Move Brasil: só 17,7 mil entregadores pegaram crédito
Programa de crédito para entregadores de aplicativo tem baixa procura e expõe os obstáculos que o trabalhador por app enfrenta para conseguir empréstimo no mercado tradicional.
Ricardo Silva
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Resumo em 30 segundos
- Apenas 17,7 mil entregadores de aplicativo contrataram crédito pelo programa Move Brasil, segundo dados oficiais.
- O público potencial do programa é estimado em até 1,2 milhão de trabalhadores, o que coloca a adesão em torno de 1,5%.
- Falta de divulgação dentro dos apps, concorrência das fintechs de antecipação e informalidade do vínculo ajudam a explicar a baixa procura.
- Antes de contratar, o entregador deve comparar o CET, dimensionar a parcela pelo mês ruim e desconfiar de taxas cobradas para liberar o empréstimo.
O programa Move Brasil, criado para facilitar o acesso a crédito dos trabalhadores de aplicativos de entrega, está mostrando um desempenho bem abaixo do que o governo projetava quando lançou a iniciativa. Dados oficiais apontam que apenas 17,7 mil entregadores efetivamente contrataram um empréstimo pelo programa, um número modesto diante de um público potencial estimado em até 1,2 milhão de trabalhadores.
Em termos práticos, a adesão corresponde a algo em torno de 1,5% do universo que, em tese, poderia aproveitar a linha.
Se você trabalha com entregas por aplicativo, provavelmente já se deparou com a dificuldade de pedir dinheiro emprestado em banco: sem holerite, sem comprovante formal de renda e sem CNPJ consolidado, o acesso ao crédito costuma ser caro ou inviável. O Move Brasil nasceu para resolver justamente esse gargalo. Mas, pelo que os números mostram, o remédio ainda não está chegando no paciente.
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Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
Nesta reportagem, você vai entender o que é o programa, por que a adesão está tão abaixo do esperado, quem pode participar, quais são as alternativas de crédito disponíveis hoje e o que observar antes de assinar qualquer contrato.
O que é o Move Brasil e para quem ele foi desenhado
O Move Brasil é uma linha de crédito voltada para trabalhadores de plataformas digitais de entrega — os populares entregadores de aplicativo, categoria que inclui quem roda de moto, bike ou a pé para empresas de delivery. A proposta central do programa é oferecer condições melhores do que as encontradas no mercado aberto para um público que, formalmente, não tem vínculo empregatício e, por isso, tende a ser enquadrado como de alto risco pelos bancos tradicionais.
A ideia por trás do desenho é usar informações do próprio histórico de trabalho na plataforma — como tempo de atividade, volume de corridas e constância de ganhos — para substituir, em parte, o papel que o contracheque cumpre no crédito consignado tradicional do CLT. Em outras palavras, o aplicativo serve como uma espécie de "comprovante de renda alternativo".
O público-alvo estimado em até 1,2 milhão de pessoas considera o contingente de entregadores ativos nas principais plataformas que operam no Brasil. É um universo heterogêneo: tem quem faz da entrega a renda principal, quem complementa um salário CLT nas horas vagas e quem usa como bico esporádico. Essa diversidade, como vamos ver, é parte do problema de adesão.
Por que a adesão ao Move Brasil ficou tão abaixo do esperado
A diferença entre os 17,7 mil contratos efetivamente realizados e o potencial de 1,2 milhão de trabalhadores é grande demais para ser explicada por um único motivo. Alguns fatores ajudam a entender o cenário.
O primeiro é a falta de divulgação direta ao trabalhador. Boa parte do entregador descobre linhas de crédito por indicação de colega, por anúncio dentro do próprio aplicativo ou por material enviado pela plataforma. Quando o programa depende de uma mobilização ativa do trabalhador para se cadastrar — e não aparece dentro da jornada natural dele no app —, a conversão despenca.
O segundo é a desconfiança histórica desse público em relação a crédito. O entregador costuma já ter vivido experiências ruins com cheque especial, cartão rotativo ou empréstimo pessoal caro. Quando aparece uma nova linha, a reação natural é checar o CET (Custo Efetivo Total), o número de parcelas, se há tarifa escondida — e muita gente desiste no meio do processo justamente por falta de clareza.
O terceiro fator é a concorrência das fintechs. Nos últimos anos, surgiram várias plataformas de crédito que oferecem antecipação de recebíveis para quem trabalha por app — ou seja, o trabalhador adianta parte do que vai ganhar nas próximas corridas em troca de uma taxa. Para quem precisa de dinheiro rápido para abastecer a moto ou pagar uma conta até o fim da semana, essa modalidade é mais ágil do que entrar na fila de um programa governamental, mesmo que, no longo prazo, saia mais cara.
Por fim, há um elemento que atravessa todos os outros: a informalidade da relação de trabalho. O entregador de aplicativo, hoje, não é CLT. Isso significa que ele não tem a mesma proteção contratual nem o mesmo poder de desconto automático em folha que caracteriza o consignado tradicional. Qualquer tentativa de replicar o modelo do consignado para esse público esbarra nessa diferença estrutural.
Como o Move Brasil se compara ao crédito consignado tradicional
Para entender por que o Move Brasil é uma peça importante — mesmo com baixa adesão —, vale comparar com o que o trabalhador CLT tem hoje. No regime da Consolidação das Leis do Trabalho, o empréstimo consignado privado permite que o trabalhador comprometa até 35% do salário em desconto automático na folha de pagamento, com prazo máximo de 96 meses [REG].
Essa estrutura reduz drasticamente o risco para o banco, porque a parcela sai antes de o salário cair na conta do trabalhador. Resultado: juros bem menores que os de um empréstimo pessoal comum.
O entregador de aplicativo, por não ser CLT, está fora dessa engrenagem. Ele não tem folha de pagamento, não tem FGTS e não tem o vínculo formal que serve de garantia. É aí que entra a lógica do Move Brasil: tentar criar uma garantia alternativa a partir do histórico na plataforma, aproximando (ainda que de longe) as condições de quem é informal das condições de quem tem carteira assinada.
Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.
Essa comparação é central. Enquanto o CLT pode brigar por juros baixos no consignado tradicional, o entregador costuma estar exposto às taxas mais altas do crédito pessoal e do rotativo do cartão. Qualquer programa que consiga puxar esse público para uma linha de risco menor tende a representar economia significativa ao longo do contrato — desde que a adesão aconteça.
Quais são os obstáculos práticos para o entregador contratar
Além das razões estruturais, existem barreiras concretas que ajudam a explicar os números modestos do Move Brasil. Vale listar os principais obstáculos que o entregador relata na hora de buscar crédito:
- Comprovação de renda: mesmo com histórico no app, muitos bancos ainda exigem documentos que o trabalhador autônomo não tem na forma convencional (holerite, declaração de IR com rendimentos regulares, extratos consolidados).
- Score de crédito baixo ou inexistente: parte dos entregadores é jovem, está começando a vida financeira ou passou por restrição no passado, o que derruba a aprovação automática.
- Burocracia de cadastro: cada banco parceiro pode pedir um conjunto de documentos diferente, e o entregador — que trabalha turnos longos — raramente tem tempo e disposição para abrir várias contas e esperar análise manual.
- Falta de clareza sobre o custo final: quando a oferta não mostra, logo de cara, o valor da parcela, o número de meses e o CET, o trabalhador perde a confiança e desiste.
- Receio de endividamento: entregador que já passou por período de queda nas corridas tem medo de assumir compromisso fixo mensal sem saber como vai estar sua renda daqui a seis meses.
Tudo isso compõe um quadro em que, por mais que exista uma linha específica, o caminho entre "eu preciso de dinheiro" e "eu contratei pelo programa" ainda é longo demais para a maioria.
O que o entregador deve avaliar antes de contratar crédito
Independentemente de o crédito vir do Move Brasil, de uma fintech, de um banco digital ou do cartão de crédito, alguns cuidados devem ser inegociáveis. O trabalhador por aplicativo tem renda variável — e esse é o ponto que mais pesa na hora de decidir se vale a pena pegar emprestado.
1. Faça as contas com a sua pior semana, não com a melhor. Se nos últimos três meses você rodou muito, pode se sentir confortável para pegar um valor alto. Mas o que acontece se, nos próximos três meses, chover todo fim de semana ou o aplicativo mudar o cálculo das corridas? A parcela não cai. A regra de bolso é simples: a prestação não deve comprometer mais do que você consegue pagar em um mês ruim.
2. Compare o CET, não só a taxa. O Custo Efetivo Total inclui juros, IOF, tarifas e seguros embutidos. Duas linhas com a mesma "taxa" podem ter CETs muito diferentes. É esse número, por lei, que precisa estar no contrato — e é por ele que você deve decidir.
3. Prefira parcelas fixas que você consegue projetar. Linhas com juros variáveis ou com cobrança atrelada a performance (porcentagem sobre o que você ganha na semana) podem parecer confortáveis no começo, mas tiram sua previsibilidade financeira.
4. Desconfie de aprovação automática em segundos. Crédito saudável exige análise. Oferta que libera dinheiro na hora, sem checar praticamente nada, costuma vir com juros altíssimos justamente porque o risco está sendo compensado no preço.
5. Nunca pague taxa para "liberar" o empréstimo. Instituição séria — bancos regulados pelo Banco Central e cooperativas autorizadas — não cobra adiantado para liberar valor. Qualquer pedido de depósito, Pix antecipado ou pagamento de "seguro" antes de o dinheiro cair na sua conta é golpe.
O que esperar do crédito para entregadores daqui para frente
Os números do Move Brasil mostram menos um fracasso e mais um retrato do tamanho do desafio. Levar crédito barato a uma categoria sem vínculo CLT, com renda variável e com baixa familiaridade com o sistema financeiro tradicional é uma tarefa que vai exigir ajustes de desenho, mais integração com as plataformas de entrega e, principalmente, muito mais informação chegando até o trabalhador.
Para o entregador que está lendo esta matéria, a mensagem prática é dupla. De um lado, existem sim linhas pensadas para o seu perfil, e elas tendem a ser mais vantajosas do que apelar para o rotativo do cartão ou para empréstimos pessoais de banco digital. Vale pesquisar, perguntar, comparar. De outro lado, nenhuma linha de crédito — nem a mais barata do mercado — resolve problema de renda insuficiente. Crédito ajuda a atravessar uma situação pontual (trocar peça da moto, cobrir uma emergência, estruturar um gasto grande em parcelas menores), mas vira armadilha quando é usado para fechar o mês todo mês.
Se o Move Brasil conseguir reduzir fricção no cadastro, divulgar o programa dentro dos próprios aplicativos de entrega e deixar o custo final transparente para o trabalhador, a tendência é que os 17,7 mil contratos de hoje cresçam de forma consistente. Até lá, o recado para quem roda com a bag nas costas é o mesmo de sempre: antes de assinar qualquer contrato, pare, leia, calcule e compare. O crédito certo é aquele que cabe no seu pior mês — não no seu melhor.
Próximo passo prático: se você é entregador e está pensando em contratar, levante antes três informações sobre a oferta — valor da parcela, número de parcelas e CET — e compare com pelo menos duas alternativas. Essa comparação simples, feita no papel, costuma economizar milhares de reais ao longo do contrato.
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Referências
- Ministério do Trabalho e Emprego — dados de adesão ao programa Move Brasil
- Resolução CMN sobre consignado privado CLT — limite de 35% da margem e prazo máximo de 96 meses
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