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Endividamento das famílias bate 6º recorde e vai a 82%

Peic de julho mostra que 82% dos lares brasileiros têm dívidas, sexto recorde seguido; entenda por que o comprometimento da renda é o alerta mais grave.

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Tatiana Botelho

📖 12 min de leitura

O endividamento das famílias brasileiras voltou a bater recorde e acendeu um sinal amarelo que, na leitura de economistas, é mais grave do que parece à primeira vista. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostrou em julho que 82% dos lares brasileiros terminaram o mês com algum tipo de dívida em aberto. É o sexto mês consecutivo de alta e o maior patamar já registrado na série histórica do levantamento.

O número, isolado, já impressiona. Mas o dado que verdadeiramente preocupa quem estuda o comportamento do consumidor não é o total de endividados — é a parte da renda que essas famílias precisam entregar todo mês só para pagar prestações. É esse recorte, chamado de comprometimento de renda, que define se uma família consegue respirar no fim do mês ou se vai empurrar o problema para o mês seguinte, muitas vezes contratando uma dívida nova para cobrir a antiga.

Neste conteúdo, você vai entender o que está por trás desse recorde, quais faixas de renda estão mais expostas, por que o Desenrola 2.0 não conseguiu segurar a curva de crescimento, e — o mais importante — quais são os caminhos práticos para sair do vermelho sem cair em armadilhas que só aprofundam o buraco.

O que mostra a Peic de julho e por que o número de 82% preocupa

A Peic é o principal termômetro do endividamento familiar no Brasil. Ela mede, mês a mês, quantas famílias declaram ter alguma dívida em aberto — cartão de crédito, cheque especial, crédito consignado, financiamento de veículo, carnê de loja, prestação de casa própria — e quantas estão com contas em atraso.

Em julho, o índice cravou 82%. Para dimensionar: significa que, a cada dez casas no país, oito têm pelo menos uma conta a pagar rolando com juros. É o sexto recorde consecutivo, o que descarta a hipótese de ruído estatístico e configura uma tendência clara.

Segundo o Sistema CNC-Sesc-Senac, o cenário reflete a necessidade de medidas que aliviem o bolso do trabalhador, em um contexto em que o crédito, embora disponível, ainda chega ao consumidor com custo elevado. Na leitura de analistas do mercado, esse quadro combina inflação de serviços persistente, custo de vida pressionado nos itens essenciais e ausência de crescimento equivalente da renda real das famílias — o que ajuda a explicar por que mais gente contrata dívida e menos gente consegue quitar.

Outro ponto importante: nem toda dívida é ruim. Financiar uma casa própria, por exemplo, é uma dívida saudável no orçamento familiar. O problema aparece quando a dívida principal é rotativo de cartão, cheque especial ou crédito emergencial de alto custo — modalidades que corroem a renda com juros muito acima da média.

Comprometimento da renda: o dado que pesa mais do que o total de endividados

Se você olhar só para o titular — 82% das famílias endividadas — talvez pense: "tudo bem, endividado não é o mesmo que inadimplente". É verdade. Mas há um indicador dentro da Peic que os analistas consideram ainda mais grave: a parcela da renda mensal que está comprometida com pagamento de dívidas.

Quanto maior essa fatia, menor o espaço que sobra para gastos essenciais como alimentação, energia, transporte, remédios e educação. Quando esse comprometimento passa de determinado ponto, qualquer imprevisto — uma doença, uma perda de emprego, um conserto do carro — empurra a família diretamente para o atraso.

A economista Carla Beni, professora da FGV, tem chamado atenção para o fato de que muitas famílias vêm tomando novas dívidas não para consumir bens duráveis ou investir, e sim para conseguir chegar ao fim do mês. Uma leitura possível desse comportamento — e que costuma ser feita por analistas do setor — é a de que ele funciona como um endividamento de subsistência, padrão que, historicamente, antecede ciclos de inadimplência mais aguda.

A lógica é simples: quando alguém pega crédito para pagar a conta de luz ou o supermercado, o valor emprestado não gera nenhuma renda futura. Ele apenas transfere a dor para o mês seguinte, agora com juros somados. É por isso que economistas insistem que, mais importante do que quanto se deve, é para que se está devendo e em que taxa.

Quem está mais exposto: recorte por faixa salarial

O endividamento não atinge todo mundo do mesmo jeito. A Peic tradicionalmente mostra que famílias com renda mensal menor são as que aparecem mais endividadas em termos proporcionais — e, principalmente, as que têm o maior percentual da renda travado em pagamento de dívidas.

Quem ganha até dois ou três salários mínimos costuma ter menos acesso a linhas de crédito baratas, como financiamento imobiliário ou consignado com taxas competitivas, e acaba recorrendo às modalidades mais caras do mercado: cartão de crédito rotativo, cheque especial, empréstimo pessoal sem garantia e carnês de loja. São exatamente essas linhas que aparecem no topo das mais utilizadas pelas famílias endividadas.

Já famílias de renda mais alta tendem a ter dívidas de maior valor absoluto, mas concentradas em modalidades de juros mais baixos — como financiamento imobiliário e crédito com garantia. Isso faz uma diferença enorme no orçamento: com o mesmo comprometimento percentual, uma família de renda mais alta paga muito menos juros no total do que uma família de baixa renda.

Para o trabalhador que ganha até dois salários mínimos, esse recorte tem um efeito prático imediato: qualquer decisão de contratar crédito precisa ser tomada com atenção redobrada, porque a mesma parcela que cabe no bolso de quem ganha mais pode inviabilizar o orçamento de quem ganha menos.

Cartão de crédito e cheque especial: o combustível do endividamento

A Peic também mostra, com regularidade, que o cartão de crédito é de longe a modalidade de dívida mais citada pelas famílias — muito à frente de qualquer outra. Isso acontece porque o cartão está em quase todo lugar: supermercado, farmácia, aplicativo de transporte, conta de streaming, boleto de escola. É prático, é rápido, e é justamente aí que mora o risco.

O problema não é o cartão em si. Se a fatura é paga integralmente até o vencimento, o cartão funciona como um meio de pagamento praticamente sem custo. O problema começa quando o consumidor paga apenas o valor mínimo ou parcela a fatura. Nesse momento, entra em cena o crédito rotativo, historicamente uma das linhas de crédito mais caras da economia brasileira, com juros que superam com folga qualquer outra modalidade de crédito ao consumidor.

O cheque especial segue lógica parecida: é um limite disponível na conta corrente, aparentemente "de graça", mas que passa a cobrar juros elevadíssimos assim que o saldo fica negativo. Quem entra no cheque especial e não sai rapidamente vê a dívida crescer de forma acelerada.

O caminho recomendado por especialistas em orçamento doméstico costuma ser o mesmo: se a fatura do cartão já virou uma bola de neve, o primeiro passo é trocar essa dívida cara por uma linha de crédito de juros mais baixos — como o consignado, quando existe direito a ele — e cortar o uso do cartão até reorganizar o orçamento.

Desenrola 2.0 ajudou, mas por que a conta continua subindo?

O governo federal reabriu o programa Desenrola Brasil em uma nova rodada — apelidada informalmente de Desenrola 2.0 — com o objetivo de permitir que consumidores negociem dívidas em atraso com descontos e condições facilitadas. O programa de fato retirou parte dos consumidores da lista dos negativados e ajudou muita gente a limpar o nome.

Mas, como economistas vinham alertando, o Desenrola trata do estoque da dívida, não da causa. Ou seja: ele permite renegociar o que já está em atraso, mas não muda a razão pela qual a pessoa entrou em atraso — que costuma ser um descompasso estrutural entre a renda mensal e o custo de vida.

O resultado é o que a Peic está captando: mesmo com um programa federal ativo de renegociação, o total de famílias endividadas seguiu subindo mês a mês e cravou o sexto recorde. Carla Beni observa, em análises recentes, que renegociar é apenas metade do trabalho; a outra metade — e a mais difícil — é reorganizar o orçamento para não voltar a entrar no vermelho pelos mesmos motivos.

Em outras palavras: sair do Serasa é ótimo, mas se a família volta a usar o cartão da mesma forma no mês seguinte, em pouco tempo estará no mesmo lugar — só que agora sem o desconto do programa.

Como sair do vermelho sem afundar mais: passo a passo prático

Para quem se encaixa nas famílias endividadas retratadas pela Peic, o caminho de saída não é mágico, mas existe. Ele passa por quatro movimentos práticos:

1. Levantar todas as dívidas em uma única planilha. Muita gente perde o controle porque tem dívidas espalhadas: cartão, loja, banco, empréstimo com parente, boleto atrasado. Antes de qualquer decisão, é preciso ter clareza do total devido, da taxa de juros de cada dívida e do valor da parcela mensal.

2. Priorizar as dívidas mais caras. Não adianta pagar adiantado a parcela do financiamento imobiliário, que tem juros baixos, e deixar rolar o rotativo do cartão. A regra é sempre atacar primeiro a dívida com maior taxa de juros. Normalmente será o rotativo do cartão, o cheque especial ou o crediário de loja.

3. Trocar dívida cara por dívida barata. Este é o movimento chamado de portabilidade de dívida. Se o consumidor tem uma dívida no cartão com juros altíssimos e tem acesso a uma linha mais barata — como o crédito consignado no caso de aposentados, pensionistas ou trabalhadores CLT com esse benefício — vale considerar migrar. Isso não elimina a dívida, mas reduz o custo dela.

4. Reorganizar o orçamento para não voltar a se endividar. Sem essa etapa, todo o esforço anterior se perde. É preciso identificar o que precisa ser cortado, mesmo temporariamente, e ajustar o padrão de consumo à renda real disponível.

Quando o consignado entra como saída (e quando NÃO entra)

Uma dúvida frequente do leitor endividado é: o empréstimo consignado é uma boa saída para trocar a dívida do cartão?

A resposta curta é: pode ser, sim, desde que o consumidor entenda exatamente as regras e as respeite. O consignado costuma ter as menores taxas de juros do mercado de crédito ao consumidor porque a parcela é descontada diretamente do benefício ou do salário, o que reduz o risco para a instituição financeira.

Para aposentados e pensionistas do INSS, a regra atual permite contratar consignado com prazo de até 108 meses. A margem consignável total é de 40% do valor do benefício, sendo que 5% desses 40% são reservados exclusivamente para cartão benefício ou cartão consignado. Na prática: se o aposentado já tem algum cartão benefício ou cartão consignado contratado, sobram 35% para o empréstimo consignado; se ele não tem nenhum cartão desse tipo, os 40% inteiros podem ir para o empréstimo. A primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação, o que ajuda quem precisa de fôlego imediato no orçamento.

Para o trabalhador CLT com carteira assinada, o prazo máximo é de 96 meses e a margem consignável é de 35% do salário. Nessa modalidade, atualmente só existe empréstimo consignável — não há cartão vinculado — de forma que os 35% inteiros ficam disponíveis para o empréstimo.

Já quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) precisa de atenção redobrada — e aqui é importante corrigir uma informação equivocada que circula com frequência. Por lei, o BPC/LOAS pode, sim, ser usado para contratação de empréstimo consignado; não há vedação legal a essa contratação. O que acontece hoje, no entanto, é que o alto volume de cessações e revisões desse benefício levou várias instituições autorizadas a recuar na oferta desse consignado. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto às instituições está reduzida no momento. Quem depende do BPC deve procurar diretamente as instituições autorizadas para verificar se há oferta ativa, sem contar com esse recurso como certo.

Mas há um alerta importante que nenhuma decisão financeira responsável pode ignorar: o consignado só faz sentido como troca de dívida cara por dívida barata. Contratar consignado para consumir mais, para comprar item que não é essencial ou para "aliviar" o mês sem mudar o padrão de gastos é receita para virar dívida crônica. A parcela desconta direto do benefício ou do salário todo mês, por vários anos — e reduz permanentemente o valor líquido que entra na conta.

O que esperar dos próximos meses

Com seis recordes seguidos, dificilmente o próximo levantamento da Peic trará reversão automática do quadro. Analistas apontam que a inflexão dessa curva depende de três fatores combinados: melhora real da renda das famílias, redução das taxas de juros das linhas de crédito ao consumidor, e — talvez o mais difícil — uma mudança comportamental do próprio consumidor na relação com o cartão de crédito e com o cheque especial.

Enquanto esses fatores não se combinam, o recado para quem lê essa notícia e se identifica com o retrato traçado pela Peic é direto: o momento pede planejamento, não improviso. A diferença entre uma família que sai do vermelho em seis meses e outra que continua patinando por anos costuma estar menos na renda e mais na organização — em saber exatamente o que se deve, para quem se deve, a que taxa se deve, e em ter um plano concreto para reduzir isso mês a mês.

O endividamento em 82% é um retrato coletivo, mas a saída dele é sempre individual. Começa hoje, com a caneta na mão e todas as faturas abertas em cima da mesa.


Referências

  • Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) — Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), edição de julho/2026.
  • Declaração do Sistema CNC-Sesc-Senac (José Roberto Tadros) sobre o cenário de endividamento das famílias.
  • Análises da economista Carla Beni (FGV) sobre o padrão atual de contratação de crédito pelas famílias brasileiras.
  • Regras vigentes de crédito consignado para beneficiários do INSS e trabalhadores CLT (prazos e margens consignáveis).

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