2026 subiram, a taxa básica de juros (Selic) segue no patamar alto de 13,75% ao ano e a expectativa do mercado é de uma queda apenas gradual daqui para frente.
Na prática, isso mexe com o bolso de milhões de brasileiros: aposentado que paga parcela de consignado, trabalhador CLT com carnê no cartão, família que sonha em financiar imóvel e quem já está negociando dívidas. Neste guia, você vai entender o que o Focus divulgou, por que a Selic continua onde está, como isso afeta cada tipo de crédito e — o mais importante — o que dá para fazer agora para não pagar mais caro do que precisa.
Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.
Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
O que é o Boletim Focus e o que ele divulgou nesta semana
O Boletim Focus é um relatório publicado toda segunda-feira pelo Banco Central. Ele reúne as projeções de mais de cem instituições financeiras (bancos, corretoras, consultorias) para os principais indicadores da economia: inflação, taxa de juros, câmbio, crescimento do PIB.
É uma espécie de "média do que o mercado espera" — e serve de termômetro tanto para o próprio BC quanto para quem precisa tomar decisões financeiras.
Um ponto essencial: o Focus não decide nada. Ele só mostra o que os analistas estão projetando. Quem define a Selic é o Copom (Comitê de Política Monetária), que se reúne a cada 45 dias.
Quando você lê "Focus revisa Selic", isso significa que a projeção do mercado mudou — a taxa em vigor continua a mesma até o Copom se reunir novamente e votar por manter, subir ou baixar.
Na edição desta semana, o destaque foi a revisão para cima da inflação esperada em 2026, agora projetada em 4,99% pelo IPCA — o índice oficial de preços ao consumidor. Esse valor está acima do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, o que ajuda a explicar por que o Copom vem mantendo os juros em patamar restritivo.
Selic hoje em 13,75% e a projeção de queda gradual até 2028
Um ponto precisa ficar claro: a Selic vigente hoje é de 13,75% ao ano. Esse é o número que está valendo, decidido pelo Copom, e é ele que serve de referência para o custo do dinheiro na economia brasileira neste momento.
O que o Focus mostrou foi a expectativa do mercado para os próximos anos:
- Fim de 2026: 13,50% ao ano — ou seja, os analistas projetam que ainda haverá pelo menos uma redução da taxa até dezembro deste ano.
- Fim de 2027: 12,00% ao ano — queda mais consistente ao longo do ano que vem.
- Fim de 2028: 10,50% ao ano — retomada mais firme do ciclo de afrouxamento monetário.
Ou seja: o mercado enxerga um caminho de queda, mas lento e escalonado. Ninguém está apostando em juros "baratos" no curto prazo. Para quem tem crédito, isso significa que os patamares altos de taxa devem permanecer por mais tempo, e uma eventual queda das prestações demora a chegar.
Outro alerta importante: projeção não é garantia. Se a inflação continuar surpreendendo para cima, o Copom pode simplesmente decidir não cortar a Selic no fim do ano — e o número projetado no Focus muda na semana seguinte. Por isso é arriscado planejar as finanças pessoais contando com juros mais baixos que ainda não aconteceram.
Inflação projetada em 4,99%: o que isso significa no seu bolso
A revisão da inflação de 2026 para 4,99% tem efeito direto no dia a dia mesmo de quem nunca acompanha economia. Três impactos são os mais sensíveis:
1. Poder de compra menor. Se os preços sobem quase 5% em um ano e o seu salário não sobe na mesma velocidade, você compra menos com o mesmo dinheiro. Alimentos, conta de luz, transporte e aluguel costumam ser os itens que mais pesam no orçamento das famílias de baixa e média renda.
2. Reajustes de benefícios e salário mínimo. Aposentados, pensionistas e quem recebe benefícios do INSS acima do piso têm o reajuste anual baseado na inflação medida. Uma inflação mais alta hoje significa reajuste maior no ano seguinte — o que ajuda a preservar o poder de compra, mas não repõe o que já foi perdido no meio do caminho.
3. Juros altos por mais tempo. É o efeito mais silencioso e, para quem tem dívida, o mais caro. Enquanto a inflação estiver pressionada, o Banco Central tende a manter a Selic elevada — e todo crédito no país fica mais caro. Empréstimo pessoal, cheque especial, cartão de crédito rotativo, financiamento e até consignado se ajustam a esse cenário.
Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. jul/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.
Acima, para efeito de comparação, o custo médio de algumas linhas de crédito segundo o Banco Central. Repare como as diferenças entre modalidades são enormes — e como isso deveria orientar qualquer decisão de contratar ou trocar dívida.
Impacto no empréstimo consignado (INSS e CLT)
O consignado é a linha de crédito mais barata do mercado para pessoa física, justamente porque a parcela é descontada direto no benefício ou na folha. Mesmo assim, ele não escapa do cenário macroeconômico: com a Selic em 13,75% ao ano, o custo de captação dos bancos segue elevado e as taxas oferecidas ao consumidor final tendem a acompanhar.
Para aposentados e pensionistas do INSS, valem as seguintes regras vigentes em 2026 [REG]:
- Prazo máximo: 108 meses.
- Margem consignável total: 45% do valor do benefício, dividida em três fatias fixas — 35% para empréstimo consignado, 5% para cartão de crédito consignado (RMC) e 5% para cartão de benefício consignado (RCC).
- As fatias de cartão são exclusivas dos cartões e não migram para o empréstimo. Quem não tem RMC nem RCC continua limitado a 35% de margem para o empréstimo — não soma os 10% restantes.
- Carência para vencimento da primeira parcela: até 90 dias.
Para o trabalhador CLT com carteira assinada, as regras são [REG]:
- Prazo máximo: 96 meses.
- Margem consignável: 35% do salário, integralmente destinada ao empréstimo (não há cartão nesta modalidade).
Com os juros ainda altos, algumas orientações práticas ganham peso:
Se você já tem consignado, verifique se vale a pena aguardar. As projeções do Focus indicam queda apenas gradual da Selic, então uma "portabilidade milagrosa" com taxa muito menor não deve aparecer nos próximos meses. Mas fique atento: quando o ciclo de corte de fato começar, a portabilidade se torna uma ferramenta poderosa para reduzir a parcela.
Se está pensando em contratar, evite comprometer toda a margem disponível. Deixar folga na margem consignável é uma proteção — em caso de imprevisto, você ainda tem espaço para renegociar ou tomar um novo crédito emergencial sem estourar o orçamento.
Sobre o BPC/LOAS: é comum ouvir que quem recebe o Benefício de Prestação Continuada não pode fazer consignado. Isso está errado. Por lei, o BPC/LOAS pode ser usado como base para o consignado — não há vedação [REG]. O que acontece hoje, na prática, é que devido ao alto volume de revisões e cessações desse benefício, muitas instituições recuaram na oferta. Ou seja: é permitido, mas a disponibilidade junto aos bancos está reduzida no momento.
Financiamento imobiliário e de veículos: o que esperar
Se o consignado sofre pouco com a Selic (por ser garantido pelo desconto em folha), o financiamento é outra história. Aqui, os juros altos pesam — e muito.
Financiamento imobiliário. As linhas atreladas à poupança e à TR seguem o comportamento da Selic de forma indireta. Com a taxa básica em 13,75% e projeção de queda lenta, as parcelas iniciais tendem a continuar altas.
Para quem já tem financiamento contratado com taxa pós-fixada, a boa notícia é que uma eventual queda futura da Selic pode aliviar a prestação nos próximos anos. Para quem está em taxa prefixada, a parcela não muda — mas também não sobe.
Dicas para quem pretende financiar imóvel neste cenário:
- Aumente a entrada. Cada real a mais no valor de entrada reduz o total financiado e, portanto, os juros pagos ao longo do contrato.
- Compare CET, não só a taxa nominal. O Custo Efetivo Total inclui seguros, tarifas e demais encargos. Duas propostas com "a mesma taxa" podem ter CET muito diferente.
- Considere o sistema SAC. As parcelas começam mais altas, mas o total de juros pagos costuma ser menor do que na Tabela Price.
Financiamento de veículo. Aqui o efeito da Selic é mais rápido e direto: quando o custo do dinheiro sobe, a parcela do carro sobe junto. Com a projeção de queda gradual, quem consegue esperar tende a se beneficiar — mas quem realmente precisa do veículo agora deve focar em três pontos:
- Prazo curto sempre que possível. Quanto menor o prazo, menos juros no total.
- Nunca aceitar a primeira proposta. A taxa varia bastante entre bancos, montadoras e cooperativas de crédito.
- Cuidado com "parcela baixa". Prazo esticado disfarça o custo total — no fim, você paga várias vezes o valor do bem.
Como se preparar agora — passo a passo prático
O cenário desenhado pelo Focus é claro: juros altos por mais tempo, inflação pressionada e queda apenas gradual da Selic. Diante disso, algumas atitudes práticas fazem diferença real no orçamento:
1. Priorize quitar dívidas caras primeiro. Cheque especial e rotativo do cartão têm taxas muito acima do consignado e de financiamentos. Se você tem sobra de caixa, atacar essas dívidas primeiro é o "investimento" com maior retorno garantido.
2. Refaça o orçamento com margem para inflação. Se os preços devem subir cerca de 5% em 2026, reserve uma folga mensal para as contas essenciais. Alimentação, energia elétrica e transporte costumam ser os primeiros a apertar.
3. Não conte com queda de juros que ainda não aconteceu. Assumir uma nova dívida agora imaginando "quando os juros caírem eu troco por outra mais barata" é arriscado. As projeções mudam toda semana e podem piorar.
4. Use consignado apenas para o que realmente compensa. Trocar dívida cara (cartão, cheque especial) por consignado é matematicamente vantajoso. Contratar consignado para consumo, viagem ou reforma sem necessidade real compromete a renda por anos.
5. Reserva de emergência antes de qualquer coisa. Em cenário de juros altos, poupar rende razoavelmente bem em produtos conservadores (Tesouro Selic, CDBs de liquidez diária). Ter uma reserva evita recorrer a crédito caro na primeira emergência.
6. Portabilidade fica no radar. Quando a Selic começar a cair de fato, a portabilidade de crédito — levar o financiamento ou o consignado de um banco para outro com taxa menor — vira a ferramenta mais eficiente de economia. Guarde os contratos atuais e acompanhe as ofertas.
Resumo prático e próximo passo
O Boletim Focus desta semana confirmou o que muitos já sentem no bolso: a inflação segue pressionada (projeção de 4,99% para 2026) e a Selic continua em 13,75% ao ano, com queda apenas gradual esperada até 2028. Para quem tem consignado, financiamento ou pretende contratar crédito, isso significa que o custo do dinheiro ainda vai demorar a cair de forma expressiva.
O próximo passo depende do seu momento. Se você tem dívida cara ativa, o foco é quitar ou trocar por linha mais barata (consignado é a mais competitiva, respeitando os limites de margem). Se está pensando em novo financiamento, avalie se dá para esperar, aumente a entrada e compare o CET entre bancos. E, em qualquer situação, monte uma reserva de emergência antes de assumir novos compromissos — porque em cenário de juros altos, quem tem folga negocia melhor, e quem está no aperto paga a conta mais cara.
Referências
- Banco Central do Brasil — Boletim Focus (28/09/2026)
- Banco Central do Brasil — Estatísticas de custo médio das operações de crédito a pessoas físicas
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