Fim das bets tira R$ 6,8 bi da União até 2027, diz Planejamento
Ministro Bruno Moretti, do Planejamento, alerta que fim das apostas online tira receita já prevista no Orçamento e obriga o Executivo a encontrar novas fontes para fechar as contas.
Tatiana Botelho
📖 11 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- O Ministério do Planejamento estima em R$ 6,8 bilhões até 2027 a perda de arrecadação caso as bets sejam proibidas no Brasil.
- O ministro Bruno Moretti afirma que o governo teria de buscar medidas de compensação para cobrir a receita perdida.
- Pelo arcabouço fiscal, a compensação pode vir por aumento de imposto, criação de contribuição ou corte de gastos.
- A proibição também traz o risco de migração de apostadores para sites clandestinos, sem tributação nem proteção ao consumidor.
A eventual proibição das apostas esportivas online no Brasil, as chamadas bets, geraria uma perda estimada em R$ 6,8 bilhões nas contas públicas até 2027, segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, e o governo federal precisaria encontrar novas fontes de arrecadação para compensar esse valor. O alerta é do ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, e joga luz sobre um ângulo pouco discutido do debate: além da polêmica social sobre o vício em apostas e o endividamento das famílias, existe também um impacto direto no Orçamento da União que já estava contabilizado nas projeções oficiais.
O recado do ministro é importante porque muda o tom da conversa. Até agora, boa parte do debate público girava em torno dos efeitos negativos das bets sobre o bolso do trabalhador — pessoas comprometendo o salário, o Bolsa Família e até o benefício do INSS em apostas. Agora entra na mesa uma outra pergunta prática: se o governo abrir mão dessa receita, quem vai pagar a conta? Neste texto você vai entender de onde sai o cálculo de R$ 6,8 bilhões, por que essa perda pesa tanto num Orçamento apertado, quais caminhos o Executivo pode adotar para compensar o rombo e o que tudo isso significa para o seu bolso — tanto para quem aposta quanto para quem não aposta.
O que está por trás do rombo de R$ 6,8 bilhões até 2027
O valor citado pelo ministro Bruno Moretti representa o montante de arrecadação que o governo federal estima perder, ao longo dos próximos anos, caso o funcionamento das bets seja proibido no país. Essa cifra não é um chute: ela vem das projeções que a área econômica já havia incorporado no planejamento fiscal a partir da regulamentação das apostas, que passou a valer no início de 2025.
Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.
Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
Quando o governo autorizou a operação regulada das bets, a expectativa era transformar um mercado que já existia — mas rodava fora do alcance da fiscalização brasileira — em uma fonte formal de arrecadação. As empresas autorizadas passaram a pagar taxas de outorga, tributos sobre a receita e contribuições que alimentam áreas como educação, esporte, saúde e seguridade social. Ao proibir a atividade, o governo perde essa entrada de recursos e ainda empurra parte do mercado para a clandestinidade, onde não há tributação nenhuma.
Os R$ 6,8 bilhões até 2027 correspondem, portanto, ao que o Executivo já contava receber e agora deixaria de arrecadar. Em termos práticos, é um valor que precisaria ser retirado das projeções de receita do Orçamento — e é aí que entra a necessidade de compensação.
Por que o governo terá de compensar a perda
O arcabouço fiscal e o dilema da compensação
O Brasil trabalha, desde 2023, com uma regra fiscal chamada arcabouço, que estabelece limites para o crescimento das despesas e exige metas de resultado primário — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar juros da dívida. Dentro desse arranjo, cada real que entra no cálculo da receita conta para fechar a meta do ano. Quando uma fonte de receita some do horizonte, o governo tem basicamente três alternativas: cortar gasto, aumentar outro imposto ou aceitar um resultado fiscal pior — o que pode significar descumprir a meta.
É exatamente esse dilema que o ministro Bruno Moretti sinaliza ao dizer que o Executivo teria de buscar compensação em caso de proibição das bets. Não se trata de uma escolha política solta: o próprio arcabouço fiscal impõe a lógica de que uma receita perdida precisa ser reposta por outra medida equivalente, sob pena de estourar limites que o Congresso e o mercado acompanham de perto.
Na prática, o cidadão sente esse ajuste de várias formas. Um aumento de alíquota de imposto, a criação de uma nova contribuição, a revisão de benefícios tributários e o corte de despesas em programas sociais ou investimentos são exemplos de medidas que costumam entrar no cardápio quando falta receita. Ou seja: mesmo quem nunca apostou um centavo em bet pode acabar arcando indiretamente com o rombo, dependendo da escolha que o governo fizer para reequilibrar as contas.
De onde sai a arrecadação das bets hoje
Para entender o tamanho do impacto, vale destrinchar como o dinheiro das bets chega aos cofres públicos. A regulamentação em vigor prevê que as empresas autorizadas paguem uma taxa de outorga para operar no país, além de tributos sobre o chamado GGR — a receita bruta de jogo, que é o que sobra depois de descontados os prêmios pagos aos apostadores. Sobre esse resultado incidem alíquotas destinadas ao próprio setor de fiscalização, à seguridade social, ao esporte, à saúde e a outras áreas definidas em lei.
Tributação sobre empresas e apostadores
Além dos tributos das empresas, o apostador também paga imposto sobre os prêmios que recebe acima de um determinado limite, seguindo a lógica de tributação de rendimentos. Quando somamos taxa de outorga, tributação da receita das casas de apostas e imposto sobre prêmios dos ganhadores, chega-se ao volume total que o Tesouro projeta arrecadar. É esse conjunto que desapareceria — em maior ou menor grau — em um cenário de proibição.
Outro ponto importante: parte da arrecadação prevista já tem destinação carimbada por lei. Isso significa que a perda de receita não afeta apenas o caixa geral da União; também impacta programas específicos que hoje contam com esse dinheiro para funcionar. Se a atividade é banida, a fonte seca e o programa precisa buscar recursos em outro lugar.
O que muda para quem apostava — e para quem nunca apostou
O debate sobre proibição das bets afeta grupos diferentes de brasileiros de formas distintas. Para quem apostava com frequência, uma eventual proibição significaria o fim da possibilidade legal de operar em plataformas fiscalizadas pelo governo brasileiro. Na teoria, isso reduz a exposição ao vício e protege o orçamento familiar de perdas seguidas. Na prática, porém, existe o risco concreto de migração para sites clandestinos, hospedados fora do país, sem qualquer regra de proteção ao consumidor, sem limite de aposta, sem canal oficial para reclamar em caso de golpe e — vale destacar — sem recolher um real de imposto ao Brasil.
Já para quem nunca apostou, o impacto vem por dois canais indiretos. O primeiro é o fiscal, já explicado: perda de arrecadação pode virar aumento de imposto, corte de programa social ou ajuste em serviço público. O segundo é o social: os efeitos do endividamento por apostas atingem famílias inteiras, aumentam a inadimplência, pressionam a demanda por assistência social e chegam até o consignado do INSS, quando o aposentado usa o crédito para cobrir prejuízos de apostas.
Esse é o motivo pelo qual a discussão não pode ser reduzida a um lado só. Proibir tem um custo fiscal claro, calculado em R$ 6,8 bilhões até 2027 pelo próprio governo. Manter tem um custo social que aparece no orçamento das famílias e no aumento da vulnerabilidade financeira, especialmente entre trabalhadores de baixa renda, aposentados e beneficiários de programas de transferência de renda.
Riscos de mercado paralelo e apostas ilegais
Um ponto central quando se fala em proibir as bets é o risco do chamado mercado paralelo. A experiência internacional mostra que a proibição pura e simples de atividades já consolidadas tende a empurrar parte dos usuários para operações clandestinas. No caso das apostas online, esse deslocamento é ainda mais fácil, porque bastam um celular com internet e um cartão para acessar sites hospedados em outros países.
O problema é que, no ambiente clandestino, o Estado brasileiro perde três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, perde a arrecadação — o dinheiro apostado sai do país sem passar por nenhum tributo local. Segundo, perde a capacidade de fiscalização, o que inclui identificar lavagem de dinheiro, manipulação de resultados esportivos e uso de menores de idade. Terceiro, perde a proteção ao consumidor: em plataformas fora da lei, não existe autolimitação de gastos, não há canal para reclamação, e o apostador não tem para quem recorrer se o site simplesmente sumir com o saldo.
É por isso que a discussão em torno da proibição costuma vir acompanhada de propostas alternativas, como o endurecimento das regras já existentes, o aumento da tributação, a proibição de publicidade específica, restrições ao uso de cartão de crédito em apostas e limites individuais de gasto. Nenhuma dessas medidas resolve todos os problemas, mas todas tentam reduzir os danos sem abrir mão da arrecadação e do controle público sobre a atividade.
O que esperar dos próximos passos no Congresso e nos tribunais
A regulamentação das bets no Brasil passou por um longo processo legislativo e virou lei em 2023, com aplicação efetiva a partir de 2025. Qualquer decisão de proibir a atividade envolveria, portanto, uma mudança de rota que pode acontecer por duas vias principais: uma nova lei aprovada pelo Congresso Nacional ou uma decisão do Supremo Tribunal Federal em ações que discutem a constitucionalidade das apostas.
A fala do ministro Bruno Moretti sinaliza que o Executivo está atento a esse cenário e já calcula os impactos fiscais de cada desfecho possível. Ao colocar na mesa a cifra de R$ 6,8 bilhões até 2027, o governo entra no debate com um argumento concreto: uma decisão pela proibição não é gratuita e vai exigir, de quem tomar a decisão, apontar de onde sairá o dinheiro que deixará de entrar. Esse tipo de transparência sobre o custo fiscal é justamente o que a legislação orçamentária brasileira exige quando se cria despesa ou se abre mão de receita.
Para o cidadão, o mais importante é acompanhar o desdobramento em duas frentes. A primeira é regulatória: se surgirem novas regras — sobre publicidade, uso de cartão, valores máximos ou tipos de aposta permitidos —, elas afetarão diretamente quem usa as plataformas. A segunda é fiscal: se o governo precisar compensar a perda, o formato dessa compensação (imposto, corte, contribuição) vai definir quem paga a conta.
Como se organizar diante desse cenário
Independentemente do desfecho do debate público, três cuidados práticos ajudam qualquer trabalhador, aposentado ou família a se proteger no ambiente atual. O primeiro é não usar crédito para apostar. Comprometer margem de consignado, limite de cartão ou cheque especial em apostas transforma uma perda pontual em uma dívida de longo prazo, com juros que corroem a renda por meses ou anos.
O segundo cuidado é olhar com desconfiança para promessas de retorno rápido. Toda modalidade de aposta trabalha com uma matemática em que, no agregado, a casa ganha e o apostador perde. Ganhos existem, mas são exceções — e são o que faz o modelo funcionar. Entrar nesse jogo achando que se está fazendo um investimento é a raiz do endividamento que hoje pressiona o orçamento de milhões de famílias brasileiras.
O terceiro cuidado é acompanhar os canais oficiais do governo federal — Ministério da Fazenda, Ministério do Planejamento, Banco Central e agências reguladoras — para saber, em primeira mão, o que muda em termos de regra, tributação e proteção ao consumidor. Boa parte da desinformação sobre bets circula em redes sociais e grupos de mensagem, e a informação de qualidade continua vindo das fontes oficiais.
Conclusão: um debate que vai muito além da aposta
O alerta do ministro Bruno Moretti sobre o rombo de R$ 6,8 bilhões até 2027 em caso de proibição das bets coloca o debate em outro patamar. Não se trata mais só de discutir se apostar faz mal ou bem para as famílias — trata-se de decidir quem vai pagar a conta caso o governo abra mão dessa fonte de arrecadação. E, no arcabouço fiscal atual, essa conta sempre chega em algum lugar: em imposto novo, em corte de gasto ou em ajuste de programa social.
O próximo passo, do lado do cidadão, é acompanhar as decisões que virão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, além das medidas que o Executivo pode propor para compensar a perda. Do lado prático, o recado é direto: não misture crédito com aposta, não trate bet como investimento e desconfie de qualquer promessa de ganho fácil. O impacto fiscal é grande, mas o impacto no orçamento de cada família pode ser ainda maior — e esse, sim, depende só de você para ser evitado.
Referências
- Ministério do Planejamento e Orçamento — declaração do ministro Bruno Moretti sobre impacto fiscal da eventual proibição das bets
- Lei nº 14.790/2023 — regulamentação das apostas de quota fixa (bets) no Brasil
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.
Leia também em Vida Financeira
Ver todos →Desenrola 3.0: como funciona a renegociação com desconto de até 90%
Desenrola 3.0 promete quitação de dívidas com até 90% de desconto e retirada do nome dos cadastros de inadimplência. Veja como funciona e o que checar.
Tatiana Botelho
25 de set. de 2026
Pix e TIPS: como seria a integração com o instantâneo europeu
Banco Central estuda conectar o Pix ao TIPS, sistema instantâneo do BCE. Entenda como funcionaria a remessa entre Brasil e zona do euro e o que ainda falta definir.
Tatiana Botelho
25 de set. de 2026

Bets no Brasil: R$ 88 bi apostados e 9 mi de usuários
Mercado de bets movimentou cerca de R$ 88 bilhões no 1º semestre e tem 9 milhões de apostadores por mês. Entenda os números e o que o governo Lula estuda mudar.
Tatiana Botelho
25 de set. de 2026