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Peic de setembro: menos atraso, mais renda presa a dívidas

Pesquisa mensal da CNC revela um paradoxo no bolso do brasileiro: menos atraso nas contas, porém parcela maior do salário presa em prestações.

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A Peic de setembro, da CNC, mostrou queda da inadimplência das famílias brasileiras no mês.
  • No mesmo período, cresceu a fatia da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas entre quem está endividado.
  • O comprometimento de renda indica quanto do próximo salário já tem destino certo, e níveis acima de cerca de 30% são considerados de risco.
  • Mapear dívidas, trocar as mais caras por linhas mais baratas e evitar novo crédito são passos indicados para quem já sente o aperto.

A edição de setembro da Peic, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), trouxe um dado que, à primeira vista, parece contraditório: menos famílias estão com contas em atraso, mas, ao mesmo tempo, as que estão endividadas comprometem agora uma fatia maior do próprio salário com o pagamento das prestações.

Esse paradoxo diz muito sobre o momento do brasileiro que vive de salário. Para quem acompanha o orçamento mês a mês, a mensagem é importante: pagar as contas em dia não significa, necessariamente, que a vida financeira está folgada. Pode significar justamente o oposto — que mais dinheiro do que antes está indo para quitar prestações, e menos sobra para o resto.

A seguir, veja o que mostra a Peic de setembro, por que a inadimplência caiu enquanto o aperto do orçamento aumentou, o que significa na prática o indicador de comprometimento de renda e o que fazer quando as parcelas já consomem uma fatia grande do salário.

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O que mostra a Peic de setembro sobre o endividamento das famílias

A Peic é uma das pesquisas mais acompanhadas do país quando o assunto é o bolso do consumidor. Todos os meses, ela mede três coisas distintas: quantas famílias têm algum tipo de dívida (cartão de crédito, carnê, financiamento, cheque especial, consignado, entre outros), quantas estão com contas efetivamente em atraso e quanto da renda, em média, está comprometida com essas obrigações.

Na leitura de setembro, o movimento mais chamativo foi a queda da inadimplência — ou seja, do percentual de famílias com contas vencidas e não pagas. Esse é um indicador relevante porque sinaliza que mais consumidores conseguiram renegociar, quitar valores atrasados ou pelo menos manter os pagamentos em dia.

Só que, em paralelo, outro número apontou na direção oposta: a parcela da renda mensal destinada ao pagamento de dívidas subiu. Em outras palavras, entre quem tem dívida, uma porção maior do salário está indo para prestações. Os números específicos de cada indicador na divulgação de setembro ainda precisam ser detalhados:.

Essa combinação — menos atraso, mais comprometimento — é o que torna a leitura dessa edição tão importante para quem precisa decidir se vai pegar crédito, renegociar ou segurar o consumo.

Por que a inadimplência cai enquanto o aperto no orçamento aumenta

A primeira pergunta que surge é natural: se a inadimplência está caindo, o cenário não deveria ser positivo? A resposta é: positivo em parte, mas incompleto. Pagar em dia é melhor do que atrasar, sem dúvida. Só que quando o custo de manter as contas em ordem é destinar uma fatia cada vez maior da renda ao banco, à loja ou à financeira, o fôlego para viver, poupar e consumir desaparece.

Alguns fatores ajudam a entender esse descompasso. Primeiro, muitas famílias podem ter recorrido à renegociação ou a linhas de crédito mais baratas para trocar dívidas caras — como o cartão de crédito e o cheque especial — por parcelamentos mais longos. Isso tira o nome do vermelho e reduz a incidência de juros mais altos, mas estica o pagamento no tempo, aumentando o peso mensal da prestação sobre a renda.

Segundo, o crédito continua circulando. Quando uma família quita uma dívida, muitas vezes abre espaço para contratar outra — seja um financiamento, um empréstimo pessoal ou uma nova fatura parcelada. O resultado é que, mesmo saindo da inadimplência, o consumidor permanece endividado e, em alguns casos, comprometido com um valor mensal ainda maior.

Terceiro, o custo de vida pressiona. Despesas essenciais, como moradia, alimentação, transporte e energia, continuam ocupando espaço no orçamento. Se o salário não acompanha o aumento dessas despesas, qualquer parcela de dívida pesa mais, mesmo que o valor nominal não tenha mudado.

Por isso, a Peic de setembro deve ser lida com atenção dupla: há um sinal de melhora (menos atraso) e um sinal de alerta (mais aperto). Ignorar um dos dois dá uma imagem distorcida do que, de fato, está acontecendo no bolso das famílias.

O que é comprometimento de renda — e por que esse indicador pesa mais do que parece

O comprometimento de renda é, de forma simples, o quanto do seu salário líquido já está prometido para pagar dívidas antes mesmo de você receber. Se você ganha, por exemplo, R$ 3.000 por mês e precisa separar R$ 900 para parcelas de cartão, empréstimo e financiamento, o seu comprometimento é de 30%.

Esse indicador é um dos mais sensíveis para prever estresse financeiro. Isso porque, diferentemente da inadimplência (que é um retrato do passado — você já atrasou), o comprometimento é um retrato do futuro: ele mostra quanto do seu próximo salário já tem destino certo. Quanto mais alto, menos espaço sobra para imprevistos, como uma conta de hospital, um conserto do carro ou uma queda temporária de renda.

Especialistas em finanças pessoais costumam recomendar que o total de dívidas não ultrapasse, de forma saudável, cerca de 30% da renda líquida mensal. Acima disso, qualquer desequilíbrio — um atraso de salário, uma despesa fora do previsto — pode empurrar a família para o atraso. É por isso que o avanço desse indicador na Peic de setembro merece tanta atenção, mesmo em um mês em que a inadimplência caiu.

Além disso, o comprometimento elevado tem um efeito silencioso: ele reduz a capacidade de poupança. Quem precisa destinar boa parte do salário a parcelas simplesmente não consegue formar uma reserva de emergência. Sem reserva, qualquer susto se transforma em novo endividamento. É um ciclo que, uma vez instalado, exige esforço consciente para ser rompido.

Como organizar o orçamento quando a dívida já consome parte grande da renda

Se o seu caso se parece com o retrato da Peic — contas em dia, mas aperto no fim do mês —, alguns passos práticos ajudam a retomar o controle sem recorrer a soluções que apenas adiam o problema.

O primeiro passo é listar todas as dívidas ativas em um único lugar: valor da parcela, prazo restante, taxa de juros cobrada e qual instituição é credora. Esse mapa, por mais desconfortável que seja, é o ponto de partida para qualquer renegociação consciente. Sem ele, decisões são tomadas no escuro.

O segundo passo é identificar as dívidas mais caras. Em geral, cartão de crédito rotativo, cheque especial e crediário de loja cobram juros muito superiores aos de linhas como consignado, financiamento imobiliário ou crédito com garantia. Trocar uma dívida cara por uma mais barata — operação conhecida como portabilidade ou troca de credor — pode reduzir a parcela e liberar renda, desde que o prazo total não aumente a ponto de o custo final crescer. É um cálculo que precisa ser feito com atenção.

O terceiro passo é revisar o orçamento com honestidade. Quais despesas podem ser cortadas temporariamente? Quais assinaturas, serviços pouco usados e consumos por impulso somam, no mês, mais do que você imagina? Pequenos cortes, somados, costumam liberar centenas de reais que podem ser direcionados à quitação de dívidas ou à formação de uma reserva inicial.

O quarto passo é evitar contratar crédito novo enquanto o comprometimento estiver alto. Pode parecer óbvio, mas é na hora do aperto que muitas pessoas recorrem a mais um empréstimo para "respirar" — e, com isso, aprofundam o problema. Antes de pegar qualquer linha, pergunte-se: essa dívida vai substituir uma mais cara ou vai apenas somar à conta?

Por fim, se o aperto estiver grande demais, procure canais oficiais de renegociação, como mutirões promovidos por órgãos de defesa do consumidor e plataformas de negociação direta com os bancos. Em muitos casos, descontos relevantes estão disponíveis, mas só aparecem quando o consumidor procura — e não quando espera a cobrança chegar.

O que observar nos próximos meses

A leitura de setembro é um retrato, não uma tendência fechada. Os próximos meses tendem a ser decisivos porque incluem o fim do ano, período em que o consumo tradicionalmente cresce — com compras de Natal, viagens, matrícula escolar, IPVA e IPTU no horizonte.

Se o comprometimento da renda já está elevado agora, qualquer parcelamento adicional feito nessas datas pode empurrar famílias que estavam equilibradas de volta para a inadimplência no início do ano seguinte. Por isso, se o cenário apontado pela Peic de setembro refletir também a sua realidade, vale encarar este trimestre como o momento ideal para reorganizar o orçamento, mesmo que isso signifique abrir mão de algumas compras.

Menos atraso é, sim, um sinal positivo. Mas renda cada vez mais presa a prestações é um alerta que não pode passar em branco — nem nas estatísticas, nem na sua planilha pessoal.

Referências

  • Confederação Nacional do Comércio (CNC) — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), edição de setembro

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