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Justiça gratuita trabalhista: renda alta pode barrar benefício

TRT-2 nega Justiça gratuita a trabalhador com salário acima do limite legal sem prova de dificuldade financeira. Entenda o que muda após a Reforma Trabalhista.

RS

Ricardo Silva

📖 7 min de leitura

Muita gente acredita que basta entrar com uma ação trabalhista para ter automaticamente direito à chamada gratuidade da Justiça — aquele benefício que dispensa o pagamento de custas, honorários periciais e outras despesas do processo. Uma decisão recente da 12ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), com sede em São Paulo, joga um balde de água fria nessa ideia: quando o salário do trabalhador está acima do limite fixado em lei, o benefício não é concedido de forma automática, mesmo em processo trabalhista.

O julgado reforça um entendimento que vem se consolidando nos tribunais desde a Reforma Trabalhista de 2017: a Justiça gratuita continua existindo, mas quem ganha mais precisa provar, de forma concreta, que não tem condições de arcar com os custos do processo sem prejudicar o próprio sustento.

A seguir, você entende o que muda na prática, quem ainda tem direito ao benefício, o que o TRT-2 analisou no caso concreto e como se preparar antes de entrar ou recorrer em uma ação trabalhista.

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O que é a gratuidade da Justiça no processo trabalhista

A gratuidade da Justiça é um direito previsto na Constituição e regulamentado, no processo do trabalho, pelo artigo 790 da CLT. Ela permite que o trabalhador que não tem condições financeiras de pagar as despesas do processo — custas, honorários periciais, honorários advocatícios de sucumbência, entre outros — possa litigar sem esse peso no bolso.

Antes da Reforma Trabalhista, a regra era mais generosa: praticamente qualquer trabalhador que declarasse não ter condições de arcar com o processo tinha o benefício concedido. Depois da mudança na lei, em 2017, o critério ficou mais rígido, principalmente para quem tem renda mais alta.

Hoje, a CLT estabelece dois caminhos:

  • Presunção automática de pobreza: aplica-se a quem recebe salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social (o famoso “teto do INSS”). Nesse grupo, basta declarar a hipossuficiência para ter direito à gratuidade.
  • Comprovação obrigatória: quem ganha acima desse patamar precisa demonstrar, com documentos e argumentos, que não tem como suportar as despesas do processo sem comprometer o próprio sustento ou o da família.

Ou seja, a lei não proibiu o trabalhador de renda mais alta de pedir o benefício — mas transferiu para ele o ônus de provar a dificuldade financeira. E é justamente aí que muitas ações estão sendo barradas.

Por que a renda alta pode derrubar a gratuidade

A lógica por trás da mudança é simples: o benefício da Justiça gratuita foi pensado para quem realmente não tem condições de pagar. Se a pessoa recebe um salário considerado alto para os padrões da legislação trabalhista, presume-se que ela pode arcar com as despesas do processo — a menos que consiga provar o contrário.

Na prática, os tribunais têm exigido documentação concreta, e não só uma declaração genérica. Alguns exemplos do que costuma ser aceito como prova de hipossuficiência para quem tem renda acima do limite legal:

  • Extratos bancários mostrando saldo baixo ou negativo;
  • Comprovantes de dívidas relevantes (financiamentos, empréstimos, cartão de crédito);
  • Despesas médicas contínuas do trabalhador ou de dependentes;
  • Demonstração de que o salário mais alto era temporário e que, no momento da ação, a pessoa está desempregada ou com renda muito menor;
  • Comprovação de que sustenta filhos, pais idosos ou outros dependentes.

Uma declaração de pobreza isolada, sem essas provas, tende a não convencer o juiz quando a renda ultrapassa o limite legal. Foi exatamente essa a discussão enfrentada pela 12ª Turma do TRT-2.

O que diz a Reforma Trabalhista sobre custas e honorários

Outro ponto importante: mesmo quando a gratuidade é concedida, ela não é um cheque em branco. A CLT prevê que, se o trabalhador beneficiário da gratuidade obtiver créditos em outro processo (ou no mesmo) capazes de suportar a despesa, esses valores podem ser usados para pagar honorários e custas. É uma forma que o legislador encontrou para evitar abusos e concentrar o benefício em quem realmente precisa.

Por isso, entrar com uma ação trabalhista assumindo que “tudo é de graça” é uma leitura equivocada da lei — especialmente para trabalhadores com salários mais elevados.

O que decidiu o TRT-2 sobre a gratuidade para renda alta

No caso analisado, a 12ª Turma do TRT-2 negou a gratuidade da Justiça a um trabalhador que recebia salário superior ao limite legal e não apresentou provas concretas de que estava em situação financeira difícil.

O argumento central da decisão foi o de que a simples declaração de hipossuficiência, isoladamente, não é suficiente quando a renda do trabalhador ultrapassa o teto previsto no artigo 790, §3º, da CLT. Nesses casos, é preciso apresentar elementos que demonstrem a real impossibilidade de arcar com as despesas do processo.

O entendimento não é isolado. Diversas turmas dos Tribunais Regionais do Trabalho vêm aplicando essa mesma linha, e o próprio Tribunal Superior do Trabalho (TST) tem debatido a extensão da comprovação exigida.

O que isso significa para quem quer recorrer

Se você é trabalhador com salário acima do limite legal e pretende:

  • Entrar com uma ação trabalhista;
  • Recorrer de uma sentença desfavorável (o que envolve, muitas vezes, o pagamento de custas e do chamado depósito recursal);
  • Discutir verbas rescisórias, horas extras, adicional de insalubridade ou reconhecimento de vínculo,

vale considerar desde o início que a gratuidade não é garantida. Sem ela, o processo pode ficar mais caro — inclusive nos recursos, onde as despesas costumam ser mais altas.

Como o trabalhador pode se preparar antes da ação

A decisão do TRT-2 é um bom lembrete de que planejamento processual não é assunto só de grandes empresas. Para o trabalhador comum, algumas atitudes ajudam a reduzir riscos:

1. Conheça o limite atualizado. O parâmetro é vinculado ao teto do INSS, que é reajustado periodicamente. Antes de propor uma ação, é essencial saber em qual faixa você está: dentro do grupo com presunção automática de pobreza ou fora dele.

2. Reúna documentos que mostrem a sua realidade financeira. Se a sua renda é mais alta, junte comprovantes de despesas fixas, dívidas, dependentes e qualquer situação que reduza o seu poder de pagamento. Quanto mais concreto, melhor.

3. Converse com um advogado de confiança antes de recorrer. Recursos trabalhistas envolvem prazos curtos e custos específicos, como o depósito recursal. Um bom profissional pode avaliar se vale a pena pedir a gratuidade, oferecer garantia alternativa ou até rever a estratégia do processo.

4. Não confunda gratuidade com isenção total. Mesmo quem consegue o benefício pode ter valores descontados de créditos obtidos no processo, conforme a CLT. É importante ir para a audiência com essa expectativa realista.

5. Cuidado com declarações genéricas. Assinar uma declaração de pobreza padrão, sem base real, pode gerar problemas posteriores — inclusive discussões sobre litigância de má-fé, dependendo do caso.

Conclusão: gratuidade continua existindo, mas exige critério

A mensagem prática da decisão da 12ª Turma do TRT-2 é clara: a Justiça gratuita no processo trabalhista não acabou, mas deixou de ser automática para quem tem renda mais alta. O trabalhador que ganha acima do limite legal precisa provar, com documentos, que realmente não tem condições de pagar as despesas do processo.

Para o trabalhador de baixa renda, pouca coisa muda: a presunção de hipossuficiência continua valendo. Para quem está na faixa intermediária ou alta, o recado é de cautela — planejar a ação, reunir provas da situação financeira e conversar com um advogado antes de recorrer é hoje mais importante do que nunca.

O próximo passo, se você pretende ingressar com uma ação ou recorrer de uma sentença, é reunir seus contracheques, extratos e comprovantes de despesas, e buscar orientação jurídica especializada. Assim, você entra no processo sabendo exatamente com o que pode contar — e evita ser surpreendido por uma cobrança de custas que pode pesar no orçamento.

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