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Barriga solidária: Justiça obriga INSS a pagar salário-maternidade

Decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul reconhece direito ao benefício mesmo sem gravidez biológica e abre caminho para casos semelhantes no país.

Ricardo Silva

📖 7 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A Justiça Federal de Novo Hamburgo (RS) determinou que o INSS pague os 120 dias de salário-maternidade a uma mulher que atuou como barriga solidária.
  • O INSS havia negado o benefício por entender que o salário-maternidade está vinculado à mãe que fica com a guarda e os cuidados do recém-nascido.
  • A decisão reconhece que o benefício protege a mulher que passou por gestação, parto e puerpério, mesmo sem a maternidade jurídica da criança.
  • Quem tiver o pedido negado pode recorrer ao Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS) e, se necessário, acionar a Justiça Federal.

Uma decisão da Justiça Federal de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, trouxe um precedente importante para mulheres que atuam como barriga solidária e para a interpretação do salário-maternidade pago pelo INSS. No caso analisado, uma segurada que gestou o filho de outra família teve o benefício negado administrativamente e precisou recorrer à Justiça para garantir os 120 dias de afastamento remunerado.

O entendimento judicial contraria a posição inicial do INSS, que historicamente associa o salário-maternidade à condição de mãe biológica, adotante ou à guarda da criança. A decisão amplia o olhar sobre o benefício, considerando que a mulher passou pela gestação, pelo parto e pelo puerpério — justamente o período que a legislação previdenciária busca proteger.

A seguir, você entende o que foi decidido, por que o INSS negou o pedido, como funciona o salário-maternidade na Previdência, o que é a barriga solidária no Brasil e o que fazer se o benefício for recusado em caso parecido.

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O que a Justiça decidiu sobre o salário-maternidade na barriga solidária

A sentença da Justiça Federal gaúcha reconheceu que a segurada tem direito aos 120 dias de salário-maternidade, mesmo tendo entregue a criança à família pretendente após o parto, dentro de um acordo de gestação solidária. O argumento central é que o benefício previdenciário protege a mulher que passou pela gestação e pelo parto, e não apenas o vínculo de maternidade jurídica com o bebê.

Na prática, isso significa que o afastamento remunerado foi reconhecido como um direito ligado à condição física e emocional da gestante — à recuperação do corpo, à amamentação quando houver e aos cuidados pós-parto —, e não exclusivamente à posição de mãe registral da criança.

A decisão é relevante porque, até então, mulheres em situação semelhante que buscavam o benefício junto ao INSS costumavam encontrar barreiras administrativas. Com um precedente judicial favorável, novos pedidos passam a contar com um argumento jurídico mais sólido, ainda que cada caso dependa de análise individual pelos juízes.

Por que o INSS havia negado o benefício

O INSS indeferiu o pedido inicial da segurada por entender que o salário-maternidade estaria vinculado ao exercício da maternidade — ou seja, à mulher que ficará com a guarda e os cuidados do recém-nascido. Como, na barriga solidária, a criança é entregue aos pais pretendentes logo após o nascimento, a autarquia considerou que não haveria o fato gerador do benefício.

Esse tipo de interpretação se apoia em uma leitura restritiva das regras previdenciárias, construída principalmente a partir das hipóteses clássicas previstas em lei: parto, adoção ou guarda judicial para fins de adoção. A gestação por substituição, por ser uma situação relativamente nova e sem regulamentação legislativa específica, acaba ficando em uma zona cinzenta da previdência.

Na esfera administrativa, portanto, o caminho mais comum tem sido a negativa. É por isso que, hoje, a via judicial costuma ser a saída concreta para as mulheres que atuam como gestantes solidárias e precisam se afastar do trabalho após o parto.

Como funciona o salário-maternidade segundo o INSS

O salário-maternidade é um benefício previdenciário pago pelo INSS às seguradas durante o período de afastamento em razão do nascimento ou da chegada de um filho. Entre as regras gerais previstas pela Previdência Social, estão:

  • Duração padrão de 120 dias de afastamento, podendo ser estendida em situações específicas previstas na legislação.
  • Direito garantido às seguradas empregadas, trabalhadoras avulsas, empregadas domésticas, contribuintes individuais, facultativas e seguradas especiais, desde que cumpridos os requisitos.
  • Exigência de carência (número mínimo de contribuições) para algumas categorias, como contribuintes individuais e facultativas. Empregadas, domésticas e avulsas, em regra, não precisam cumprir carência.
  • Possibilidade de concessão em casos de parto, adoção ou guarda judicial para fins de adoção, além de situações como aborto não criminoso.

O ponto discutido no caso da barriga solidária é exatamente este: a legislação não trata de forma expressa a gestação por substituição. A decisão judicial, então, interpretou que a proteção da gestante não pode ser excluída apenas porque a maternidade jurídica ficará com outra família.

Para o leitor que acompanha o tema, vale lembrar: o salário-maternidade é um direito da mulher trabalhadora, pensado para proteger a saúde e a renda em um momento de alta vulnerabilidade — e cada vez mais os tribunais vêm adaptando esse direito às novas realidades familiares.

O que é barriga solidária e como ela funciona no Brasil

A chamada barriga solidária, ou gestação por substituição, acontece quando uma mulher aceita gestar o bebê de outra pessoa ou casal, sem receber pagamento por isso. No Brasil, a prática não é regulamentada por lei federal, mas é disciplinada por normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) para profissionais e clínicas que realizam reprodução assistida.

Entre as diretrizes mais conhecidas estão:

  • A gestante deve ter vínculo familiar com um dos pretendentes, dentro do grau de parentesco permitido pela normativa médica.
  • Não pode haver pagamento ou qualquer forma de comercialização da gestação — daí o nome "solidária".
  • A cessão temporária do útero exige acompanhamento médico e psicológico, além de documentação específica.

Mesmo com essas regras na área da saúde, não existe uma lei previdenciária que trate especificamente da proteção da mulher que atua como barriga solidária. É esse vácuo que a Justiça vem preenchendo caso a caso, como ocorreu no processo julgado em Novo Hamburgo.

Para a mulher que vive essa situação, o ponto prático é: ela passa por uma gestação completa, por um parto e por um período de recuperação como qualquer outra gestante. Afastá-la do direito ao salário-maternidade significaria, na prática, obrigá-la a voltar ao trabalho logo após o nascimento, sem a proteção que a legislação criou justamente para esse momento.

O que fazer se o INSS negar o salário-maternidade em caso de barriga solidária

Se você passou por uma gestação solidária e teve o salário-maternidade negado pelo INSS, há caminhos administrativos e judiciais que podem ser percorridos. Veja um roteiro prático:

  1. Guarde toda a documentação médica — pré-natal, exames, laudos da clínica de reprodução assistida, certidão de nascimento e documentos do acordo de gestação por substituição. Esses papéis são a prova de que você foi, de fato, a gestante.
  2. Peça a carta de indeferimento — ao negar o benefício, o INSS emite um documento com o motivo da recusa. Esse texto é essencial para orientar a defesa.
  3. Avalie o recurso administrativo — é possível recorrer ao Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS), dentro do prazo informado na carta de indeferimento.
  4. Procure orientação jurídica especializada — advogados que atuam em direito previdenciário conseguem avaliar se o caso tem chances concretas na via judicial, como no precedente de Novo Hamburgo.
  5. Considere a ação na Justiça Federal — pedidos previdenciários negados pelo INSS são discutidos na Justiça Federal, e muitas vezes podem tramitar nos Juizados Especiais Federais, que não exigem advogado em causas de menor valor.

Vale reforçar: cada caso é um caso. Uma decisão favorável em outro estado não garante automaticamente o pagamento, mas serve como argumento importante. A tendência, à medida que novas sentenças surgem, é que o entendimento se consolide e, no futuro, até que haja regulamentação específica para proteger a mulher que atua como barriga solidária.

Conclusão: um precedente que fortalece o direito à proteção da gestante

A decisão da Justiça Federal de Novo Hamburgo mostra que o salário-maternidade não é apenas um benefício ligado ao ato de criar uma criança, mas também uma proteção à mulher que atravessa a gestação, o parto e o puerpério. Ao reconhecer o direito aos 120 dias para quem foi barriga solidária, o Judiciário dá um passo importante na adaptação da Previdência Social às novas configurações familiares.

Para a leitora que vive uma situação parecida, o recado prático é claro: a negativa do INSS não é a palavra final. Com documentação organizada, recurso administrativo bem fundamentado e, se necessário, apoio jurídico, é possível buscar o reconhecimento do benefício. E para quem acompanha o tema de direitos previdenciários, fica o aprendizado: a legislação se transforma com a sociedade, e decisões como essa ajudam a construir uma proteção mais justa à mulher trabalhadora.

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Referências

  • Justiça Federal de Novo Hamburgo (RS) — sentença que condenou o INSS a pagar salário-maternidade em caso de gestação por substituição
  • Lei nº 8.213/1991 — regras do salário-maternidade no Regime Geral de Previdência Social
  • Conselho Federal de Medicina (CFM) — normativas sobre reprodução assistida e gestação por substituição no Brasil

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