INSS: afastamentos por vício em apostas batem recorde em 2026
Benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0 (jogo patológico) crescem no ritmo das bets e já ultrapassam todo o volume registrado em 2025
Anderson Coelho
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Resumo em 30 segundos
- Até agosto de 2026, o INSS concedeu 377 benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0, superando os 312 de todo o ano de 2025.
- Desde junho de 2023, a Previdência já pagou cerca de R$ 4,8 milhões em auxílios-doença ligados ao jogo patológico; só em 2026, foram cerca de R$ 1,9 milhão.
- São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná concentram a maior parte dos afastamentos com CID F63.0 registrados desde 2023.
- O trabalhador com ludopatia pode pedir auxílio-doença mediante laudo médico, perícia do INSS, carência de 12 contribuições e qualidade de segurado.
O avanço das apostas online no Brasil começou a aparecer de forma concreta nas contas da Previdência Social. Até agosto de 2026, o INSS já havia concedido 377 benefícios por incapacidade temporária — o antigo auxílio-doença — a trabalhadores diagnosticados com jogo patológico, o transtorno registrado no CID-10 sob o código F63.0. É mais do que todo o volume de 2025, quando foram 312 concessões no ano inteiro. Em números absolutos ainda é pouco perto da fila do INSS, mas o ritmo de crescimento e o perfil das pessoas afastadas chamaram a atenção da área técnica da Previdência.
Somado o acumulado desde junho de 2023 — quando os registros com CID F63.0 passaram a ser monitorados de forma mais sistemática — a Previdência já desembolsou cerca de R$ 4,8 milhões em auxílios por incapacidade temporária ligados ao vício em apostas. Só em 2026, até agosto, foram aproximadamente R$ 1,9 milhão em pagamentos sob esse código.
O valor é pequeno diante do rombo que as bets provocam em outras frentes do orçamento familiar e público, mas tem uma leitura importante: é a primeira vez que o custo do vício em jogo aparece de forma rastreável dentro de um benefício previdenciário.
O que você vai encontrar nesta reportagem
Esta reportagem explica o que mudou em 2026, como o INSS classifica o jogo patológico, quanto o Brasil já perdeu com apostas segundo levantamentos oficiais, em quais estados o problema mais aparece e como o trabalhador que desenvolveu o transtorno pode pedir o auxílio-doença.
O que é ludopatia e por que ela virou caso de INSS
Ludopatia é o nome popular do jogo patológico, um transtorno mental classificado pela Organização Mundial da Saúde dentro do grupo dos transtornos do controle de impulsos e registrado no CID-10 com o código F63.0. Não se trata de "falta de vontade" nem de uma escolha ruim pontual: é um quadro clínico em que a pessoa perde o controle sobre o ato de apostar, continua jogando apesar das perdas, mente sobre o comportamento, deixa de cumprir obrigações financeiras e, em muitos casos, chega a quadros graves de ansiedade, depressão, insônia e ideação suicida.
Quando esse quadro impede o trabalhador de exercer a profissão, ele passa a ter direito ao mesmo tratamento previdenciário de qualquer outra doença incapacitante. Na prática, isso significa que, uma vez comprovada a incapacidade por perícia médica federal, o INSS concede o benefício por incapacidade temporária (ex-auxílio-doença) ou, nos casos mais severos e de longa duração, pode avaliar a conversão em aposentadoria por incapacidade permanente (ex-aposentadoria por invalidez). Os R$ 4,8 milhões já pagos referem-se somente aos benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0 — ou seja, afastamentos com previsão de retorno ao trabalho.
O salto no ambulatório especializado do Hospital das Clínicas de São Paulo ajuda a entender o pano de fundo: a procura por tratamento de transtornos do impulso ligados a apostas cresceu de forma expressiva depois da popularização das bets no celular, com pacientes cada vez mais jovens e com renda mais baixa. Esse é o mesmo grupo que historicamente usa o INSS como principal rede de proteção quando adoece.
377 afastamentos até agosto: o recorde de concessões de 2026
O dado que define o momento atual é o volume de concessões, não o valor desembolsado. Até agosto de 2026, o INSS tinha concedido 377 benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0, contra 312 em todo o ano de 2025. Em oito meses, portanto, o sistema já havia superado em cerca de 21% o total de 12 meses do ano anterior — e o número tende a continuar subindo até o fechamento de dezembro.
Quando se olha a série histórica desde 2023, o crescimento é ainda mais nítido. Os registros começaram em patamar baixo no segundo semestre daquele ano, cresceram em 2024, saltaram em 2025 e aceleraram em 2026. Esse padrão acompanha, com defasagem de meses, a entrada em escala das casas de apostas online e a liberação do mercado regulado de bets no país.
Vale a ressalva técnica: nem todo trabalhador com transtorno de jogo é afastado com o código F63.0. Muitos casos são classificados sob diagnósticos vizinhos, como depressão (F32), transtornos de ansiedade (F41) ou episódios de burnout, o que faz com que o número oficial seja considerado um piso — a realidade por trás das perícias deve ser maior do que a estatística formal consegue capturar.
R$ 4,8 milhões em três anos: quanto a Previdência já pagou
O acumulado de R$ 4,8 milhões reúne o total gasto pelo INSS com auxílios por incapacidade temporária registrados sob CID F63.0 entre junho de 2023 e agosto de 2026. Esse valor não inclui aposentadorias por incapacidade permanente nem benefícios de outras naturezas; é um recorte restrito ao auxílio-doença concedido com o diagnóstico específico de jogo patológico.
Distribuído no tempo, o impacto fica assim:
- O gasto anual era modesto em 2023 e 2024, acompanhando o número ainda baixo de concessões;
- Em 2025, com 312 concessões no ano, o desembolso dobrou em relação ao ano anterior;
- Em 2026, até agosto, o INSS já havia pago cerca de R$ 1,9 milhão em benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0 — valor que, mantido o ritmo, deve fechar o ano no maior patamar da série.
Como cada benefício dura, em média, poucos meses — e boa parte dos segurados retorna ao trabalho após o período de tratamento —, o custo unitário por caso tende a ser baixo. O que preocupa os técnicos não é o impacto fiscal direto, mas a velocidade de crescimento e o fato de que o CID F63.0 é apenas a ponta visível de um problema muito maior, que extrapola a Previdência.
Onde o problema mais aparece: SP, MG, RS, RJ e PR concentram os casos
A distribuição geográfica dos benefícios concedidos mostra forte concentração nos estados de maior população e maior penetração das apostas online. São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná lideram em número absoluto de afastamentos com CID F63.0. Juntos, respondem pela maior parte das concessões registradas desde 2023.
Essa concentração se encaixa no mapa que já havia sido traçado pelo próprio levantamento fiscal das unidades federativas: são os estados em que a saída de renda das famílias para plataformas de apostas é mais pesada e em que o impacto no consumo e na saúde mental é mais visível. O cruzamento sugere que o INSS funciona como termômetro atrasado de um fenômeno econômico que já aparece há mais tempo nas receitas estaduais, no comércio e nas unidades de saúde.
Para o segurado, a leitura prática é direta: a chance de ter o benefício concedido não depende do estado, mas o perfil de quem vem procurando o INSS por esse motivo está fortemente associado a regiões metropolitanas e a trabalhadores de baixa e média renda com uso intenso de celular para apostar.
O custo que não aparece no contracheque: saúde pública e saída de renda
Os R$ 4,8 milhões do INSS são apenas uma fatia pequena do custo real das apostas para o país. Dois levantamentos oficiais mostram a dimensão do problema por outros ângulos.
O primeiro é o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros (3ª edição), que estimou em R$ 62,5 bilhões a saída líquida de renda das famílias brasileiras para o mercado de apostas em 2025. Esse é o dinheiro que entrou nas plataformas e não voltou para a economia local em forma de consumo, poupança ou pagamento de dívidas. Para efeito de comparação, é um valor da ordem de grandeza de programas sociais inteiros.
O segundo é a estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que calcula em cerca de R$ 30,6 bilhões por ano o custo adicional em saúde atribuível ao avanço das apostas no Brasil. Esse montante considera o aumento de atendimentos por transtornos mentais, consultas, internações, medicamentos e perda de produtividade associados ao jogo patológico e aos quadros de ansiedade e depressão que o acompanham.
Diante desses números, os R$ 4,8 milhões pagos pelo INSS em três anos aparecem como a parte minúscula e visível de um iceberg bem maior — justamente a parte que exige atestado médico, perícia e processo administrativo para ser contabilizada.
Há ainda um terceiro vetor de preocupação. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) conduz inquérito sobre a BetBoom e outras plataformas suspeitas de práticas abusivas contra consumidores vulneráveis, incluindo endividamento induzido e cobranças irregulares. Investigações como essa reforçam a leitura de que o problema não se resolve apenas pelo lado do segurado adoecido: envolve também a conduta das empresas e a regulação do setor.
Como pedir auxílio-doença por ludopatia (CID F63.0) no INSS
Quem desenvolveu dependência de apostas e, por causa disso, está incapaz de trabalhar pode solicitar o benefício por incapacidade temporária. O processo é o mesmo de qualquer outra doença incapacitante, desde que haja laudo médico e cumprimento das regras gerais da Previdência.
Em linhas gerais, os passos são:
- Buscar atendimento médico — psiquiatra, clínico geral, CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou ambulatório especializado. O profissional precisa emitir atestado com o CID correspondente (F63.0 para jogo patológico, ou códigos de depressão/ansiedade quando houver comorbidade), descrição do quadro e indicação de afastamento do trabalho.
- Reunir a documentação — documento de identidade, CPF, carteira de trabalho, comprovantes de contribuição ao INSS (quando autônomo ou MEI) e o relatório médico detalhado.
- Agendar a perícia médica federal pelo aplicativo Meu INSS, pelo site gov.br/inss ou pela central 135. Em alguns casos, o INSS aceita análise documental sem perícia presencial (Atestmed), desde que o atestado atenda aos critérios da autarquia.
- Carência: para doenças comuns, incluindo transtornos mentais, o segurado precisa ter, em regra, 12 contribuições mensais ao INSS antes do início da incapacidade. Há exceções previstas em lei para casos graves.
- Qualidade de segurado: é preciso estar contribuindo ou dentro do "período de graça" (prazo em que a pessoa mantém a cobertura mesmo sem contribuir).
Se o INSS reconhecer a incapacidade, o benefício é concedido com prazo determinado para reavaliação. Durante o afastamento, o trabalhador deve seguir o tratamento indicado — e é esse acompanhamento que, mais tarde, define se o benefício será prorrogado, cessado por recuperação ou, em casos extremos e persistentes, convertido em aposentadoria por incapacidade permanente.
Quem paga os primeiros 15 dias e quando o INSS entra
Trabalhadores com carteira assinada afastados por mais de 15 dias passam a receber do INSS a partir do 16º dia; os primeiros 15 são pagos pelo empregador. Autônomos, MEIs e contribuintes individuais recebem do INSS desde o início da incapacidade, respeitada a carência.
O que fazer antes de chegar ao afastamento
O afastamento previdenciário é a última etapa de um processo que começa muito antes, com sinais que costumam ser ignorados: aumento do tempo gasto apostando, uso do limite do cartão de crédito e do cheque especial para cobrir perdas, pedido de empréstimos sucessivos, mentiras sobre o quanto se está jogando, irritabilidade e queda no rendimento no trabalho.
Quando esses sinais aparecem, há caminhos antes do adoecimento grave:
- Procurar ajuda profissional cedo — a rede pública oferece atendimento em CAPS, em unidades básicas de saúde e, em algumas capitais, em ambulatórios especializados em transtornos do impulso.
- Grupos de apoio — reuniões no modelo dos "Jogadores Anônimos" existem em várias cidades e são gratuitas.
- Bloquear o acesso às plataformas — a regulamentação das bets prevê mecanismos de autoexclusão, que o próprio usuário pode acionar.
- Reorganizar as finanças antes de recorrer ao crédito — renegociar dívidas diretamente com os credores, usar programas públicos de renegociação e evitar "empurrar" o problema com empréstimos novos, que tendem a aprofundar o quadro.
- Envolver a família — o tratamento do jogo patológico tem melhores resultados quando há suporte familiar e controle compartilhado do orçamento.
O recado dos números
Os 377 afastamentos de 2026 e os R$ 4,8 milhões pagos pelo INSS desde 2023 são, isoladamente, cifras pequenas. Ganham peso quando colocadas ao lado dos R$ 62,5 bilhões que saíram do bolso das famílias para as bets em 2025 e dos R$ 30,6 bilhões anuais que o IEPS estima como custo adicional em saúde. Juntos, esses dados mostram que o impacto das apostas no Brasil deixou de ser debate econômico e virou também pauta de saúde pública e de Previdência Social.
Para o trabalhador, o recado prático é duplo. Primeiro: o jogo patológico é uma doença reconhecida e dá direito aos mesmos benefícios por incapacidade de qualquer outro transtorno — não há por que esconder o diagnóstico na hora da perícia. Segundo: quanto antes se buscar ajuda, menor é a chance de o problema evoluir para endividamento grave, afastamento prolongado e perda de qualidade de vida. O INSS é rede de proteção, não ponto de chegada desejável.
Referências
- Ministério da Previdência Social — concessões de auxílio por incapacidade temporária com CID F63.0 (jun/2023 a ago/2026)
- Portal de Dados Abertos do INSS — pagamentos de benefícios por incapacidade temporária com CID F63.0
- Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros — 3ª edição (saída de renda das famílias para apostas em 2025)
- Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) — estimativa de custo adicional em saúde atribuível às apostas
- Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) — inquérito sobre plataformas de apostas
- Ambulatório de transtornos do impulso do Hospital das Clínicas da FMUSP
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