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Inadimplência deve seguir em alta em 2026, projeta Citi

Projeção do Citi indica que a inadimplência das famílias brasileiras deve continuar subindo em 2026, mesmo com mais crédito e liquidez no mercado.

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Tatiana Botelho

📖 7 min de leitura

A oferta de crédito no Brasil segue em expansão e há mais dinheiro disponível no mercado, mas isso não significa alívio para o bolso das famílias. Uma projeção divulgada por analistas do Citi aponta que a inadimplência deve continuar subindo ao longo de 2026, mesmo em um cenário de maior liquidez. Para quem convive com contas atrasadas — ou está prestes a atrasar — essa aparente contradição merece atenção, porque explica por que tomar mais crédito, hoje, pode empurrar a família para um buraco ainda mais fundo amanhã.

A lógica intuitiva diz que, quanto mais crédito disponível, menos gente deixaria de pagar. Afinal, seria mais fácil trocar uma dívida cara por outra mais barata, ou conseguir um empréstimo para cobrir uma emergência. Só que os dados de comportamento das famílias mostram algo diferente: o crédito abundante costuma ser usado para pagar dívida antiga, e não para resolver o problema de fundo, que é a renda apertada diante do custo de vida. Nesta matéria, você vai entender por que os calotes tendem a crescer mesmo com bancos emprestando mais, quais setores estão mais pressionados e o que fazer para não cair na chamada armadilha do crédito fácil.

Por que mais crédito e mais liquidez não seguram a inadimplência

A leitura do Citi é que a economia brasileira segue com juros ainda elevados, inflação de serviços persistente e um endividamento das famílias em patamar historicamente alto. Nesse ambiente, mesmo quando os bancos ampliam a oferta de linhas — cartão, cheque especial, crédito pessoal, financiamento — o novo empréstimo raramente é usado para consumo produtivo. Ele entra, na prática, para tampar buracos de outras dívidas.

É o que os especialistas chamam de rolagem: o consumidor pega uma linha nova só para pagar a parcela vencida de outra linha. Isso adia o problema, mas amplia o custo total, porque juros continuam correndo sobre um saldo devedor cada vez maior. Quando esse ciclo se estende por muitos meses, chega um ponto em que a família não consegue nem pagar o mínimo do cartão, nem tomar novo empréstimo — porque o nome já está negativado e a capacidade de pagamento estourou. Aí a inadimplência aparece nos números oficiais.

Por isso, ao contrário do que parece, um mercado de crédito aquecido pode conviver com inadimplência crescente. Mais gente tomando crédito hoje significa mais gente vulnerável a atrasar amanhã, principalmente se a renda não acompanhar o ritmo dos compromissos assumidos.

Onde a inadimplência está subindo mais rápido no Brasil

O estresse financeiro das famílias não é homogêneo. Ele se concentra em algumas frentes específicas, e entender isso ajuda a saber onde é mais arriscado assumir novas parcelas neste momento.

O cartão de crédito segue como o principal vilão. É a linha mais cara do sistema financeiro brasileiro, com juros que podem passar de 400% ao ano no rotativo. Quando o consumidor não paga a fatura integral, o saldo remanescente vira dívida com esses juros altíssimos, e em pouco tempo o valor devido dobra ou triplica. Boa parte da inadimplência que aparece nos indicadores nasce aí.

O cheque especial vem logo atrás, com uma dinâmica parecida: taxa elevada, uso contínuo e efeito bola de neve. Já as linhas de crédito pessoal sem garantia (aquelas que qualquer pessoa contrata pelo aplicativo do banco) também mostram deterioração, especialmente entre famílias de renda mais baixa que já operam com pouca folga.

Os financiamentos de longo prazo, como o de veículos, aparecem em outro grupo. Nesses casos, o atraso geralmente vem depois de meses de aperto — e costuma coincidir com o momento em que a família já esgotou o cartão, o cheque especial e o crédito pessoal, sem alternativa a não ser deixar de pagar a parcela do carro.

O paradoxo do consignado e das linhas com garantia

Enquanto a inadimplência sobe nas linhas mais caras, cresce a busca por linhas com juros menores, especialmente as com desconto direto em folha ou benefício. É aí que entram o empréstimo consignado para trabalhador CLT e o empréstimo consignado para aposentados e pensionistas do INSS.

Essas modalidades têm taxa bem menor porque o desconto é automático e o risco de calote, para o banco, é menor. Mas há um cuidado essencial: quem migra dívida cara (cartão, cheque especial) para consignado só resolve o problema se, ao mesmo tempo, cortar o consumo que gerou a dívida original. Caso contrário, a pessoa apenas trocou de dívida — e agora, com uma parte do salário ou do benefício comprometida na fonte, tem ainda menos dinheiro disponível para o mês, o que a empurra de volta para o cartão. Em poucos meses, ela volta a acumular dívida cara em cima da dívida barata que já contratou.

Outro ponto importante: o consignado tem margem limitada por regra. Para aposentados e pensionistas do INSS, a margem total é de 40% do benefício, sendo 5% reservados para cartão consignado ou cartão benefício. Ou seja, se a pessoa tem cartão, sobram 35% para o empréstimo consignado; se não tem cartão, os 40% inteiros podem ir para o empréstimo. O prazo máximo é de 108 meses. Já para o trabalhador CLT, a margem é de 35%, com prazo de até 96 meses. Isso significa que existe um teto natural para quanto se pode trocar de dívida — quando esse teto é atingido, a família volta a ficar exposta às linhas caras.

O risco de sair de uma armadilha e cair em outra é real, e é uma das razões pelas quais o total de crédito na economia pode crescer sem que a inadimplência ceda.

Como se proteger da armadilha do crédito fácil

Se a projeção de piora da inadimplência se confirmar, milhões de brasileiros que hoje estão no limite tendem a atravessar a linha do atraso nos próximos meses. Alguns cuidados práticos ajudam a evitar esse destino.

O primeiro é fazer um raio-x completo das dívidas antes de tomar qualquer nova. Isso significa listar todas as parcelas em aberto, com valor, taxa de juros e prazo restante. Sem esse mapa, qualquer decisão vira aposta. O segundo passo é olhar para o comprometimento da renda: se as parcelas mensais somam mais de 30% do que entra por mês, a família já está em zona de alerta.

Quem ainda paga as contas em dia, mas sente o aperto, deve priorizar quitar a dívida mais cara primeiro — normalmente o rotativo do cartão e o cheque especial. Renegociar diretamente com o banco antes do atraso costuma resultar em condições melhores do que renegociar depois de negativado.

Já quem já está inadimplente pode buscar mutirões de renegociação, propostas de acordo com desconto e a portabilidade de dívida entre instituições, quando fizer sentido. É importante desconfiar de ofertas que prometem “limpar o nome” mediante pagamento antecipado a intermediários: cobrança de dívida negociada é feita pelo próprio credor, e não por atravessadores.

Por fim, evitar tomar crédito novo para consumo enquanto houver dívida cara em aberto é regra de sobrevivência financeira. Comprar parcelado no cartão sem folga no orçamento é o caminho mais curto para o rotativo — a mesma porta de entrada da inadimplência que os analistas projetam continuar crescendo.

O que observar nos próximos meses

Alguns indicadores dão o termômetro de para onde a inadimplência caminha e vale acompanhar. O nível de comprometimento de renda das famílias, divulgado periodicamente pelo Banco Central, mostra quanto do salário está sendo consumido por parcelas. Os relatórios mensais do Banco Central sobre estatísticas monetárias e de crédito trazem o saldo total de dívidas e a taxa média de juros por modalidade. E os dados de inadimplência do próprio sistema financeiro nacional indicam se os atrasos acima de 90 dias estão avançando ou recuando.

Se esses indicadores continuarem se deteriorando ao longo de 2026, é sinal de que a projeção mais pessimista está se confirmando — e de que a hora de organizar as contas em casa é agora, antes que o próprio nome entre para a estatística. Mais crédito no mercado não é sinônimo de mais saúde financeira; muitas vezes, é justamente o oposto. Quem entender essa lógica primeiro terá mais chance de atravessar o ciclo sem prejuízo permanente ao orçamento.

Referências

  • Relatório/analistas do Citi sobre inadimplência no Brasil, via cobertura da Folha de S.Paulo — Mercado, 20/08/2026.

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