
Galípolo: oferta de crédito está 'agressiva e predatória'
Presidente do Banco Central sinaliza preocupação com endividamento das famílias e coloca o rotativo do cartão no centro do debate sobre proteção ao consumidor.
Tatiana Botelho
📖 11 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, classificou parte das ofertas de crédito ao consumidor no Brasil como 'agressivas e predatórias'.
- A inadimplência do cartão de crédito está em patamares historicamente elevados, segundo dados acompanhados pelo BC.
- O Custo Efetivo Total (CET) é o número que permite comparar propostas de bancos diferentes e evitar contratos abusivos.
- Desde 2024, dívidas do rotativo do cartão são transferidas, após 30 dias, para uma linha de parcelamento com juros menores.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou publicamente que parte das ofertas de crédito feitas hoje ao consumidor pode ser classificada como "agressiva e predatória", em um cenário em que a inadimplência do cartão de crédito está em patamares historicamente elevados.
A fala tem peso: quando a maior autoridade monetária do país usa esse tipo de palavra em público, o recado costuma ser dirigido tanto aos bancos e fintechs quanto ao consumidor que está prestes a assinar um contrato sem entender o que está aceitando.
Se você usa cartão de crédito, já ouviu falar em rotativo, entra em cheque especial no fim do mês ou vive recebendo ligação e mensagem oferecendo "dinheiro na hora", o alerta é para você. Este texto explica, em linguagem direta, o que o presidente do BC quis dizer, por que a inadimplência do cartão preocupa tanto o regulador, o que caracteriza uma oferta de crédito predatória e — principalmente — o que o consumidor pode fazer, hoje, para não cair em uma dívida que se multiplica sozinha.
Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.
Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
O que o presidente do Banco Central disse sobre crédito "agressivo e predatório"
Na avaliação feita publicamente por Galípolo, o mercado brasileiro de crédito estaria vivendo um momento em que a busca por novos clientes e por maior volume de contratos leva algumas instituições a oferecerem linhas caras, com pouca transparência sobre o custo real, para pessoas que já estão endividadas ou têm baixa capacidade de pagamento. O termo "predatório" não é usado à toa: descreve uma oferta desenhada para lucrar exatamente com a dificuldade do cliente em entender o contrato ou em recusar a proposta.
A fala do presidente do BC vem acompanhada de um diagnóstico técnico. O órgão acompanha, mês a mês, os indicadores de concessão de crédito, o custo médio de cada linha e o percentual de contratos em atraso. Quando o regulador observa que a inadimplência de um produto específico — no caso, o cartão de crédito — sobe e permanece elevada, é sinal de que a máquina de oferta está descolada da máquina de renda das famílias. Em outras palavras: empresta-se rápido, mas o consumidor não consegue pagar.
Esse tipo de manifestação pública tende a antecipar movimentos regulatórios. Ao longo dos últimos anos, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional já promoveram mudanças importantes no rotativo do cartão, na portabilidade de dívida e na transparência do Custo Efetivo Total (CET). A declaração de agora coloca de novo o cartão de crédito na mira e sinaliza que o tema deve continuar em cima da mesa nas discussões do BC com o sistema financeiro.
Por que a inadimplência do cartão de crédito preocupa o Banco Central
O cartão de crédito é hoje o principal instrumento de pagamento e também uma das linhas mais caras de crédito ao consumidor. Quando o cliente não paga a fatura integralmente na data, o valor não pago cai automaticamente em uma modalidade chamada crédito rotativo — e é ali que a dívida começa a crescer em ritmo acelerado. Segundo dados acompanhados pelo Banco Central, os índices de atraso nessa modalidade estão em níveis historicamente altos, com uma parcela significativa dos usuários incapaz de quitar a fatura em dia.
A inadimplência elevada tem dois efeitos ruins ao mesmo tempo. Para o consumidor, significa dívida que dobra em poucos meses, nome negativado, restrição para alugar imóvel, comprar parcelado, abrir conta em algumas instituições e até para conseguir emprego em determinadas funções.
Para a economia, significa famílias com menos capacidade de consumir, o que trava crescimento, e um sistema financeiro que precisa cobrar juros ainda mais altos dos bons pagadores para compensar as perdas dos maus pagadores. É esse ciclo que o Banco Central tenta quebrar quando fala em ofertas predatórias.
Um ponto importante: a inadimplência recorde do cartão não significa que o brasileiro deixou de trabalhar ou de pagar contas. Significa, em grande medida, que a renda disponível das famílias não acompanhou a inflação de itens essenciais como alimentação, moradia e energia — e que o cartão passou a ser usado como "segunda renda" para completar o mês. Quando a fatura chega, não há caixa para quitar, e o consumidor entra no rotativo achando que é só por 30 dias. Não é: é o início da bola de neve.
Rotativo do cartão: a linha de crédito mais cara do mercado
Se existe um vilão silencioso no orçamento das famílias, ele tem nome: rotativo do cartão de crédito. É a linha que entra em cena quando o cliente paga apenas o valor mínimo da fatura, ou não paga nada, e "rola" o restante para o mês seguinte. O problema é que os juros cobrados nessa modalidade são, em média, muitos e muitos pontos percentuais acima das demais linhas de crédito disponíveis para o mesmo consumidor.
Para dar uma ideia comparativa do custo, vale olhar as médias oficiais divulgadas pelo Banco Central para as principais linhas de crédito à pessoa física. O bloco abaixo mostra esse comparativo atualizado:
Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. jul/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.
Repare no tamanho da diferença. Uma dívida no rotativo pode custar, em juros, várias vezes mais que a mesma dívida em uma linha de crédito com garantia, como o consignado. Isso significa que, para muitos endividados, a melhor decisão financeira não é "pagar aos poucos" a fatura do cartão, mas sim trocar aquela dívida cara por uma linha mais barata — e, ao mesmo tempo, cortar o uso do cartão até equilibrar o orçamento.
Desde 2024, uma regra editada pelo Conselho Monetário Nacional obriga os bancos a transferirem, após 30 dias, a dívida do rotativo para uma linha de parcelamento com juros menores. Isso ajudou a limitar o estrago, mas não eliminou o problema: mesmo após o parcelamento obrigatório, o custo do crédito continua alto quando comparado a outras modalidades, e muita gente segue voltando ao rotativo no ciclo seguinte porque não mudou o comportamento de consumo.
O que caracteriza uma oferta de crédito predatória
Uma oferta de crédito predatória não é, necessariamente, ilegal. Muitas vezes ela é apenas mal-explicada, direcionada ao público errado ou desenhada para explorar a pressa e a falta de informação do cliente. Ao chamar atenção para o fenômeno, o presidente do Banco Central sinaliza que o consumidor precisa desconfiar quando encontrar uma ou mais destas características:
- Contato insistente e "tempo curto para decidir". Ligações, mensagens de WhatsApp e SMS dizendo que a proposta "vence hoje" ou que o dinheiro "entra na conta em 5 minutos" são um clássico. Crédito bom não tem prazo de validade de 5 minutos.
- Foco no valor da parcela, nunca no CET. O vendedor repete várias vezes "cabe no seu bolso, é só R$ X por mês", mas evita dizer o Custo Efetivo Total, o número total de parcelas ou o valor total que você vai devolver ao final.
- Oferta "pré-aprovada" para quem está negativado. Se o cliente está com o nome sujo e mesmo assim recebe crédito fácil, é porque o juro embutido é alto o suficiente para cobrir o risco — normalmente com sobra.
- Empurrar seguro, título de capitalização ou serviços que o cliente não pediu. A famosa "venda casada", proibida pelo Código de Defesa do Consumidor, continua acontecendo em muitas contratações rápidas de crédito.
- Uso de linguagem confusa e contrato assinado sem leitura. Contratos digitais aceitos por biometria em segundos, sem tela clara mostrando taxa, prazo e valor final, são terreno fértil para arrependimento.
Reconhecer esses sinais é o primeiro passo. O segundo é entender que dizer "não" a uma oferta de crédito não custa nada — mas dizer "sim" pode custar anos de orçamento apertado.
Como comparar corretamente o custo antes de contratar qualquer crédito
A principal ferramenta de defesa do consumidor, hoje, é o Custo Efetivo Total (CET). Por determinação do Banco Central, toda instituição financeira é obrigada a informar o CET antes da contratação de qualquer operação de crédito. O CET é a taxa que reúne, em um único número, os juros, as tarifas, os tributos e os seguros embutidos. É o que realmente sai do seu bolso.
Algumas orientações práticas para não errar na comparação:
- Nunca compare pelo valor da parcela. Duas propostas com a mesma parcela mensal podem ter prazos e CETs completamente diferentes. A parcela menor pode significar dobro do juro.
- Peça o CET por escrito. Ele deve constar da proposta e do contrato. Se o atendente não souber informar, é motivo suficiente para não fechar naquele momento.
- Simule em mais de uma instituição. A portabilidade de crédito é um direito garantido: você pode transferir uma dívida ativa para outro banco que ofereça juros menores, e a instituição atual é obrigada a apresentar uma contraproposta.
- Prefira linhas com garantia. Crédito consignado, crédito com garantia de imóvel e crédito com garantia de veículo costumam ter juros muito menores que cartão, cheque especial e empréstimo pessoal sem garantia.
- Fuja do rotativo do cartão. Se não conseguir pagar a fatura integral, negocie o parcelamento diretamente com o banco antes de deixar cair no rotativo — o custo será menor.
Esse cuidado vale ainda mais para quem já está no vermelho. Contratar um novo crédito para pagar dívida antiga só compensa quando a nova taxa é comprovadamente menor. Caso contrário, o que muda é apenas o nome do credor.
O que muda para o consumidor a partir do alerta do BC
Do ponto de vista prático, a declaração do presidente do Banco Central não altera, por si só, nenhuma regra. Mas indica a direção. Historicamente, quando o BC dá sinais públicos de que um determinado produto está fora do padrão saudável, três movimentos costumam vir na sequência: reforço na fiscalização das instituições, ajustes nas regras de transparência e informação, e campanhas de educação financeira voltadas ao consumidor. É razoável esperar mais atenção do regulador ao cartão de crédito, às ofertas por meios digitais e às fintechs de crédito no curto prazo.
Enquanto essas mudanças não chegam, cada consumidor pode tomar decisões que já reduzem o risco de cair em uma dívida cara:
- Revisar o uso do cartão. Se você está pagando apenas o mínimo há dois ou três meses, é sinal amarelo. Chame o banco e negocie o parcelamento da fatura.
- Não aceitar crédito por telefone sem simular em outro lugar. Toda oferta merece pelo menos uma comparação antes da assinatura.
- Ler o CET. Não a parcela: o CET. É o único número que permite comparar propostas de bancos diferentes.
- Desconfiar do "dinheiro na hora". Rapidez extrema costuma vir acompanhada de custo extremo.
- Buscar orientação gratuita. Procons, defensorias públicas e o próprio site do Banco Central oferecem canais de orientação e de reclamação para quem se sente lesado em uma contratação.
O recado central da fala de Galípolo, traduzido em linguagem cotidiana, é este: o mercado está oferecendo crédito com mais pressão do que a renda do brasileiro suporta, e uma parte dessa oferta é desenhada para ser difícil de recusar. Diante disso, a melhor defesa é a informação. Antes de assinar, pare, compare o CET, pergunte quanto vai custar no total e leve pelo menos 24 horas para pensar. Se a proposta "só vale agora", ela provavelmente não vale.
Resumo prático: o que fazer hoje
- Se você tem dívida no rotativo do cartão, procure o banco esta semana para migrar para uma linha mais barata ou avaliar a portabilidade da dívida para outra instituição.
- Se recebe ofertas insistentes de crédito, exija o CET antes de qualquer decisão e nunca feche contrato no impulso da ligação.
- Se está negativado, cuidado redobrado: o crédito que aparece "fácil" nesse momento tende a ser o mais caro do mercado.
- Acompanhe os canais oficiais do Banco Central para conhecer, quando forem publicadas, as próximas regras sobre transparência e limites de oferta de crédito ao consumidor.
O próximo passo é simples e cabe a cada um: abrir a fatura do cartão, olhar o CET da última oferta que você recebeu e decidir, com números na mão, se aquela dívida está ajudando o seu orçamento — ou trabalhando contra ele.
Referências
- Banco Central do Brasil — declaração pública de Gabriel Galípolo, presidente do BC, sobre o mercado de crédito ao consumidor
- Banco Central do Brasil — indicadores públicos de inadimplência do cartão de crédito à pessoa física
- Conselho Monetário Nacional — regra de parcelamento obrigatório do rotativo do cartão de crédito após 30 dias (vigente desde 2024)
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.
Leia também em Vida Financeira
Ver todos →Novo Desenrola 2026: o que o governo estuda e quem entra
Governo avalia nova fase do Desenrola para dívidas antigas. Veja quem pode entrar, quais débitos devem ser incluídos e como se preparar sem cair em golpes.
Tatiana Botelho
22 de set. de 2026
Simples Nacional e IVA Dual: quando deixa de compensar
Com o IVA Dual da Reforma Tributária, o Simples Nacional pode perder competitividade em vendas B2B. Veja quando ainda vale a pena para o pequeno negócio.
Tatiana Botelho
22 de set. de 2026

Fazenda corta PIB de 2026 para 2% e culpa dívida das famílias
Boletim Macrofiscal reduz projeção de crescimento para 2% em 2026 e aponta comprometimento recorde da renda com dívidas como principal freio do consumo.
Tatiana Botelho
22 de set. de 2026