Close-up de mãos segurando e contando notas em dólar americano dentro de casa.

Peic: 82% das famílias têm dívidas em julho de 2026

Pesquisa Peic/CNC aponta que 82% dos lares brasileiros tinham dívidas em julho de 2026. Veja alternativas de crédito e como sair do vermelho.

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Tatiana Botelho

📖 13 min de leitura

O sinal de alerta acendeu de vez no orçamento das famílias brasileiras. Em julho de 2026, o percentual de lares com algum tipo de dívida a pagar chegou a 82%, o maior patamar já registrado desde o início da série histórica da pesquisa de endividamento do consumidor. Na prática, isso significa que, em cada dez casas, mais de oito têm hoje pelo menos uma conta parcelada, um cartão de crédito rotativo, um carnê aberto ou um financiamento em andamento. E o pior: enquanto o tamanho da dívida cresce, o acesso a crédito mais barato para reorganizar essas contas ficou mais estreito, porque os juros seguem em patamares elevados e os bancos apertaram os critérios para liberar dinheiro novo.

Esta reportagem foi pensada para quem está sentindo esse aperto no bolso e quer entender, de forma direta, o que está por trás desse recorde, como os juros altos empurram cada vez mais pessoas para a inadimplência, quais alternativas de crédito ainda fazem sentido para trabalhadores com carteira assinada, aposentados e pensionistas, e — o mais importante — o passo a passo prático para começar a sair do vermelho a partir de hoje, mesmo em um cenário econômico difícil.

O que mostra a pesquisa de endividamento em julho de 2026

O indicador que mede o nível de endividamento das famílias brasileiras é acompanhado mensalmente e serve como um termômetro do bolso do consumidor. Em julho de 2026, o levantamento apontou que 82% dos lares brasileiros declararam ter algum tipo de dívida a vencer — um recorde absoluto na comparação com todos os meses anteriores da série. Esse número engloba diferentes tipos de compromissos financeiros: cartão de crédito, carnê de loja, crediário, cheque especial, empréstimo pessoal, financiamento de carro, financiamento de imóvel e crédito consignado.

O cartão de crédito continua sendo, disparado, a principal fonte de endividamento das famílias brasileiras, seguido pelos carnês e pelo financiamento de veículos. Isso ajuda a explicar por que a bola de neve cresce tão rápido: o cartão é o produto mais fácil de contratar, mas também o mais caro do mercado quando o consumidor deixa de pagar o valor total da fatura e entra no crédito rotativo.

Outro dado que preocupa é o percentual de famílias que estão com contas em atraso — ou seja, que já não conseguiram pagar alguma parcela no vencimento. Esse indicador é ainda mais sensível, porque mostra que parte relevante do endividamento já virou dívida efetivamente vencida, o que restringe o CPF do consumidor, dificulta novas compras e pode levar à negativação em cadastros de proteção ao crédito.

Há também um subgrupo que merece atenção especial: as famílias que se declaram sem qualquer condição de pagar suas dívidas atrasadas. Esse é o estágio mais crítico do endividamento, porque significa que a renda mensal já não cobre nem o mínimo dos compromissos assumidos. Nesses casos, a solução dificilmente virá apenas de um novo empréstimo — passa, obrigatoriamente, por renegociação e reorganização do orçamento.

Por que os juros altos estão travando o acesso ao crédito

O cenário atual tem uma engrenagem clara: juros básicos elevados encarecem todo o crédito na ponta, e crédito caro reduz tanto a demanda quanto a oferta. Quando o custo do dinheiro sobe, os bancos ficam mais seletivos ao aprovar operações, exigem score de crédito mais alto, reduzem limites e encurtam prazos. É um movimento de proteção das instituições financeiras diante do risco de calote, mas que, do lado do consumidor, se traduz em portas fechadas justamente no momento em que ele mais precisa de fôlego.

O problema é que muita gente recorre ao crédito não para consumir, mas para tapar buracos — quitar boletos atrasados, pagar conta de luz, comprar remédio, cobrir a fatura do cartão. Quando esse consumidor procura o banco e leva um "não" ou uma taxa impraticável, a saída acaba sendo empurrar a dívida para frente, geralmente pelo rotativo do cartão ou pelo cheque especial, duas das linhas de crédito mais caras que existem no país. É aí que o endividamento se transforma em superendividamento.

Outro efeito colateral dos juros altos é o aumento do peso da parcela dentro da renda familiar. Uma prestação que antes cabia no orçamento passa a apertar quando o consumidor renova o financiamento com taxas mais altas ou quando refaz o cartão em novas condições. E, como a renda do trabalhador normalmente não sobe na mesma velocidade dos juros, o resultado é matemático: sobra menos dinheiro no fim do mês, e a chance de atrasar alguma conta aumenta.

Há ainda um efeito psicológico importante. Em ambientes de crédito escasso, cresce a procura por alternativas informais, como agiotas, ofertas suspeitas na internet e golpes que prometem "liberação garantida sem consulta". Esse é um risco real e crescente para quem está desesperado por dinheiro rápido. O consumidor precisa redobrar a atenção: instituição financeira séria é autorizada pelo Banco Central, não cobra taxa antecipada para liberar empréstimo e nunca pede depósito prévio para "destravar" o crédito.

Como o endividamento pesa no dia a dia das famílias

Quando 82% dos lares têm dívida ativa, o efeito ultrapassa a planilha do banco e chega à mesa de casa. O primeiro impacto é o corte de itens básicos: famílias endividadas costumam reduzir gastos com alimentação de qualidade, plano de saúde, medicamentos e educação para tentar manter as parcelas em dia. Isso significa que a dívida não é só um problema financeiro — ela vira um problema de saúde, de convivência familiar e de bem-estar.

O segundo impacto é a perda de poder de negociação. Quem está no vermelho normalmente aceita a primeira proposta que aparece, seja de um novo empréstimo, seja de uma renegociação. Bancos e financeiras sabem disso e, em muitos casos, oferecem condições piores do que ofereceriam a um cliente com o CPF limpo. Além disso, o consumidor endividado costuma pagar mais caro em compras à vista, porque não consegue mais aproveitar programas de fidelidade, cashback ou parcelamento sem juros por causa dos limites baixos ou do nome sujo.

O terceiro impacto — e talvez o mais silencioso — é a paralisia. Muita gente, ao perceber o tamanho do rombo, simplesmente para de abrir boletos, de atender ligações do banco e de olhar o extrato. Esse comportamento, embora compreensível do ponto de vista emocional, agrava a situação: os juros continuam correndo, a dívida é vendida para empresas de cobrança e o consumidor perde janelas importantes de renegociação com desconto oferecidas pelo próprio credor original.

Para aposentados e pensionistas, o cenário tem um agravante. Como o benefício previdenciário é fixo e reajustado uma vez por ano, qualquer aumento de despesa ou juros extras compromete diretamente o mês seguinte. Não há hora extra, não há bico, não há aumento por mérito. Por isso, esse público precisa ter cuidado redobrado ao aceitar propostas de crédito, especialmente aquelas oferecidas por telefone ou por mensagem sem que o titular tenha solicitado.

Alternativas de crédito que ainda valem a pena avaliar

Mesmo com o crédito mais caro em geral, ainda existem linhas com juros bem abaixo da média do mercado — e conhecer essas opções é o primeiro passo para trocar dívida cara por dívida barata. A regra é simples: quanto maior a garantia oferecida ao banco, menor tende a ser a taxa cobrada.

Empréstimo consignado do INSS. Para aposentados e pensionistas do INSS, o consignado é hoje a linha de crédito de menor custo disponível no varejo. As parcelas são descontadas diretamente do benefício, o que reduz o risco de calote e permite juros mais baixos. Conforme as regras vigentes em 2026, o prazo máximo é de 108 meses e a margem consignável total é de 40% do valor do benefício. Desse total, 5% são reservados exclusivamente para cartão benefício ou cartão consignado. Ou seja: se o aposentado já tem algum cartão contratado, sobram 35% para o empréstimo consignado; se não tem nenhum cartão, os 40% inteiros podem ir para o empréstimo. A primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação.

Empréstimo consignado para trabalhador CLT. Quem tem carteira assinada também tem acesso ao consignado privado, com desconto direto na folha de pagamento. O prazo máximo é de 96 meses e a margem consignável é de 35% do salário, integralmente destinados ao empréstimo — atualmente não existe modalidade de cartão nessa linha. É uma alternativa poderosa para trocar dívidas caras de cartão e cheque especial por uma parcela única, mais barata e previsível.

BPC/LOAS e o consignado. Uma dúvida comum é se quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) pode fazer empréstimo consignado. Por lei, sim: o BPC/LOAS não tem vedação legal para o consignado, e é incorreto afirmar que esse público está proibido de contratar. O que ocorre atualmente é diferente: por causa do alto volume de cessações e revisões desses benefícios, as instituições financeiras autorizadas recuaram na oferta prática. Portanto, é permitido por lei, mas a disponibilidade junto aos bancos está reduzida no momento — e o beneficiário deve avaliar caso a caso, sem contar com garantia de aprovação.

Crédito com garantia. Linhas como o crédito com garantia de imóvel (home equity) e o crédito com garantia de veículo costumam ter juros bem menores que os do cartão e do cheque especial, porque o bem oferecido reduz o risco do banco. A contrapartida é o risco de perder o bem em caso de inadimplência, o que exige planejamento realista antes de assinar o contrato.

Saque-aniversário do FGTS. Quem optou pela modalidade saque-aniversário pode antecipar parcelas futuras junto aos bancos, com taxas geralmente menores que as do crédito pessoal comum. É uma alternativa interessante em situações pontuais, mas é preciso lembrar que essa opção impede o saque total do FGTS em caso de demissão sem justa causa.

Como sair do vermelho: passo a passo prático

Mais importante do que buscar um novo crédito é reorganizar o que já está contratado. O caminho testado por especialistas em orçamento doméstico segue basicamente cinco etapas.

1. Colocar tudo no papel. O primeiro passo, e o mais desconfortável, é listar cada dívida: credor, valor total em aberto, valor da parcela, taxa de juros e vencimento. Sem esse mapa completo, é impossível decidir qual dívida atacar primeiro. Muitos consumidores subestimam o próprio endividamento porque só olham a parcela do mês, e não o saldo devedor.

2. Identificar a dívida mais cara. Feita a lista, o próximo passo é ordenar as dívidas pela taxa de juros, da mais alta para a mais baixa. Normalmente, no topo aparecem rotativo do cartão, cheque especial e crediários de loja. Essas são as dívidas que devem ser quitadas ou renegociadas primeiro, porque são elas que fazem a bola de neve crescer.

3. Trocar dívida cara por dívida barata. Aqui entra a estratégia da portabilidade e da consolidação. Para trabalhadores CLT, aposentados e pensionistas com acesso a consignado, faz sentido avaliar a contratação de um consignado justamente para quitar as dívidas mais caras. A parcela cabe no orçamento, o juro é menor e o prazo mais longo dá fôlego. O risco a evitar é o clássico: pegar o consignado, quitar o cartão e voltar a usar o cartão do zero, dobrando o endividamento.

4. Renegociar diretamente com o credor. Bancos, financeiras e lojas costumam oferecer descontos relevantes para quitação à vista ou entrada seguida de parcelamento longo, especialmente em dívidas já em atraso. Existem mutirões periódicos de renegociação, com propostas que chegam a descontos expressivos sobre o valor original. Vale procurar canais oficiais do credor e evitar intermediários que cobram taxa para "limpar o nome".

5. Reorganizar o orçamento para não recair. De nada adianta renegociar se o padrão de gastos continuar o mesmo. É preciso cortar assinaturas não usadas, revisar plano de celular e internet, planejar compras do mês e reservar mesmo uma pequena parte da renda para emergências. Essa reserva, ainda que modesta, evita que o próximo imprevisto — um pneu, uma consulta, uma conta de luz mais cara — volte a empurrar a família para o cartão de crédito.

O que esperar dos próximos meses e como se proteger

Enquanto os juros básicos permanecerem em patamares elevados, dificilmente veremos uma queda expressiva do custo do crédito ao consumidor no curto prazo. Isso significa que o consumidor precisa entrar no segundo semestre de 2026 com uma postura mais defensiva: menos compras parceladas em cartão, mais atenção a taxas efetivas anuais (o famoso CET, custo efetivo total), e priorização de linhas de crédito com garantia sempre que fizerem sentido.

Para quem depende de benefícios do INSS, vale reforçar dois cuidados. O primeiro é desconfiar de qualquer oferta de empréstimo recebida por telefone, WhatsApp ou SMS sem que o titular tenha solicitado — golpes contra aposentados cresceram nos últimos anos e costumam se aproveitar justamente do desespero financeiro. O segundo é acompanhar de perto o extrato do benefício, tanto pelo aplicativo Meu INSS quanto pelo extrato bancário, para identificar rapidamente qualquer desconto indevido e pedir contestação junto ao próprio INSS.

Para o trabalhador CLT, o momento é de olhar com atenção o holerite e entender quanto da margem consignável ainda está livre. Muitos trabalhadores só descobrem que têm direito ao consignado privado quando já contrataram um crédito pessoal muito mais caro. Antes de tomar qualquer empréstimo, vale simular a operação no consignado e comparar o CET com o do crédito pessoal, do cartão e do cheque especial.

Por fim, uma recomendação vale para todos os perfis: fugir do crédito rotativo do cartão. Sempre que a fatura vier acima do que dá para pagar, a melhor saída é pedir o parcelamento da própria fatura, que costuma ter juros bem menores do que o rotativo, e não simplesmente pagar o valor mínimo. Pagar o mínimo é a receita mais rápida para transformar uma dívida controlável em um problema crônico.

Resumo prático: o que fazer agora

O recorde de 82% de famílias endividadas em julho de 2026 não é apenas um número estatístico — é um retrato de milhões de brasileiros lidando com contas apertadas em um cenário de crédito caro. A boa notícia é que ainda existem alternativas viáveis para reorganizar o orçamento, especialmente para quem tem acesso a linhas de menor custo como o consignado do INSS (com até 108 meses de prazo e margem de 40%, sendo 35% para empréstimo se já houver cartão contratado) e o consignado CLT (até 96 meses de prazo, com 35% de margem).

O próximo passo prático para o leitor é claro: liste todas as suas dívidas hoje, identifique a mais cara, avalie se você tem acesso ao consignado para trocar dívida cara por dívida barata, procure o credor para renegociar o que estiver em atraso e comece — mesmo com pouco — a reorganizar o orçamento mensal. Sair do vermelho em um cenário de juros altos é mais lento, mas continua sendo totalmente possível quando o consumidor assume o controle das próprias contas em vez de deixá-las controlarem ele.

Referências

  • Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), edição de julho de 2026.
  • Parâmetros regulatórios vigentes em 2026 para crédito consignado do INSS (prazo máximo de 108 meses, margem consignável total de 40% do benefício, sendo 5% reservados a cartão benefício/consignado, carência de até 90 dias para a primeira parcela), consignado CLT (prazo máximo de 96 meses e margem de 35% integralmente destinada a empréstimo) e BPC/LOAS (permitido por lei, mas com oferta prática restrita pelas instituições financeiras).

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