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Rotativo do cartão a 445% ao ano entra na mira do governo

Enquanto o crédito mais caro do país movimenta R$ 311 bilhões em oito meses, Lula estuda limitar o uso de cartões e o consignado desponta como saída para quitar a fatura.

Uche Ochôa

📖 12 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O rotativo do cartão de crédito atingiu 445% ao ano em 2026 e movimentou R$ 311 bilhões nos oito primeiros meses do ano, segundo o Banco Central.
  • O presidente Lula defendeu em 1º de outubro criar regras para limitar o uso de cartões de crédito e conter o endividamento das famílias.
  • O consignado do INSS tem margem total de 45% do benefício e prazo de até 108 meses, com juros muito menores que os do rotativo do cartão.
  • Antes de pagar só o mínimo da fatura, consulte sua margem de consignado: trocar a dívida do cartão por essa linha costuma sair bem mais barato.

O crédito mais caro oferecido ao brasileiro voltou a bater recorde em 2026 e já começa a mobilizar o Palácio do Planalto. O rotativo do cartão de crédito — aquela linha que entra em cena quando o consumidor paga menos do que o valor total da fatura — fechou os oito primeiros meses do ano movimentando R$ 311 bilhões, com juros que chegaram a 445% ao ano. O volume e o custo levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a defender, em 1º de outubro, uma proposta para limitar o uso de cartões e evitar que famílias afundem na dívida.

Nesta reportagem, você vai entender por que o rotativo ficou tão caro, o que o governo quer mudar, como o consignado se transformou na principal alternativa para quem já caiu nessa armadilha e, principalmente, o que fazer antes de a próxima fatura chegar.

A comparação é brutal: enquanto o rotativo cobra centenas por cento ao ano, o empréstimo consignado — aquele descontado direto do contracheque ou do benefício do INSS — opera com juros que, segundo o próprio Banco Central, costumam ficar entre as menores taxas do mercado. É dessa diferença que nasce o alerta: trocar dívida cara por dívida barata pode ser o único movimento capaz de recolocar o orçamento familiar nos trilhos.

Quanto custa na prática? Você pode conferir a sua condição no simulador do consignado CLT antes de decidir — a consulta é gratuita e sem compromisso.

Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.

Por que o rotativo do cartão é o crédito mais caro do Brasil

O rotativo é um financiamento automático. Ele é acionado no momento em que o cliente paga qualquer valor abaixo do total da fatura — inclusive quando quita só o pagamento mínimo. A partir dali, o saldo que sobrou vira uma dívida, e sobre essa dívida incidem juros diários altíssimos até o próximo vencimento, quando normalmente é feita a conversão em parcelamento.

A lógica por trás do preço é que o banco empresta sem garantia, sem desconto em folha e sem saber se o cliente vai conseguir pagar. Para compensar o risco de calote, embute uma taxa que acaba sendo a maior entre todas as linhas de crédito pessoa física medidas pelo Banco Central. Em 2026, essa taxa chegou à marca de 445% ao ano, patamar que faz uma dívida de R$ 1.000 saltar para algo próximo de R$ 5.450 em doze meses, se nada for pago no caminho.

Desde 2024 existe uma trava legal: o valor total cobrado no rotativo e no parcelamento da fatura não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. Ou seja, se você devia R$ 1.000, o banco não pode cobrar mais do que R$ 2.000 ao final — somando principal e juros. A regra evita o descontrole absoluto, mas não resolve o problema de fundo: a taxa continua altíssima e, mesmo com o teto, qualquer atraso compromete o orçamento por meses.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também já havia chamado a atenção para a disparada do rotativo e para o impacto que esse tipo de endividamento provoca na renda das famílias. A mensagem é a mesma repetida há anos pela autoridade monetária: o rotativo deve ser evitado e, se já foi acionado, precisa ser substituído por uma linha mais barata o quanto antes.

R$ 311 bilhões em oito meses: o tamanho do problema

O número que acendeu o sinal vermelho é o volume de concessões. Em oito meses de 2026, o rotativo movimentou R$ 311 bilhões. Para dar escala: é como se, a cada mês deste ano, cerca de R$ 39 bilhões tivessem entrado na conta do crédito mais caro do país.

Esse montante não representa apenas gente comprando por impulso.

Boa parte dele vem de famílias que usam o cartão para cobrir despesas básicas — mercado, farmácia, conta de luz, material escolar — e que, no fim do mês, não conseguem fechar a fatura inteira. É o chamado "endividamento de sobrevivência": o cartão vira uma extensão informal do salário, e o rotativo acaba sendo o preço pago por essa folga artificial.

O problema é que, uma vez dentro do rotativo, sair custa caro. Com juros compostos a 445% ao ano, a dívida dobra em pouco mais de três meses mesmo quando o cliente paga o mínimo exigido na fatura. Em pouco tempo, a parcela mínima deixa de caber no orçamento, o nome vai para a negativação e o acesso a crédito mais barato — que exige análise de risco — também fica comprometido. É um círculo que se alimenta sozinho.

Juros médios do mercadoTaxa média mensal de juros por tipo de crédito, para pessoa física.
Empréstimo pessoal6,39% a.m.
Cheque especial7,43% a.m.
Cartão de crédito rotativo15,18% a.m.

Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.

A tabela acima, atualizada pelo Banco Central, mostra em números a distância entre o rotativo e as linhas com garantia, como o consignado. É essa distância que explica por que, na visão de técnicos e do próprio governo, migrar a dívida é a saída mais racional para quem está preso ao cartão.

A proposta de Lula para limitar o cartão de crédito

Em 1º de outubro de 2026, o presidente Lula defendeu publicamente a criação de regras mais rígidas para o uso do cartão de crédito, com o objetivo de impedir que o consumidor contrate limites que não terá condição de pagar. A ideia central discutida é vincular o limite ofertado à renda comprovada do cliente, reduzindo a exposição de famílias de baixa renda ao rotativo.

A justificativa do governo é que, hoje, bancos e emissoras concedem limites muito acima da capacidade de pagamento do cliente. Quando o consumidor usa esse limite inteiro e não consegue quitar a fatura, cai no rotativo — e passa a pagar os 445% ao ano que levaram o tema para a mesa do Planalto. Limitar a oferta, segundo essa visão, reduziria o volume de novos entrantes no crédito mais caro do país.

A proposta ainda precisa percorrer o rito regulatório. Qualquer mudança estrutural na forma como cartões são emitidos passa pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), e eventualmente pelo Congresso, caso envolva alteração em lei. Até lá, a regra atual continua valendo: o limite é definido livremente pelo emissor, com base em sua própria análise de risco.

Consignado: a alternativa que cobra até 8 vezes menos

Enquanto o rotativo opera na casa das centenas por cento ao ano, o empréstimo consignado é hoje a linha de crédito pessoal mais barata disponível no mercado — porque tem uma garantia poderosa: o desconto automático em folha de pagamento ou direto no benefício do INSS. Essa garantia reduz drasticamente o risco de inadimplência para o banco, e esse menor risco é repassado ao cliente em forma de juros muito menores.

As regras do consignado estão definidas pela legislação federal e pelo próprio INSS. Para aposentados e pensionistas, o prazo máximo do contrato é de 108 meses [REG], e a margem consignável total — ou seja, o quanto do benefício pode ser comprometido com descontos de crédito — é de 45% [REG]. Essa margem é dividida em três fatias de destinação fixa: 35% para o empréstimo consignado, 5% para o cartão de crédito consignado (RMC) e 5% para o cartão de benefício consignado (RCC) [REG].

Importante: as fatias dos cartões são exclusivas dos cartões; quem não tem RMC nem RCC continua limitado aos 35% no empréstimo, e não soma os 10% restantes.

A primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação [REG].

Uma observação importante para quem acompanhou o noticiário no primeiro semestre: a MP 1.355/2026 havia reduzido a margem total de 45% para 40% entre maio e agosto de 2026, mas a medida caducou em 31 de agosto. Desde então, a margem voltou aos 45%, com efeito prático a partir de 2 de setembro de 2026 — qualquer informação circulando com o número de 40% está desatualizada [REG].

Já o trabalhador com carteira assinada (CLT) tem acesso ao consignado privado, com prazo máximo de 96 meses e margem de 35% destinada integralmente ao empréstimo, uma vez que não há modalidade de cartão nessa categoria [REG]. É esse desenho — garantia de desconto em folha, prazo longo e taxa baixa — que faz do consignado o movimento natural para quem precisa quitar uma dívida de cartão e parar de pagar os 445% ao ano do rotativo.

E para quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS)? Ao contrário do que muito se divulga, a lei permite o uso do BPC/LOAS para contratação de consignado — não existe vedação legal [REG]. O que ocorre atualmente é que, diante do alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas reduziram a oferta do produto para esse público. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática está restrita no momento.

Como trocar a dívida do cartão pelo consignado passo a passo

A operação de trocar uma dívida cara por uma mais barata é chamada de portabilidade de dívida ou, de forma mais simples, troca de dívida. No caso do cartão para o consignado, o movimento costuma funcionar da seguinte forma:

1. Levante o valor exato da dívida do cartão. Peça ao emissor um boleto de quitação total — valor para pagar tudo de uma vez, sem parcelar. Esse número é o que o consignado precisa cobrir.

2. Simule o consignado considerando sua margem. Se você é aposentado ou pensionista do INSS, o cálculo da parcela máxima parte dos 35% do benefício destinados ao empréstimo [REG]. Se é CLT, parte dos 35% do salário [REG]. A simulação pode ser feita diretamente nos canais oficiais do INSS (aplicativo e site Meu INSS) ou no banco onde você recebe.

3. Compare o custo total das duas operações. Não olhe apenas a parcela — olhe o Custo Efetivo Total (CET), que inclui juros, tarifas e seguros. Uma parcela menor em um prazo mais longo pode significar mais juros pagos no fim. Ainda assim, trocar 445% ao ano por uma taxa de dois dígitos anuais costuma ser vantajoso em qualquer cenário.

4. Contrate o consignado e use o dinheiro para quitar o cartão imediatamente. Esse passo é o mais importante — e o que mais falha. Se o dinheiro do consignado entrar na conta e for usado para qualquer outra coisa, a dívida do cartão continua rodando a 445% ao ano, e você passa a ter duas dívidas em vez de uma.

5. Reduza o limite do cartão para evitar reincidência. Depois de quitar, peça ao emissor para baixar o limite para um valor compatível com o que você consegue pagar integralmente todo mês. Essa medida simples é a que impede o retorno ao rotativo nos meses seguintes.

O que fazer antes de pagar só o mínimo da fatura

Se você está lendo esta reportagem porque a fatura chegou maior do que o esperado, respira. Antes de clicar em "pagamento mínimo" — que é a porta de entrada do rotativo e dos juros de 445% ao ano —, considere a seguinte sequência:

Negocie o parcelamento da fatura diretamente com o banco. O parcelamento oferecido pelo emissor costuma ser caro, mas ainda é muito mais barato do que o rotativo. É melhor dividir a fatura em 12 ou 24 vezes, com juros definidos no contrato, do que deixar o saldo rolar.

Verifique sua margem de consignado antes de aceitar o parcelamento do cartão. Em muitos casos, o consignado — mesmo contratado com urgência — sai mais barato que o parcelamento oferecido pelo próprio emissor do cartão. A consulta de margem é gratuita e pode ser feita no aplicativo Meu INSS, para aposentados e pensionistas, ou junto ao RH da empresa, para trabalhadores CLT.

Fuja de ofertas que chegam por telefone, SMS ou WhatsApp prometendo liberação "na hora". Nenhuma instituição séria oferece consignado por mensagem não solicitada. Golpes nesse formato se multiplicaram em 2026, e a conta — literalmente — fica para a vítima. A contratação segura é feita sempre pelos canais oficiais do banco e com o benefício averbado pelo INSS.

Procure um Procon ou a Defensoria Pública se já estiver inadimplente. Quem já perdeu o controle da dívida tem direito à chamada repactuação do superendividamento, prevista em lei desde 2021. O processo força os credores a sentar na mesa e aceitar um plano de pagamento compatível com a renda do consumidor, preservando o chamado mínimo existencial.

O que esperar daqui para frente

A combinação de volume recorde (R$ 311 bilhões em oito meses), juros de 445% ao ano e manifestação direta do presidente da República indica que o tema do rotativo deve dominar a agenda regulatória financeira nos próximos meses. É provável que o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central avaliem ajustes adicionais na forma de concessão de limite, nos critérios de análise de risco e, eventualmente, em novas travas sobre o custo do rotativo.

Enquanto essas mudanças não chegam, a decisão continua nas mãos do consumidor. E, para quem tem acesso ao consignado — seja pelo INSS, seja pela carteira assinada —, a conta é simples: trocar o cartão pelo consignado pode significar pagar uma fração do que vinha sendo cobrado, com prazo mais longo e parcela que efetivamente cabe no orçamento. O "até 8 vezes menos" do título não é força de expressão: é o que o próprio Banco Central mostra, mês após mês, no comparativo oficial de taxas.

O próximo passo prático é um só: antes da próxima fatura, consulte sua margem consignável, simule a troca e, se a conta fechar, faça o movimento. É a diferença entre terminar o ano devendo cinco vezes mais ou começar 2027 com uma dívida controlada.

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Referências

  • Banco Central do Brasil — Estatísticas monetárias e de crédito, concessões e taxas do rotativo do cartão (dados de 2026)
  • Pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre limitação do uso de cartões de crédito (01/10/2026)
  • Banco Central do Brasil — Declarações do presidente Gabriel Galípolo sobre o rotativo e o endividamento das famílias (2026)
  • INSS — Instrução Normativa sobre empréstimo consignado para aposentados e pensionistas (margem de 45% e prazo de até 108 meses)
  • Lei nº 14.181/2021 — Lei do Superendividamento (repactuação de dívidas e mínimo existencial)
  • MP nº 1.355/2026 — alteração temporária da margem consignável, com caducidade em 31/08/2026

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